Vinho: Quinta do Monte d’Oiro combina tradição portuguesa com sotaque francês

Vinícola perto de Lisboa se beneficia de verões moderados e noites frias, condição que favorece maturações lentas e completas

Vista geral da Quinta do Monte D'Oiro, em Lisboa
Vinícola da região de Lisboa combina história secular, viticultura orgânica e inspiração no Rhône para produzir rótulos de identidade marcante (Foto Divulgação)

A pouco mais de 50 quilômetros do centro de Lisboa, a vinícola cujas origens remontam ao século XVII construiu uma trajetória singular no vinho português ao introduzir variedades como Syrah e Viognier, além de uma leitura contemporânea de seu terroir.

Esse novo impulso teve início a partir de 1986, quando a propriedade histórica foi adquirida por José Bento dos Santos, nome conhecido da gastronomia lusitana, que imprimiu à vinícola uma abordagem rigorosa e autoral.

 

Instalada em uma região de forte influência marítima, a cerca de 20 km do Atlântico, a quinta se beneficia de verões moderados — raramente acima dos 30 °C — e noites frias, condição que favorece maturações lentas e completas. O resultado são vinhos com acidez preservada, frescor e bom potencial de guarda, características que definem o estilo da casa.

 

LEIA MAIS:

 

Com 42 hectares, dos quais cerca de 15 foram replantados, a produção segue a lógica dos baixos rendimentos e do controle integral, do vinhedo à garrafa. Desde 2006, a propriedade adotou a agricultura biológica, hoje levada ao extremo: há quase uma década não se utilizam herbicidas ou pesticidas de síntese. A decisão reforça a busca por autenticidade e pela expressão mais fiel do terroir.

 

Embora cultive castas portuguesas como Touriga Nacional e Tinta Roriz, é na Syrah — ao lado da Viognier e da Petit Verdot — que a Quinta do Monte d’Oiro encontrou sua assinatura. A escolha não é casual: estudos de solo e clima apontaram semelhanças com o Vale do Rhône, inspiração assumida em rótulos como o Quinta do Monte d’Oiro Reserva, corte majoritariamente de Syrah com um toque de Viognier, de perfil elegante e gastronômico. Outro destaque é o Vinha da Nora Reserva, que combina Syrah e Cinsault.

 

Entre os vinhos mais emblemáticos está o Homenagem a António Carquejeiro, frequentemente premiado em degustações ibéricas e símbolo da consistência qualitativa da casa. Mais recente, a Parcela 24 revela uma aposta ousada: a única seleção massal de Syrah em Portugal, a partir de material genético de vinhas antigas francesas, que resultou em um vinho de maior complexidade — tão expressivo que acabou engarrafado separadamente. Importado pela Mistral, o vinho Quinta do Monte D’Oiro Parcela 24 chega ao Brasil custando R$ 1.038,16.

 

Francisco Bento dos Santos

Francisco Bento dos Santos, proprietário da Quinta do Monte D’Oiro, na região de Lisboa (Foto: Ricardo Bernardo)

 

“Temos uma influência muito forte do vento que sopra do Atlântico. Isso permite maturações muito lentas e bem completas das nossas uvas, preservando a acidez, o frescor natural e os aromas. Também contribui para que os vinhos sejam fazer longevos” afirma Francisco Bento dos Santos, filho de José Bento e hoje à frente da vinícola. “O maior elogio que posso ouvir é que nossos vinhos têm personalidade, um DNA próprio.”

 

Entre tradição e precisão técnica, a Quinta do Monte d’Oiro se consolidou como um dos nomes mais respeitados de Portugal, com rótulos que circulam com naturalidade entre mesas gastronômicas e provas internacionais. Mais do que replicar modelos, a casa parece ter encontrado um caminho próprio — onde o Atlântico encontra o Rhône, com sotaque português.

 

Por Redação