Vinhos: a busca do enólogo Julio Bouchon pela garnacha chilena
Responsável pelos vinhos Longaví, Bouchon lança rótulo elegante feito com a variedade espanhola

Por André Sollitto
As garrafas de vinho que o chileno Julio Bouchon trouxe na mala são as primeiras de um novo rótulo que serão degustadas fora da vinícola. Representante de uma das mais tradicionais famílias de viticultores do Chile, Bouchon tem se dedicado a seu projeto pessoal, Longaví, que busca retratar o terroir de regiões como Itata e Maule a partir das chamadas castas patrimoniais, variedades de uvas que foram plantadas por missionários espanhóis no século XVI, muito antes da chegada das cepas de origem francesa.
Hoje, ele se dedica integralmente a produzir rótulos da Longaví, parceria com David Nieuwoudt, proprietário e enólogo da Cederberg, da África do Sul. A produção é limitada e ele compra uvas de pequenos produtores locais. Tem duas linhas. Uma mais descomplicada, chamada Glup, com varietais de Carignan e Cinsault, duas castas patrimoniais, além de um branco de Chenin Blanc, um rosado e um laranja feito com a Moscatel de Alexandria.
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A linha superior é feita a partir de uvas de terroirs especiais. O branco Cementério, feito com Chenin Blanc enxertada em pés de País com mais de 150 anos, é um deles. O portfólio conta ainda com blends de variedades tintas patrimoniais, como República, feito com Carignan e Monastrell. “Para mim, o terroir vem antes do marketing ou da construção da marca”, afirma Bouchon.
Além dessas variedades históricas, o enólogo queria produzir um tinto com a uva espanhola Garnacha, mas de perfil mais fresco e elegante. As tentativas começaram em 2017. Bouchon havia enxertado a uva garnacha sobre pés de País datados de 1945. Na hora da colheita, um incêndio na região fez com que os frutos ficassem com gosto de fumaça. Para não perder tudo, resolveu produzir um rosé que ficou por pouco tempo em contato com as cascas.

La Condesa, rótulo elaborado com a variedade Garnacha (Versatille/André Sollitto)
O experimento rendeu apenas três barricas. Alguns meses depois, Bouchon e sua equipe foram provar o vinho e perceberam que ele havia desenvolvido a flor – como é chamada a camada de leveduras que se forma normalmente nos vinhos produzidos em Jerez, na Espanha.
O vinho ficou mais alguns anos nas barricas até finalmente ser lançado sob o rótulo Reforma. Foi eleito o melhor rosé do Chile por três anos e é surpreendente pela complexidade.
Apesar do sucesso do rosado, Bouchon não desistiu do tinto. Procurou durante anos até encontrar um produtor da uva na Costa do Maule, perto do Oceano Pacífico. Ele fermanta as uvas em tanques de cimento. Depois, deixa o vinho durante oito meses em barricas velhas de carvalho francês. “Hoje, barricas velhas são um tesouro por conta de seus taninos mais delicados”, explica o enólogo.
O rótulo La Condesa da safra de 2024 tem um perfil mais fresco e elegante, com destaque para a fruta vermelha e um toque defumado que não vem das barricas, mas do solo granítico do Maule, segundo Bouchon. Como os outros vinhos da Longaví, o La Condesa será importado pela World Wine, com chegada prevista para os próximos meses.



