Villa Triacca: dos grãos aos grandes vinhos

Eleita Vinícola Revelação de 2026 pela Grande Prova de Vinhos do Brasil, Villa Triacca sintetiza o potencial do enoturismo e da vitivinicultura do Centro-Oeste; alta qualidade dos vinhos já rendeu até um estudo

Villa Triacca produror na poda
Produtor Ronaldo Triacca: primeiras parcelas de videiras foram plantadas em 2018 (Fotos: Divulgação)

Por Celso Masson

 

Até pouco tempo, a história da família Triacca seguia o roteiro clássico dos gaúchos que migraram rumo ao Centro-Oeste no final da década de 1970 em busca de oportunidades para empreender no agronegócio. Seu Claudino, o patriarca, iniciou a produção de grãos ao participar do PAD/DF, programa concebido e implantado pelo Governo do Distrito Federal para incorporar ao processo produtivo áreas rurais até então inexploradas. De início, uma gleba de 5 mil hectares foi dividida em 15 lotes destinados à produção de soja, milho, trigo e sorgo. Os Triacca estavam entre os pioneiros do PAD/DF. Montaram barracas, cavaram um poço para ter acesso à água e iniciaram o plantio em uma parte dos 300 hectares a que tinham direito. Pode até parecer muita terra, mas para os padrões de quem cultiva cereais no Cerrado, é uma área modesta. E foi justamente essa aparente limitação que abriu novas perspectivas. “Para crescer, precisávamos de uma atividade que agregasse valor ao negócio”, diz Ronaldo, um dos filhos de Claudino.

 

Com o mesmo espírito desbravador do pai, a segunda geração expandiu os horizontes em outras direções. Hoje, quem chega à Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa, a 60 km do aeroporto de Brasília, se surpreende com a beleza, a tranquilidade e a sensação de bem-estar que o lugar proporciona. Mas poucos imaginam a história que viabilizou sua criação. O espaço surgiu para suprir a falta de opções de hospedagem na região.

 

Por 15 anos, Ronaldo Triacca presidiu a AgroBrasília, um dos principais eventos do setor no país, capaz de atrair 600 expositores e um público que superou 180 mil visitantes em 2025. Muita gente precisa chegar antes para montar a feira e permanecer por ali ao longo dos cinco dias de duração. Não havia nenhuma pousada por perto, até Ronaldo ter a ideia de aproveitar uma área da propriedade da família para erguer seus primeiros chalés. “Eu perguntei a alguns dos expositores se eles poderiam antecipar o valor das diárias para que eu pudesse construir seis suítes. A resposta foi positiva e levantamos um capital inicial”, recorda Ronaldo. Nascia assim a Villa Triacca.

 

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Inicialmente voltado ao público do agro, o empreendimento cresceu após ganhar mídia espontânea em jornais locais e hoje integra a associação de hotéis Roteiros de Charme, um selo que certifica a qualidade das instalações e dos serviços. “A pandemia de Covid-19 despertou enorme interesse de moradores de Brasília e de Goiânia por um lugar onde fosse possível relaxar e até trabalhar de forma remota em contato com a natureza, com boa gastronomia e com a família proprietária cuidando da gestão”, afirma o visionário Ronaldo. Antes disso, porém, ele já havia dado uma guinada ainda mais surpreendente. Apaixonado por vinho, Ronaldo começou a estudar a viabilidade da viticultura na região por volta de 2015. O plano inicial era modesto – produzir uva de mesa para vinhos de consumo próprio.

 

O plano mudou completamente quando conheceu a técnica da dupla poda, desenvolvida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e validada inicialmente por produtores da Serra da Mantiqueira. Em um planalto a 1 mil metros em relação ao nível do mar e o Cerrado de altitude revelou-se um terroir propício para a colheita de inverno. Seu clima seco durante a estação mais fria do ano, em que há grande amplitude térmica e alta incidência solar, favorece a maturação fenólica da uva, algo essencial para elaborar vinhos de boa estrutura.

 

As primeiras parcelas de videiras foram plantadas por Triacca em 2018, mesma época em que a Vinícola Ercoara, também de Brasília, iniciava a colheita de uvas viníferas. O passo seguinte foi aproveitar a empolgação de outros produtores e unir esforços para criar uma estrutura própria de vinificação. Dez sócios investiram em cotas da Vinícola Brasília, que nasceu pautada pela busca de produtos excepcionais e foco em tecnologia de ponta. Desde então, esse grupo vem consolidando um novo polo de qualidade no mapa do vinho brasileiro.

 

Villa Triacca garrafas

Alguns dos rótulos produzidos em Brasília

Em 2023, o Petit Syrah Monumental, feito na Vinícola Brasília, foi selecionado entre as 16 amostras mais representativas da 31ª Avaliação Nacional de Vinhos – evento organizado anualmente pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), em Bento Gonçalves (RS). Na Avaliação de 2025, o Marselan da Villa Triacca, ainda sem rótulo, obteve 94 pontos, mesma nota dada ao corte de Cabernet Franc, Syrah e Marselan da Vinícola Ercoara.

 

Apenas um vinho da Avaliação teve nota mais alta: o Sesmarias, da Miolo, com 95 pontos. Fora do Brasil a recepção também foi excelente. O rótulo Seu Claudino Superiore Syrah (R$ 345), homenagem de Ronaldo ao pai, conquistou na França a medalha Gran Ouro Vinalies Internationales 2025. No concurso Decanter World Wine Awards 2024, em Londres, ficou com a medalha de bronze. Agora, acaba de ser eleita Vinícola Revelação de 2026 pela Grande Prova de Vinhos do Brasil.

 

Superior a Austrália

 

Villa Triacca vinhos à mesa

Hotel passou a integrar a associação Roteiros de Charme

Depois de a qualidade do vinho de Brasília ter sido comprovada pela crítica, veio o respaldo científico. Pesquisa conduzida por Fernanda Rodrigues Spinelli, da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), analisou as safras 2022 e 2023 elaboradas com a casta Syrah do Centro-Oeste. Os níveis de compostos fenólicos (ligados à cor e à estrutura do vinho), que têm propriedades antioxidantes e proporcionam outros benefícios para o organismo, se mostraram superiores aos de regiões tradicionais dessa variedade, como Austrália e África do Sul.

 

Em comparação com as outras amostras analisadas, a taxa de resveratrol, fitonutriente associado à proteção contra doenças cardiovasculares, é bem superior no Syrah do Centro-Oeste. “Isso foi apresentado em dois congressos da OIV, que tem sede na França, e trouxe muita atenção para o Brasil”, diz Fernanda. Uma das consequências imediatas foi a visita do diretor-geral da OIV, o neozelandês John Barker. Ele esteve na Villa Triacca e na Vinícola Brasília para conhecer de perto o trabalho desses produtores. “Pelas impressões que ele compartilhou, ficou claro o quanto se surpreendeu com a qualidade do que produzimos”, afirma a pesquisadora brasileira, que é também sommelier.

 

Com a chancela das mais confiáveis entidades do setor no Brasil e no mundo, o que era apenas o sonho de fazer vinho no bioma Cerrado se tornou um negócio central na vida de Ronaldo Triacca. Ele já produz 12 variedades de uvas finas que resultam em espumantes, brancos, rosés e tintos, muitos deles com rótulos homenageando familiares. Além de Seu Claudino, o pai, Dona Irani, a mãe, nomeia um rosé tranquilo, também de Syrah. E um retrato da esposa, Ana, aparece no espumante Bella Gringa, Rosé Nature avaliado com 92 pontos pela revista Adega.

 

Com 8,5 hectares de vinhedos plantados com variedades como a grega Assyrtiko e as italianas Sangiovese e Nebbiolo, Ronaldo pretende ampliar ainda mais os testes com outras castas e irá usar um pivô central (aparato comum nas lavouras de grãos) para irrigar uma parcela de novos vinhedos. Outra ousadia no campo que pode trazer boas surpresas. Acostumada a pautar o noticiário do país pela política, Brasília agora oferece uma narrativa bem mais saborosa.

 

Villa Triacca vista de cima

Fazenda se tornou o novo polo de turismo no Distrito Federal

Hospedagem e SPA com essência de vinhos

A aposta na vitivinicultura é bem mais que um capricho de Ronaldo Triacca. A cantina em estilo toscano na qual finaliza seus rótulos e o Vino Bar já recebem turistas para degustações guiadas, enquanto os vinhedos são o cenário ideal para piqueniques. Há um espaço para eventos e até serviço de transfer para quem quer ir de Brasília e voltar no mesmo dia – ainda que a hospedagem seja bastante recomendável.

 

São 23 acomodações, entre chalés e bangalôs. Todos têm vista para o lago, alguns com piscina, outros com banheira de hidromassagem sob teto de vidro. Terapias com essência de vinho estão no menu do spa, aberto para hóspedes e visitantes. Há uma piscina climatizada e é possível nadar entre as carpas do lago. A ideia, agora, é inverter a lógica: deixar de ser um hotel com vinícola para se afirmar como uma vinícola com hotel. E a reputação dos vinhos Triacca justifica essa guinada.