Adriano Miolo, um enólogo lendário

Com a quarta safra dos Sete Lendários, a mais espetacular coleção de vinhos elaborados por uma vinícola brasileira, Adriano Miolo consolida seu protagonismo na transformação da vitivinicultura e da enologia no país

Enólogo Adriano Miolo
Ao revelar o potencial de diferentes terroirs e ampliar as fronteiras da vitivincultura nacional, Adriano Miolo ajudou a aprimorar a qualidade do vinho brasileiro

Por Celso Masson

 

Há enólogos que elaboram grandes vinhos. Outros ajudam a transformar a história de uma região. Adriano Miolo pertence a uma categoria ainda mais rara: a dos profissionais que ajudaram a redesenhar o mapa do vinho brasileiro.

 

Quando assumiu a direção técnica da empresa fundada por sua família, o Brasil ainda buscava consolidar uma identidade própria para seus vinhos finos. A Serra Gaúcha concentrava praticamente toda a produção de prestígio, enquanto regiões hoje reconhecidas pela qualidade ainda eram vistas com desconfiança.

 

Ao longo das últimas décadas, Adriano participou diretamente da mudança desse cenário, liderando projetos que ajudaram a revelar o potencial de diferentes terroirs brasileiros.

 

Essa trajetória ganhou uma nova síntese com o lançamento da safra de 2023 da coleção Os Sete Lendários. Depois das edições de 2018, 2020 e 2022, a Miolo eterniza mais uma colheita considerada extraordinária, reunindo sete rótulos produzidos em quatro regiões vitivinícolas do país.

 

“Todo grande vinho nasce no vinhedo. Nosso trabalho é compreender cada terroir, respeitar o tempo da natureza e aplicar todo o conhecimento acumulado ao longo dos anos para revelar o melhor de cada casta. Tivemos o privilégio de aprender com o grande Michel Rolland, que trabalhou como consultor para a Miolo por 11 anos. Ele nos ajudou a obter a melhor expressão de cada vinhedo, de cada parcela”

 

Ele próprio já recebeu o título de Enólogo do Ano, em 2007, pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), entidade que também o homenagearia em 2023 com o Troféu Vitis Enológico, em reconhecimento à sua trajetória dedicada ao desenvolvimento tecnológico e à evolução do vinho brasileiro.

 

Ao conceber Os Sete Lendários, Adriano pensou em algo que significa muito mais do que selecionar as melhores barricas de uma grande safra. O projeto reforça as decisões estratégicas que contribuíram para ampliar as fronteiras do vinho brasileiro de qualidade e sintetiza uma trajetória impecável de contribuições para aprimorar a viticultura de precisão iniciada com o lançamento do primeiro ícone da Miolo, o Lote 43, em 1999.

 

Criado em homenagem ao patriarca Giuseppe e às terras onde a família iniciou sua história ainda no século XIX, o rótulo permanece como um dos responsáveis por projetar o vinho brasileiro entre os grandes tintos da América do Sul.

 

No mesmo Vale dos Vinhedos onde o Lote 43 é produzido, outro rótulo tem se consagrado desde o lançamento, em 2004: o Miolo Merlot Terroir. A safra 2023 demonstra por que essa uva se tornou a variedade emblemática da primeira Denominação de Origem para vinhos finos do Brasil.

 

Na Campanha Gaúcha, Adriano foi um dos pioneiros a acreditar que os solos e o clima do Pampa poderiam produzir tintos de padrão internacional. Dessa convicção nasceram o Sebrumo Cabernet Sauvignon, o Quinta do Seival Castas Portuguesas e o Sesmarias, talvez o vinho mais conceitual da casa, elaborado a partir de um corte de seis variedades vinificadas integralmente em barricas.

 

Caixa com os Sete Lendários, que representam a diversidade de terroirs do país, com uvas de quatro regiões produtivas (divulgação)

Outra decisão estratégica foi preservar o patrimônio vitícola da antiga Almadén, em Santana do Livramento. Dali surge o Vinhas Velhas Tannat, elaborado a partir de um dos mais antigos vinhedos de uvas finas em produção no Brasil, demonstrando que maturidade das plantas também pode ser um diferencial competitivo para o país.

 

Talvez a iniciativa mais ousada tenha acontecido a cerca de 2 mil quilômetros dali. Quando a Miolo decidiu investir no Vale do São Francisco, muitos ainda viam com ceticismo a possibilidade de produzir vinhos de alta qualidade no semiárido nordestino.

 

Hoje, o Testardi (palavra italiana que significa persistência) tornou-se uma das principais referências da região e da variedade Syrah, comprovando que o Brasil pode produzir grandes tintos em condições climáticas absolutamente distintas das encontradas no Sul do país.

 

O legado de Adriano Miolo vai muito além dos rótulos que assina. Ele ajudou a demonstrar que o Brasil não possui um único terroir de excelência, mas vários. E que um país continental também pode produzir vinhos capazes de traduzir, com personalidade, a diversidade de seus solos, climas e paisagens.

 

Essa talvez seja sua maior obra. Os Sete Lendários apenas lhe dão forma, safra após safra.

 

 

Leia mais: