Menu a oito mãos conduz viagem por vinhos de norte a sul da Argentina
Cruzando fronteiras, Tássia Magalhães e Sebastián Weigandt somam repertórios ao preparar experiências acompanhadas de 11 rótulos selecionadas por Camila Torta e Danyel Steinle

Por Celso Masson
A cozinha contemporânea vive um momento particularmente fértil de intercâmbios. Chefs atravessam fronteiras para cozinhar juntos, técnicas circulam e ingredientes ganham novas interpretações sem que as identidades locais se diluam. Ao contrário: muitas vezes é no confronto de repertórios que elas se tornam mais evidentes. Foi o que aconteceu nos dias 10 e 11 de agosto, quando o Nelita e o Lita receberam dois profissionais do restaurante aZafrán, de Mendoza, para uma aproximação entre a gastronomia do Brasil e da Argentina com 11 vinhos de norte a sul do país vizinho.
O primeiro encontro foi no Nelita, em um jantar a quatro mãos preparado pela chef da casa, Tássia Magalhães, e pelo argentino Sebastián Weigandt. À frente do aZafrán, reconhecido com uma estrela Michelin, Weigandt fez sua estreia na capital paulista trazendo uma cozinha que explora produtos de seu território, como truta e cabrito, com técnicas contemporâneas. “Eu já havia cozinhado em outras cidades do Brasil, mas nunca em São Paulo”, disse o chef.
O jantar integrou o Casa Aberta, projeto criado por Tássia como desdobramento do Festejo Latino e dedicado ao diálogo entre diferentes cozinhas da América Latina. A chef nascida em Guaratinguetá, que esteve várias vezes na Argentina e fala castelhano comn fluência, já havia cozinhado algumas vezes com o colega mendocino. Por isso, a química de ambos estava bem afiada, com uma ótima integração de sabores, aromas e texturas em cada etapa. Desta vez, porém, a troca de experiências foi além dos pratos, chegando também às taças.

Beignet Verde e Tartelete de Bife à la Criolla (foto: Celso Masson)
O menu começou com pão, manteiga, dim sum e brodo de berinjela, do Nelita, seguido por beignet verde e tartelete de bife à la criolla. Depois vieram alho-poró com iogurte e coco; pescado curado com alho negro, XO de camarão e cítricos; abobrinha com beurre blanc; e chivo assado com escabeche de ervas e demi-glace de vegetais. A Torta Balcarce, do aZafrán, e um petit four do Mag Market que combina chocolate, azeite e tangerina, encerraram a sequência.
Enquanto cada prato era servido, outra viagem acontecia nas taças. A sommelière Camila Torta, eleita Sommelier do Ano pelo Guia Michelin, dividiu a seleção com Danyel Steinle, sommelier do Nelita. Foram 11 vinhos que desenharam um mapa pouco convencional da Argentina vitivinícola, de Salta, no norte, à Patagônia.
A abertura coube ao Old Vineyard Riesling 2025, da vinícla Humberto Canale, da Patagônia. Uma abertura em grande estilo, com um vinho de ótima acidez e aromas sedutores. Depois vieram dois Torrontés de origens e estilos distintos: o Colomé Torrontés 2025, da Bodega Colomé, de Salta, e o Passito Torrontés 2023, da Bodega del Carmen, de San Juan. O primeiro, bem aromático e leve. O segundo, mais austero e evoluído, com notas oxidativas.
A diversidade ficou ainda mais evidente com dois vinhos laranjas (neste caso, Naranjo), um da Bodega Pielihueso, de Los Sauces, e outro da Pulenta Estate, de Los Árboles. E a complexidade avançou com a dupla formada pelo Nude 2025, da Kaiken, do Valle de Canota (região de Mendoza), e pelo Rio Frio Trevelin 2024, da Casa Yagüe, produzido em Chubut, na Patagônia. Mendoza reapareceu em algumas das taças mais emblemáticas da noite. O Adrianna Vineyard White Bones Chardonnay 2023, da Catena Zapata, representou Tupungato. O rótulo obteve 99 pontos de James Suckling e 97 de Robert Parker, algo incomum para brancos.

Camila Torta, melhor sommelière argentina pelo Guia Michelin (foto: divulgação)
Com o cabrito, entraram em cena duas interpretações do Malbec: Concreto Malbec 2023, da Zuccardi, de Paraje Altamira, e De Sangre Malbec 2024, da Luigi Bosca, de Luján de Cuyo. Enquanto o primeiro amadurece em concreto, como o nome sugere, o segundo ganha em maciez e notas de torrefação que lembram café graças aos 12 meses em barricas de carvalho. Para as sobremesas, o fortificado Solería, também da Zuccardi, produzido no Valle de Uco, segue uma técnica semelhante à do Jerez, com passagens por diferentes tonéis ao longo dos anos (a chamada Solera).
O conjunto ajudou a mostrar uma Argentina muito mais plural do que aquela que durante décadas foi identificada quase exclusivamente com Mendoza e o Malbec. Regiões extremas, diferentes altitudes, novas variedades e métodos de vinificação vêm ampliando o repertório do país — movimento que também encontra paralelo na nova geração de cozinheiros argentinos.

Danyel Steinle sommelier do Nelita (foto: Leo Martins)
No dia seguinte, o vinho assumiu definitivamente o protagonismo. Camila Torta e Danyel Steinle voltaram a se encontrar, desta vez no Lita, para a primeira edição do EscoLita, programação mensal criada por Steinle e Tássia Magalhães. O tema de estreia, “Vinhos da Nova Argentina”, prolongou a discussão iniciada na noite anterior, com uma degustação dedicada a novos terroirs, produtores, variedades e estilos, seguida por um menu harmonizado de seis tempos.
A colaboração como ferramenta para descobrir afinidades entre culturas culinárias vem ganhando força e isso é uma ótima notícia. No caso de Brasil e Argentina, vizinhos tantas vezes colocados em lados opostos por rivalidades históricas, a mesa mostrou ser um território bem mais interessante para encontros saborosos. A iniciativa merece aplausos.
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