Fulvio Pierangelini, à frente da gastronomia dos hotéis Rocco Forte, expressa a cozinha italiana com sentimentalidade
Há 16 anos como diretor criativo da culinária de todas as propriedades do grupo, o chef trabalha com cuidado técnico e apreço aos produtos

Um dos fatos que distinguem os italianos de outras nacionalidades é como se relacionam com a comida, o que envolve: amor incondicional, respeito pelos ingredientes, apreço por manter vivas as tradições e orgulho profundo de sua terra e produtos oriundos. Já escreveu Elizabeth David, em seu clássico livro Italian Food: “Na Itália, sempre vale a pena descobrir o que deve ser experimentado em cada região, e isso se aplica a vinhos, queijos, embutidos, frutas e vegetais”.
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Não teria como diferir num grupo de hotéis verdadeiramente italianos. O Rocco Forte Hotels pertence a uma família que se preocupa com todos os detalhes para apresentar a seus hóspedes a cultura e o estilo de vida de seu país. A depender da localização da propriedade, as abordagens são distintas, mas, no fim do dia, tudo se conecta e se complementa perfeitamente. Atualmente, em território italiano, são seis hotéis, localizados em Roma, Florença, Sicília e Puglia; além das propriedades Rocco Forte House, em Milão e Roma; e as Private Villas, também na Sicília.

O restaurante Florio, no Hotel Villa Igiea, em Palermo
Em uma semana viajando pelas propriedades do grupo, entre a novíssima Rocco Forte House, em Milão; a encantadora Villa Igiea, em Palermo; e o ícone Hotel de Russie, em Roma, ficou claro que a gastronomia é levada bem a sério, mas ainda de forma simples. Uma comida que fala por si, eu diria. O nome por trás de tudo servido em todas as propriedades é Fulvio Pierangelini, chef admirado no país e mundo afora, que ganhou fama com o seu restaurante Gambero Rosso, duas estrelas Michelin, que fechou as portas em 2008, por decisão própria.
Foi justamente com ele que conversei num verdadeiro aperitivo italiano, diretamente do Stravinskij Bar, localizado no pátio interno do Hotel de Russie – tanto a hospedagem como o bar são altamente recomendáveis em uma viagem a Roma. Há 16 anos atua como diretor criativo de gastronomia de todas as propriedades do grupo, inclusive as fora da Itália, com exceção do Brown’s Hotel, em Londres. Sem delongas, Pierangelini conta: “Rocco [Forte, fundador do grupo homônimo] era um cliente habitual do meu restaurante, sempre durante o verão. Nós viramos amigos, e ele me pediu para me juntar a ele, para melhorar a gastronomia. Eu falei muitos nãos, até que, um dia, eu disse sim”.

Foto: Divulgação
Originário de uma família de classe média, a sua trajetória na cozinha começa logo após se graduar em ciências políticas, em Roma: “Depois, eu fui fazer o que eu queria: cozinhar. Eu entendi logo que tinha o talento necessário, algo que apenas me foi dado. Eu sabia que amava os produtos. Mas eu percebi que me faltava técnica. Por isso, fui me aprofundar”. E, desde então, nunca mais parou. “Para mim, descansar não é interessante. Eu gosto de trabalhar, eu gosto de cozinhar e de ensinar. Se você quer fazer o melhor, eu espero o melhor.”
Nos anos 1980, inaugurou o Gambero Rosso, onde ganhou os holofotes, prêmios e prestígio. Foram quase 30 anos até o fechamento da “instituição”. Ao começar a trabalhar para terceiros, ressignificou a sua atuação: “Eu gosto de ensinar chefs jovens. Não é fácil, mas é algo que adoro. Nos hotéis, eu faço tudo: o menu, defino o estilo, as receitas, escolho os ingredientes e trabalho com cada chef das propriedades. Em todos os passos, eu estou presente. Mantenho contato quase todos os dias com eles, para trocar ideias, mas, no fim do dia, eu preciso que as pessoas façam o que eu disse”.
A gastronomia dos hotéis reflete o cuidado e a atenção, justamente o que Pierangelini conta, com certo orgulho, durante a nossa conversa. Em todos os que estive, exceto no Rocco Forte House, de Milão (que é como um apartamento, o café da manhã servido é um box da Marchesi 1824), o dia começa com foco nos produtos italianos, sempre com acréscimo dos produtos locais. No Villa Igiea, é possível montar o próprio cannoli, originário da Sicília, e provar versões mais sofisticadas do street food de Palermo; em Roma, espere por abundância de queijos, como o pecorino romano, e criações inspiradas nos pratos clássicos, como o ovo carbonara.

Os camarões vermelhos de Mazara del Valle, servidos no Flório, em Palermo
“Meu estilo de cozinha é simples e fácil, não são pratos complicados, é sobre executar perfeitamente cada passo. É impossível pegar atalhos nas minhas receitas, são tão lineares que você não consegue. Não dá para perder nenhuma etapa. Isso é muito importante, porque, quando a técnica é tão precisa, não é possível fazer outra coisa, porque o resultado não será o mesmo”, explica.
Isso diz muito sobre o que comi em jantares no Villa Igiea e no Hotel de Russie, refeições que antecederam a nossa conversa. Uma cozinha que aparenta ser simples, mas que chega ao prato com perfeição: peixes frescos, massas feitas nos hotéis, finíssimas e no ponto de cocção ideal. Uma cozinha que coloca os produtos no centro, com extremo respeito.

A torta de cioccolato do Le Jardin, no hotel romano
“Você deve ir ao mercado, se apaixonar por um ingrediente e aí, sim, cozinhar. Essa é a única maneira. Nós somos quem podemos fazer isso e ir contra a massificação do gosto. São pequenas escolhas, que não são nada no dia a dia, mas representam muito”, comenta, e complementa: “Não somos apenas hotéis com quartos lindos e localizações perfeitas por preços altos. Nós fazemos muito mais que isso. Nós não usamos nada químico e temos respeito com tudo. Procuramos ser sustentáveis e solidários. Isso é luxo real”.
“São 50 anos fazendo isso. Eu posso ensinar a técnica, mas não a emoção e a sensibilidade.” E finaliza, me olhando bem nos olhos, em sua língua natal: “La bellezza del gesto è fondamentale, capisce?”. Sim, após dias totalmente embriagada pela beleza de tudo o que foi apresentado, compreendo.
Por Giulianna Iodice | Matéria publicada na edição 138 da Versatille



