Como a escritora Paulinny Tort criou o épico pré-histórico “Os Imortais”

Vencedora do prêmio APCA e finalista do Jabuti em 2022, a autora brasiliense criou um fenômeno literário que faz sucesso nas redes sociais e já está na quinta reimpressão

A escritora Paulliny Tort, autora de "Os Imortais"(Divulgaçãp/Renato Parada)
A escritora Paulliny Tort, autora de "Os Imortais"(Divulgaçãp/Renato Parada)

Por André Sollitto

 

Quem costuma acompanhar perfis dedicados à literatura nas rede sociais já deve ter topado com vídeos entusiasmados sobre Os Imortais (Ed. Fósforo, 232 págs., R$ 85), novo livro da autora brasiliense Paulliny Tort, vencedora do prêmio APCA e finalista do Jabuti 2022 por seu livro Erva Brava.

 

O livro se passa na pré-história e acompanha um clã de neandertais que precisam lidar com a fome, as intempéries climáticas e os dilemas sociais da convivência diária. Além da necessidade constante de encontrar comida em um ambiente pré-agricultura, quando todo o alimento era coletado ou caçado, a chegada de sapiens ao grupo afeta a organização e as crenças do clã.

 

Em entrevista a VERSATILLE, Paulinny Tort fala sobre seu processo de escrita, as leituras que ajudaram a fundamentar a trama de Os Imortais e a sua relação com as rede sociais. Confira:

 

VERSATILLE: Quando você decidiu começar o livro, você já tinha uma ideia clara da história que queria contar?

Paulinny Tort: Eu sempre presto atenção nas palavras que as pessoas usam para tentar alcançar alguma coisa. Você usou a palavra decisão. Talvez para algumas pessoas que criem obras de ficção a coisa passe por um processo decisório. Mas para mim não. Pela pessoa que eu sou, pela vida que levo, pelas leituras que faço, em algum momento veio para mim a cena inicial do livro, que é a desse homem neanderthal caçando javalis. A primeira cena eu ainda não sabia onde ele estava, quem estava ao redor e o que ia acontecer, mas à medida que eu tenho disponibilidade para estar naquela cena, entender quem são aqueles personagens e o que vai acontecer, a coisa vai andando. Quando cheguei nessa imagem, não sabia se dali sairia um romance, ou um conto, ou algo que escrevo para mim, que não tenho a intenção de publicar. Com o passar do tempo, esse personagem, o Homem, foi um cicerone. Ele foi me apresentando esse ambiente e esses outros seres. 

 

V.: Seu processo envolve estar aberta à escrita e ao que os personagens podem te contar. 

P.T.: Para mim, a escrita de ficção é um caminho de descoberta. É onde estou para descobrir coisas. Alguns autores fazem planos, fazem fichas de personagem. Não é meu processo. Eu estou disponível para a história. Meu processo é ter tempo para me dedicar a esse trabalho e querer saber o que vai acontecer, descobrir junto. É um pouco parecido com o prazer da leitura. É que nem aqueles que dizem não se importar com spoiler, que o importante é a forma, nem tanto a história. É claro que a forma é super importante, mas eu não quero spoiler da história (risos)! No meu livro anterior, eu tinha a cena de encerramento, que é um tanto apoteótica. É um livro de contos, mas tem algo de romanesco porque todas as histórias se passam em uma mesma cidade fictícia do interior de Goiás. Os personagens não se cruzam, mas compõem a mesma atmosfera. E o último conto, que une todos, tem uma situação drástica que eu sabia que aconteceria. Mas tudo o que aconteceu antes eu não sabia. O barato pra mim é descobrir junto com os personagens. 

 

Capa de "Os Imortais"

Capa de “Os Imortais”

V.: Você para de ler outras obras enquanto escreve?

P.T.: Eu não paro de ler enquanto escrevo. Senão nem leria (risos). Acho que uma parte do escritor é ler, não com quem vai à academia, por obrigação, mas porque é legal. É repertório. Precisamos de leitura para escrever. E não só de livros, mas filmes, galerias, arte, pessoas interessantes. Tudo isso compõe nosso baú. Quando estou escrevendo ficção, tento evitar, embora não totalmente, os contemporâneos brasileiros. Porque acho que pode me influenciar um pouco e posso acabar seguindo o ritmo de escrita de alguém. E leio muita coisa antiga. Agora, estou terminando o Ramayana (antigo poema épico sânscrito da Índia). Mas é outra dicção, completamente diferente. E poesia. Estou relendo Pequenas Glórias. É um livro lindo, estou encantado. Talvez o último livro que eu tenha me apaixonado tanto foi o Fernando Pessoa com O Livro do Desassossego. 

 

V.: Há certa experimentação na maneira como você narra a história. Como você desenvolveu esse estilo? Há um debate sobre linguagem, mas o livro também explora a organização social dos neandertais. Quanto você pesquisou sobre o tema? Ou a ficção te dá liberdade de contar essa história sem estar totalmente amparada pela ciência?

P.T.: Essa liberdade é um pressuposto da escrita de ficção. Mas venho de um histórico de cursos de ciências da natureza meio antigo. Voltei para a UnB, fiz jornalismo, mas voltei à UnB para estudar biologia, fiz um estágio em primatologia. Não são assuntos estranhos para mim, muito embora o livro, de modo algum, se apresente sobre uma tese sobre os neandertais. É uma imaginação, mas que se apresenta com essa minha mochila. Sobre a forma, acho que o discurso indireto livre é uma característica da minha escrita. Não tenho tantos diálogos marcados. Se você olhar para meu livro anterior, isso mais ou menos se mantém. Isso está dentro da minha atmosfera criativa. A linguagem é um tema que me interessa muito. Eu tenho lido e gosto muito. Parto do conceito da gramática universal de Noam Chomsky. O psicólogo e linguista Steven Pinker, de quem gosto muito, fala da diferença entre pensamento e linguagem, como as duas coisas evoluem separadamente. O Último Abraço da Matriarca, de Frans de Waal, um primatólogo que discute o comportamento animal , diz que quando falamos de emoções dos animais também estamos falando de pensamento. Tem outro livro que recomendo sempre, Os humanos antes da humanidade, que é um livro incrível para entendermos outros humanos. Porque a gente tem essa perspectiva de que a nossa espécie é muito maravilhosa e única, mas já dividimos esse planeta com espécies que eram muito capazes e muito parecidas conosco. Na verdade, tudo o que está vivo hoje é muito capaz. Se está aqui, presente no mundo, é porque são espécies, organismos que conseguiram se adaptar e vender um monte de adversidades.

 

V.: A ambientação é pouco explorada pela literatura. Mas é um universo de enorme riqueza que demonstra o quanto o ser humano lida com alguns dos mesmos dilemas há milhares de anos.

P.T.: Isso fica claro quando lemos literatura antiga. Eu estava lendo Eneida, de Virgílio. Ou Diálogo dos Mortos, de Luciano de Samósata, que tem dois mil anos. E entendemos que estamos lidando com os mesmos oportunismos, mas também com solidariedade e cooperação. Se a gente olha para o ser humano só pelas rusgas, a gente nem sai da cama. Então, precisamos ver que se a nossa espécie vingou e tem tantos confortos, é capaz de produzir tantos objetos, tantos livros, é porque sabemos cooperar muito bem. Veja só um livro. Quantas pessoas precisam trabalhar para que ele aconteça e chegue ao leitor. E isso vale para tanta coisa. Da água que sai da torneira à comida que compramos no supermercado.

 

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V.: O livro levanta questões importantes sobre o esgotamento de recursos naturais e a cooperação frente a emergências climáticas. Qual a mensagem que fica para os dias de hoje?

P.T.: Eu não fiz o livro para isso, mas acho que estamos em um momento em que precisamos olhar pra gente mesmo e se perguntar: “o que estou fazendo aqui?”. Porque temos potencial para realizar muitas coisas. Se olharmos para nossa evolução, passamos por muita coisa. Enfrentamos fome, chuva, aprendemos a caçar. E, de repente, e digo isso numa escala cósmica, conseguimos chegar na Lua. No entanto, temos dificuldades de relação. Precisamos de muitas regras, leis, de polícia e judiciário. As pessoas não conseguem elas mesmas administrar o convívio, ou seja, precisamos de um monte de instituições para que o convívio seja razoável.

 

V.: Os Imortais se tornou um fenômeno nas redes sociais, com muitas pessoas gravando vídeos recomendando o livro e instigando seus seguidores a lê-lo. Qual a sua relação com as redes sociais?

P.T.: Eu não sou muito das redes sociais. Estava meio afastada até, concentrada na escrita, e voltei há pouco tempo, antes do lançamento, até porque a comunidade de leitores espera um pouco isso. E porque acredito que essa presença pode abrir diálogos interessantes. O papel do escritor é diferente do que era há 20 anos, mesmo quando já havia internet. As distâncias foram encurtadas. Ao mesmo tempo em que estamos longe fisicamente, as redes criam esses pontos de contato. E acho lindo que as pessoas queiram falar de livros. Estamos discutindo temas tão difíceis da humanidade. Precisamos de bons assuntos. E eu gosto muito quando vejo pessoas jovens falando de literatura. Ou pessoas mais velhas usando as redes para recomendar um livro.