Do centeio ao carvalho: dois caminhos da Woodford Reserve para o bourbon

Destilaria do Kentucky amplia portfólio de whiskeys no Brasil com aposta simultânea nas duas faces históricas de uma tradição americana

Três rótulos lançados no Brasil pela Woodford Reserve (divulçação)
“O interesse do consumidor brasileiro pelo whiskey americano é real. Queremos agora oferecer novas expressões dessa experiência”, afirmou à Versatille o diretor de marca global da Woodford Reserve, Brett Jeffreys (foto: divulgação)

Por Andres Vera

 

Destilado americano por excelência, o bourbon é só metade de uma longa história. Uma que se confunde com a própria história dos Estados Unidos. A outra metade começa ainda em seus tempos coloniais, por volta dos anos 1640, vai até o começo da Prohibition, a Lei Seca que durou de 1920 a 1933, e pertence menos ao bourbon, e mais àquele que o antecipou em produção e preferência por quase 300 anos: o rye whiskey.

 

Com o lançamento de dois novos rótulos no Brasil, a Woodford Reserve sugere um resgate do lado mais antigo dessa história. E também um caminho para o futuro do próprio bourbon. Simultaneamente, a destilaria do Kentucky acaba de lançar um Straight Rye Whiskey, cujo grão principal é o centeio, e um Bourbon Double Oaked, caracterizado pelo milho e primeiro do gênero que chega ao Brasil com dupla maturação em barris de carvalho americano. As duas novas garrafas farão companhia ao Straight Bourbon que a marca traz ao país desde 2014.

 

De lá para cá, no entanto, o mercado de uísques ultrapremium mudou completamente. No Brasil, dobrou de tamanho só entre 2019 e 2024, atingindo um valor de mercado de US$ 158 milhões, segundo a agência britânica ISWR. E a oferta de rótulos com preço ao redor de R$ 500 explodiu. “Esse também é o momento do bourbon de qualidade”, disse Brett Jeffreys, diretor de marca global da Woodford Reserve, em entrevista à Versatille. “O interesse do consumidor brasileiro pelo whiskey americano é real. Queremos agora oferecer novas expressões dessa experiência”.

 

De quatro a 40 anos

 

Ante o imaginário que concede prestígio automático à tradição escocesa dos age statements, a fala de Jeffreys revela uma outra estratégia. “Destilamos no Kentucky há mais de 200 anos. Mas, para o whiskey americano, ‘mais velho’ não significa necessariamente ‘melhor’. Nosso blend reúne whiskeys de quatro a quarenta anos. Idade, potência e graduação não são tudo. Pensamos muito em grão, água, levedura. É tudo sobre sabor”.

 

A aposta na qualidade de produção, no entanto, é só parte do esforço. Conduzida em São Paulo pelo embaixador da marca, Júnior Oliveira, a apresentação dos dois novos rótulos da Woodford Reserve incluiu uma masterclass dedicada à rica história do whiskey no estado do Kentucky e, principalmente, suas potencialidades sensoriais e sabores naturais.

 

Júnior Oliveira, embaixador da Woodford no Brasil

Júnior Oliveira, embaixador da Woodford no Brasil (divulgação)

São virtudes eventualmente conhecidas por bartenders experientes e apreciadores do whiskey americano, “mas que a marca também gostaria de apresentar a restaurateurs e chefs interessados em harmonizações criativas”, afirma Oliveira. Segundo ele, as possibiliades vão “além do tradicional consumo puro ou da composição de clássicos da coquetelaria, como Old Fashioned, Boulevardier ou Manhattan”.

 

Da degustação, que promoveu um contraste direto a partir do equilibrado Straight Bourbon Reserve, carro-chefe da Woodford Reserve, surgiram dois caminhos, duas respostas distintas para um único consumidor de bebidas de luxo. Com os mesmos 72% de milho, 18% de centeio e 10% de cevada maltada encontrados na receita do Straight Bourbon, o Double Oaked literalmente dobra a aposta no processo de maturação. Primeiro, seu líquido envelhece em barris de carvalho americano. Depois, volta à maturação, agora em barris que também receberam uma prévia e profunda tostagem antes da carbonização.

 

O resultado do Double Oaked é um bourbon encorpado, de cor caramelo escuro, com notas de baunilha, avelã, frutas e especiarias, de final longo, típico de um destilado que se basta. Ou, como afirma Júnior Oliveira, contraintuitivamente, que também é “ideal para um Old Fashioned realmente expressivo”. Ou que serve, ainda, como porta de entrada para outras expressões complexas da Woodford Reserve, ainda não vendidas oficialmente no Brasil, como Double Double Oaked ou Reserve Batch Proof.

 

O Straight Rye Whiskey, por sua vez, inverte a equação dos grãos, a mash bill. Leva 53% de centeio, 33% de milho e 14% de cevada maltada. De caráter forte, tem notas de tabaco, especiarias e toque floral, com final picante. Tende a agradar quem procura um contraponto ao dulçor frequentemente associado ao bourbon. Foi eleito duas vezes o melhor American Rye pela International Whiskey Competition.

 

A receita do Straight Rye Whiskey, criada antes da Prohibition, havia sido descontinuada na década de 1970. Foi resgatada em 2015 pelo master distiller da Woodford Reserve, Chris Morris, e rebatizada como “Old Pre-Prohibition Rye Whiskey Style from Kentucky”. Leva menos percentual de centeio do que os rye contemporâneos e, por isso, é mais fiel aos rye históricos que existiram antes da infame Lei Seca, medida que desorganizou as destilarias do estado e marginalizou um destilado profundamente vinculado à identidade americana, a ponto de ter sido produzido até pelo primeiro presidente do país, George Washington. Seu revival é um alento.

 

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