“Superpoderes”: o que a ciência revela sobre o instinto de mãe

Neurociência explica por que mães parecem saber tudo: cérebro passa por mudanças que ampliam percepção, vínculo emocional e estado de alerta

mãe superpoderosa, em imagem criada por inteligência artificial
Cuidado materno: impacto real no comportamento e na saúde mental de mãe e filhos (Imagem criada por IA)

Por Karina Hollo

 

A ideia de que “mãe sempre sabe”, que “beijo de mãe cura” ou que no “coração de mãe sempre cabe mais um” atravessa gerações — e, embora soe emocional ou até mística, ela tem base científica. Pesquisadores que estudam o funcionamento do cérebro sustentam a legitimidade da natureza dessas percepções. De acordo com o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes, professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Facudade De Medicina da Universidade de São Paulo, a maternidade provoca mudanças profundas no cérebro feminino, influenciando comportamento, percepção e até o sono. “A maternidade literalmente remodela o cérebro. Existem alterações hormonais, emocionais e neurológicas que aumentam a percepção de sinais, o estado de alerta e a conexão emocional entre mãe e filho”, explica.

 

É fato que a gravidez promove uma verdadeira remodelação no cérebro feminino — e os efeitos podem durar anos após o parto. Utilizando exames de ressonância magnética de alta resolução, pesquisadores americanos acompanharam uma mulher desde antes da concepção até dois anos após o nascimento do bebê e identificaram mudanças profundas em diversas regiões cerebrais.

 

Segundo o estudo Neuroplasticidade e Mudanças Cerebrais na Maternidade – Maternidade Literalmente Remodela o Cérebro (Hoekzema et al. (2017), publicado na revista Nature Neuroscience, há uma redução no volume da substância cinzenta e na espessura cortical, áreas ligadas à emoção, empatia e processamento social, além de alterações na substância branca, responsável pela comunicação entre os neurônios. Segundo os cientistas, essas adaptações são impulsionadas pela intensa produção hormonal da gestação e refletem um período de alta neuroplasticidade — capacidade do cérebro de se reorganizar.

 

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As transformações acontecem em regiões relacionadas ao comportamento materno, vínculo emocional e percepção de sinais do bebê. Os pesquisadores destacam que o cérebro materno se torna mais sensível e adaptado às demandas da maternidade, reforçando a ideia de que a gravidez modifica não apenas o corpo, mas também a estrutura neural da mulher.

 

Esse é um dos fenômenos que ajuda a entender a chamada “intuição materna”. Segundo o especialista, o cérebro da mãe entra em um estado de hipervigilância sofisticado, capaz de captar micro sinais — como mudanças no olhar, na respiração ou no comportamento — antes mesmo que sejam racionalizados. “Muitas mães percebem alterações no filho sem saber exatamente como. Isso acontece porque o cérebro passa a priorizar circuitos ligados à proteção e antecipação de risco”, afirma.

 

Vigilância permanente

 

A mesma lógica explica por que mães reconhecem rapidamente o choro do próprio filho. O cérebro se torna altamente treinado para identificar padrões sonoros específicos, acionando áreas ligadas à emoção, atenção e sobrevivência de forma quase imediata. Esse estado de alerta também se mantém durante o sono. “O cérebro materno não desliga completamente. Existe uma vigilância constante, mesmo enquanto a mãe dorme, o que ajuda na proteção do bebê, mas pode gerar fadiga ao longo do tempo”, diz ele. A afirmação é sustentada pelo estudo The Human Parental Brain: in Vivo Neuroimaging (O cérebro parental humano: neuroimagem in vivo), publicado no National Library of Medicine, dos Estados Unidos, sobre resposta cerebral materna.

 

Outro aspecto comum é a intensidade emocional. Muitas mães relatam sentimentos frequentes de culpa e preocupação — e isso também tem explicação biológica. “A maternidade amplia circuitos ligados à responsabilidade emocional. O cérebro passa a interpretar o cuidado com o filho como prioridade absoluta, o que mantém a mente em constante estado de alerta”, explica o médico.

 

Já o famoso “beijo de mãe” não cura fisicamente, mas tem efeitos reais no cérebro. O afeto ativa no filho a liberação de substâncias como a ocitocina, reduzindo o estresse e a percepção da dor, segundo o estudo Oxytocin and social affiliation in humans. Hormones and Behavior (Ocitocina e afiliação social em humanos. Hormônios e Comportamento). “O cérebro infantil responde profundamente ao acolhimento. O carinho materno sinaliza segurança e ajuda a regular emoções”, diz o neurocientista Fernando Gomes.

 

Amplitude de afetos

 

Até a ideia de que no coração de mãe “sempre cabe mais um” encontra respaldo científico. John Bowlby desenvolveu a chamada Teoria do Apego (Attachment Theory) entre as décadas de 1950 e 1980. Não foi um único estudo isolado, mas um conjunto de pesquisas e observações clínicas que revolucionaram a compreensão do vínculo entre mãe e filho. Segundo o Gomes, a maternidade fortalece circuitos ligados ao apego, à empatia e ao cuidado, ampliando a capacidade de criar vínculos ao longo da vida. “Afeto não funciona como um espaço limitado. Quanto mais conexões emocionais saudáveis, mais o cérebro reforça essas redes”, explica o especialista.

 

No entanto, toda essa potência emocional tem um custo. “A maternidade ativa circuitos de amor e recompensa, mas também mantém o cérebro em estado contínuo de vigilância e sobrecarga”, dizo neurocientista. Para ele, entender esse processo de forma mais científica é essencial para reduzir a culpa e a pressão sobre as mães, fato comprovado pelo estudo Brain Plasticity in Pregnancy and the Postpartum Period. Afinal, por trás do romantismo, existe um cérebro trabalhando intensamente para proteger, cuidar e amar.