Frédéric Renaut: A arte de importar histórias de bom gosto

Frédéric Renaut trouxe ao Brasil marcas centenárias como Les Deux Magots e L'Antica Pizzeria da Michele, unindo história, tradição e experiência gastronômica.

Frédéric Renaut

Por Celso Masson

 

À frente dos restaurantes Les Deux Magots e L’Antica Pizzeria da Michele, o francês Frédéric Renaut vem construindo um legado singular ao trazer para o Brasil marcas centenárias que combinam patrimônio cultural e experiência gastronômica.

 
Ao escrever A Fisiologia do Gosto, no início do século XIX, o francês Jean-Anthelme Brillat-Savarin (1755–1826), postulou as bases do que vem a ser a gourmandise, definida por ele próprio como uma “preferência apaixonada, racional e habitual pelos objetos que agradam o paladar”.
 
Entre as revelações que tornaram o livro um clássico imediato e universal da gastronomia está a distinção entre o “prazer de comer” e o “prazer da mesa”. Segundo Savarin, este último, próprio da espécie humana, “é a sensação refletida que nasce das diversas circunstâncias de fatos, lugares, coisas e personagens que acompanham a refeição”.
 
Passados dois séculos desde que a afirmação foi publicada, ela é ainda mais verdadeira. Comer é saciar uma necessidade do organismo. Proporcionar prazer à mesa é uma arte, cultivada com esmero por chefs, garçons, maîtres e todos que se dedicam a preparar e servir refeições memoráveis.
 
Para que tudo funcione perfeitamente durante um almoço ou jantar é preciso unir às receitas e ao ambiente um item fundamental: a paixão. Só ela explica o que faz um restaurante ultrapassar a barreira dos 150 anos de existência e continuar satisfazendo quem o frequenta.
 
Poucos lugares no mundo podem se orgulhar desse feito. Coincidência ou não, dois deles, originados na Europa, chegaram a São Paulo pelas mãos de um mesmo restaurateur, o francês Frédéric Renaut.
 
Nascido ao sul da região de Champagne, quase na divisa com a Borgonha, e radicado no Brasil há cerca de 25 anos (oito deles vividos em Búzios), Renaut construiu uma trajetória pouco comum na gastronomia. Em vez de criar marcas próprias, especializou-se em identificar casas históricas capazes de atravessar fronteiras sem perder identidade.
 
O resultado dessa estratégia está hoje em dois dos endereços mais comentados de São Paulo: o café-restaurante Les Deux Magots e a L’Antica Pizzeria da Michele.
 
A escolha das marcas não foi nada casual. Em ambos, Renaut buscou negócios cuja reputação foi construída ao longo de gerações. “História, autenticidade e capacidade de execução local” são os critérios que ele costuma citar ao explicar como seleciona uma marca para trazer ao Brasil.
 

Leia mais:

 

Inaugurado em 1884 no Boulevard Saint-Germain, o Les Deux Magots se tornou ponto de encontro de artistas, escritores e intelectuais que ajudaram a moldar a cultura do século XX. Por suas mesas passaram nomes como Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Oscar Wilde e Umberto Eco.
 
Em 1933, nasceu ali o Prêmio Literário Les Deux Magots, ainda hoje uma das mais respeitadas distinções da literatura francesa.
 
Quando desembarcou em São Paulo, em 2023, a marca encontrou um cenário improvável para um café parisiense: um trecho da Rua Colômbia em que quase não circulam pedestres e onde não há outros restaurantes.
 
O charme, porém, falou mais alto. A decoração recriou elementos da Rive Gauche, com cadeiras de rattan, jardins internos, biblioteca e atmosfera inspirada nos cafés da capital francesa.
 
A resposta do público superou as expectativas. Com apenas cem lugares, a casa recebe até 1.200 pessoas por dia, atraídas pelo café da manhã, pela pâtisserie, pelos famosos croques, pelo chocolate quente preparado segundo a receita parisiense e, mais recentemente, pelos pratos elaborados na área de brasa inaugurada no jardim lateral.
 

 
Pizza com história

Se o Les Deux Magots representa a elegância parisiense, a L’Antica Pizzeria da Michele traduz o orgulho napolitano. Fundada em 1870, a casa é considerada uma das pizzarias mais antigas da Itália e ganhou projeção internacional após aparecer no filme Comer, Rezar, Amar, estrelado por Julia Roberts.
 
A unidade paulistana ocupa um sobrado dos anos 1940 decorado pelo designer Rudolf Piper com referências às residências aristocráticas de Nápoles. O ambiente exibe pinturas inspiradas no Renascimento e uma imagem da atriz americana em homenagem à passagem da marca pelo cinema.
 
Mais importante que a decoração, porém, é a fidelidade ao método original. A matriz napolitana impõe regras rigorosas sobre fermentação, preparo e ingredientes. Molho de tomate, óleo e outros produtos são enviados diretamente da Itália.
 
As receitas seguem a tradição da casa, conhecida por pizzas de poucos ingredientes e pela busca do equilíbrio absoluto entre massa, molho e cobertura.
 
Entre os clássicos estão a Margherita e a Marinara, esta última preparada apenas com tomate, alho, orégano e óleo. Para os napolitanos, simplicidade não é limitação, mas virtude.
 
Renaut faz questão de preservar essa filosofia. Não pretende disputar espaço com as inúmeras pizzarias autorais de São Paulo nem adaptar excessivamente o conceito ao gosto local. Seu objetivo é oferecer ao público brasileiro uma experiência o mais próxima possível daquela encontrada em Nápoles.
 
A estratégia parece refletir uma convicção pessoal. Para ele, uma marca centenária não sobrevive por acaso. Sobrevive porque preserva aquilo que a tornou relevante.
 
Em um mercado frequentemente seduzido por novidades efêmeras, Fred Renaut acredita justamente no contrário: na força das histórias que resistiram ao tempo.