Da manga-rosa quero o gosto e o sumo: conheça Kafe Bassi, chef confeiteira alemã que homenageia as frutas nativas brasileiras
Responsável pelas sobremesas do restaurante Manga, localizado no Rio Vermelho, em Salvador, a chef se destaca pela valorização de uma confeitaria brasileiríssima

No Rio Vermelho, bairro de Salvador, uma casa charmosa com as paredes vermelhas abriga um restaurante que se destaca pela valorização e pelo frescor de seus ingredientes e pelo equilíbrio entre estética e sabor. No Manga, do casal de chefs Dante e Kafe Bassi, os pratos chegam à mesa com louças em formatos inusitados e adornos de flores, o que é capaz de encantar os comensais à primeira vista. Tudo isso seria esquecível, no entanto, se os sabores não fizessem jus à beleza – o que não é o caso.
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Em 2024, a casa apareceu na lista estendida dos melhores restaurantes da América Latina pelo Latin America’s 50 Best Restaurants, mais precisamente na posição 90 do ranking. Para explicar esse feito, é possível abordar diversas características que fazem do Manga um restaurante notável, mas aqui vamos falar sobre uma das partes que mais marcaram minha visita ao local: a confeitaria brasileiríssima de Kafe.

Picolé de caju
Alemã de nascença e criação, a chef é a responsável por levar à mesa sobremesas e picolés que mais parecem obras de arte. O picolé de caju realmente se assemelha a uma miniatura da fruta, embora seja feito com calda de caju, sorvete de castanha de caju e cobertura de chocolate branco colorido com urucum. A mesma criatividade aparece nas sobremesas que homenageiam o mangostão, feito de baunilha na casquinha de chocolate, ou a pinha, também conhecida como fruta-do-conde, que leva uma combinação de fruta in natura, bolo de castanha-do-pará, musse de iogurte e chocolate branco com erva-cidreira.
Mesmo nos picolés mais comuns do cardápio – aqueles que possuem o clássico formato de um sorvete de palito –, as frutas nativas são protagonistas. Kafe já desenvolveu extensa lista de sabores: jambo com castanha-do-pará; manga e flor de laranjeira; couve-flor e morango; camomila, mel de uruçu, samburá e tangerina; acerola, baunilha e goiaba; entre muitos outros. Todos sazonais e pensados por uma apaixonada pelos sabores brasileiros.
“As frutas na Alemanha são completamente diferentes. Uma manga madura lá não é nada comparada com o que temos aqui, por isso desde o início eu me apaixonei”, conta Kafe. “Aqui, as frutas estão sempre em perfeito estado. Já são doces naturalmente, como eu nunca tinha visto no exterior.” Para ela, o mais surpreendente foi perceber que muitos brasileiros não valorizam as preciosidades que têm em mãos.

Cupuaçu e cogumelo
“Quando falamos de sobremesas no Brasil, encontramos muito doce de leite, caramelo, pudim ou frutas de fora, como morangos e framboesas. Tudo isso é muito bom, mas esse é um país com tantas frutas legais que rendem doces incríveis. Buscamos dar esse espaço no restaurante, e os clientes adoram”, destaca.
Ver a satisfação estampada no rosto de um cliente é revigorante, mas a etapa que realmente faz o coração de Kafe acelerar é o processo criativo. As ideias surgem diariamente, principalmente em suas visitas recorrentes a feiras e mercados. Mas uma receita nova só chega ao cardápio após inúmeros testes na cozinha, onde combinações de frutas, ervas, castanhas e folhas vão nascendo e dando lugar a sobremesas criativas e surpreendentes. “Essa é a parte de que eu mais gosto. Tocar, ver, cheirar e provar.”

Mangostão com sorvete de atemoia, iogurte, granita de uva e manjericão
Em sua visão, é essa busca por fazer algo realmente especial que diferencia o Manga. “Por mais que eu seja chef confeiteira, não sou uma pessoa que come muito doce. Só peço se realmente valer a pena. Tem que ser algo que encanta. E é isso que busco entregar”, reforça.
A percepção da chef sobre uma boa cozinha foi moldada ao longo de todas as suas experiências ao redor do mundo. Ela passou por restaurantes estrelados na Alemanha e na Suíça, além de ter trabalhado uma temporada no D.O.M., de Alex Atala, onde conheceu Dante, seu marido, com quem hoje tem quatro filhos. “Quando nosso primeiro filho nasceu, decidimos que estava na hora de abrir o nosso próprio restaurante. Na época, o questionamento foi: onde faremos isso? Alemanha ou Brasil?”

A sobremesa de cupuaçu fermentado e chocolate amargo
Uma pergunta a que os parentes de Dante, nascido em Salvador, ajudaram a responder. “A família dele fez a maior propaganda da cidade. Estávamos fora do país e eles já começaram a olhar pontos para aluguel”, relembra Kafe, com humor. A campanha pró-Salvador funcionou – para a sorte dos brasileiros, que conseguem visitar o Manga com mais facilidade. Hoje, o restaurante funciona à la carte ou com menu degustação de dez etapas. Já para quem quer provar apenas os picolés, eles fazem tanto sucesso que podem ser encomendados para viagem.
Com uma confeitaria que carrega pouco açúcar e muita valorização do que temos de melhor em solo nacional, pode-se dizer que Kafe é uma brasileira de alma e coração!
Por Beatriz Calais | Matéria publicada na edição 139 da Versatille



