Como um ex-militar italiano transformou o mercado de carnes no Brasil

À frente da MaturaMeat, empresa especializada em equipamentos de maturação de carnes e peixes, Sandro Giovannone provocou uma transformação silenciosa no mercado

Hamburguer Pony Line, do Holy Burger, produzido com carne Dry Aged da Matura Meat (DIvulgação)
Hamburguer Pony Line, do Holy Burger, produzido com carne Dry Aged da MaturaMeat (DIvulgação)

Por André Sollitto

 

Foi no aeroporto de Nova York que o italiano Sandro Giovannone viu uma câmara de maturação de carnes pela primeira vez. Em meados dos anos 2000, o termo “dry aged” ainda não era tão disseminado quanto hoje. Tirou algumas fotos com sua máquina fotográfica Cybershot e tentou descobrir como aquilo funcionava. Conversou com amigos italianos, que não conheciam o termo, mas sabiam que o processo de maturação de carnes, ou “frollatura”, era antigo. Quando voltou ao Brasil, onde morava – e mora há mais de 30 anos -, decidiu reproduzir o sistema. Assim nasceu a MaturaMeat, em 2010. Hoje, com mais de 800 equipamentos distribuídos em diversos restaurantes de todo o Brasil, Giovannone diz, sem soberba, que suas máquinas “revolucionaram a gastronomia brasileira”. 

 

Antes de trabalhar criando equipamentos de maturação de carne, Giovannone foi perito eletrônico na Guardia di Finanza e consertava radares de navios. Essa experiência com eletrônica e com maquinário fez com que ele se tornasse um “inventor” depois que deu baixa nas forças armadas, ou “metido a MacGyver”, como diz. A partir de suas pesquisas sobre a carne maturada, desenvolveu o primeiro modelo da câmara da MaturaMeat. Era algo para uso próprio, feito a partir de tentativas e erros. “Todo italiano é metido a cozinheiro”, brinca. “E eu perdi 800 quilos de carne uma vez por conta de mofo dentro da máquina. Fui aperfeiçoando os processos”, completa. Publicava vídeos do equipamento na internet e então começou a receber mensagens de interessados. “Entendi que havia um negócio ali”. 

 

Sandro Giovannoni, do Matura Meat (DIvulgação)

Sandro Giovannone, do MaturaMeat (DIvulgação)

Começou a receber encomendas e produzir máquinas para clientes. Conta que a terceira unidade foi comprada para ser copiada. “Alguém desmontou e fez uma versão que é vendida até hoje”, conta. 

 

O primeiro modelo foi projetado para a maturação de carnes vermelhas. O processo é simples. A temperatura é controlada, mantida em cerca de 3ºC, e a umidade é baixa – afinal, o termo “dry age” significa justamente maturação a seco. Ao longo do tempo, a carne perde umidade e, consequentemente, peso, e há uma quebra enzimática, o que a torna mais macia. Giovannone deixa suas carnes por cerca de 45 dias para o melhor resultado.

 

Depois do equipamento para carnes vermelhas, criou outra versão, dedicada à produção de charcutaria. Mais tarde, o portfólio cresceu e ganhou um terceiro produto: a câmara de maturação de peixes. Essa, de fato, mudou a gastronomia brasileira. O princípio é o mesmo da versão para carnes vermelhas. A diferença, segundo Giovannone, é que a máquina injeta um pouco de umidade para que o peixe não perca tanto peso. Há uma pequena injeção de ozônio, além de um germicida. 

 

Esse processo permite que a carne se mantenha fresca, sem cheiro, por muito mais tempo. Se antes um restaurante japonês, por exemplo, usava um peixe por no máximo dois dias, agora é possível usá-lo por mais de uma semana – e a carne fica melhor do que quando entrou na máquina, mais macia e com o sabor potencializado. “Muita gente ouve falar de peixe maturado e fica interessada, mas há muitos outros benefícios antes da maturação que são muito mais relevantes para os restaurantes”. 

 

Câmara de maturação de carnes "dry aged" (Divulgação/Felipe Gabriel)

Câmara de maturação de carnes “dry aged” (Divulgação/Felipe Gabriel)

Hoje, tem mais de 800 clientes espalhados pelo Brasil, de restaurantes indicados no Guia Michelin, como o Cepa, o Aiô e o três estrelas Tuju, a estabelecimentos maiores, com menus centrados em peixes. Para Giovannone, a parceria com chefs como Lucas Dante, do Cepa, Ivan Ralston, do Tuju, e Caio Yokota e Victor Valadão, do Aiô, é fundamental para o desenvolvimento de receitas. “Eles são capazes de testar, criar coisas novas e usar 100% da capacidade do equipamento”. Mas o impacto na qualidade e no custo de operação dos outros restaurantes é igualmente satisfatório. 

 

Além de fabricar os equipamentos, Giovannone tem uma marca própria de carnes e embutidos, a Spazio Lab. Com ela, produz lardo (gordura do porco curada com sal e ervas), prosciutto cotto (presunto cozido), carpaccio de Wagyu e outras iguarias curadas. Também vende hambúrgueres dry aged. É fornecedor dos hambúrgueres do Holy Burger, eleito o segundo melhor do mundo pelo ranking do Burger Dudes.

 

Hoje, além de divulgar seus produtos curados, Giovannone quer expandir a atuação da MaturaMeat. “Muitos dos restaurantes que usam as máquinas estão perto da costa brasileira. Mas há muitos benefícios justamente para quem está mais longe, no interior”, diz.

 

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