O legado pop da artista plástica japonesa Yayoi Kusama

Conhecida pelas instalações em larga escala, a vanguardista artista tornou-se um sucesso na era das redes sociais

A artista plastica Yayoi Kusama (Divulgação/Yayoi Kusama)
A artista plastica Yayoi Kusama (Divulgação/Yayoi Kusama)

Por André Sollitto

 

A artista plástica japonesa Yayoi Kusama, conhecida pela sua produção vibrante, composta por pinturas, esculturas e instalações, morreu em um hospital em Tóquio, aos 97 anos, no dia 14 de agosto. A informação, no entanto, só foi divulgada pela família nesta quinta, 27, por meio de um comunicado em seu site e redes sociais. 

 

“Ao longo de uma vida extraordinária inteiramente dedicada à criação artística, Kusama construiu uma carreira aclamada internacionalmente como uma artista de vanguarda pioneira, cuja prática criativa abrangeu artes visuais, performance, ficção e poesia”, afirma o comunicado. “Ela continuou a pintar até seus últimos dias, sem jamais largar o pincel, e prosseguiu em sua exploração do amor eterno e da alma eterna. Daremos continuidade aos desejos de Kusama e, por meio da arte, continuaremos a levar esperança e força para o futuro a pessoas de todo o mundo”, continua a mensagem.

 

Obra Aftermath of Obliteration of Eternity, exposta em Inhotim (Divulgação/Inhotim/Cortesia de Bellagio)

Obra Aftermath of Obliteration of Eternity, exposta em Inhotim (Divulgação/Inhotim/Cortesia de Bellagio)

 

Yayoi Kusama deixa um enorme legado artístico, de pioneirismo e vanguarda. Mostrou que a arte que desafia pode ser popular e conquistou fãs na época das redes sociais e dos conteúdos “instagramáveis” graças a grandes instalações que provocam reflexões, mas são lúdicas e visualmente impressionantes.

 

Nascida em Matsumoto, no Japão, em 1929, sofreu com uma família rígida, que tentou cercear sua produção artística. Quando criança, Kusama começou a sofrer alucinações. As plantas da estufa de seus pais pareciam se mexer e falar com ela, e sua reação foi desenhar as visões, começando a produção psicodélica que marcaria seu trabalho posterior. Em 1958, saiu do Japão e se mudou para Nova York, onde começou um relacionamento com o artista plástico Donald Judd (1928-1994). Passou a criar instalações com bolinhas, outra marca de seu trabalho, além de performances que desafiavam a rigidez moral da época. Em 1968, por exemplo, realizou o primeiro “casamento homossexual” de Nova York, em Tribeca, e lavou uma bandeira soviética “suja” como protesto à invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética. 

 

Narcissus Garden, instalação permanente em Inhotim (Divulgação/Inhotim/Pedro Motta)

Narcissus Garden, instalação permanente em Inhotim (Divulgação/Inhotim/Pedro Motta)

 

Kusama sofreu com problemas mentais ao longo de toda a vida. Quando viveu em Nova York, foi internada em hospitais com frequência. Tinha alucinações, ataques de pânico e tentativas de suicídio. Em 1977, depois que havia retornado ao Japão, internou-se em um hospital psiquiátrico em Tóquio, onde passou a viver de forma permanente. Lá, tinha aulas de artes e podia se dedicar à criação de suas obras. 

 

Nas últimas décadas, Yayoi Kusama ficou conhecida principalmente por conta de suas instalações, especialmente as chamadas “salas infinitas”, em que espelhos criam uma ilusão de ótica de que a obra não tem fim. É o caso de My Heart is Filled to the Brim with Sparkling Light, criada para uma exposição na National Gallery of Victoria, na Austrália, de 2024, que se tornou a mostra mais visitada da história do país. Mais recentemente, The Hope of the Polka Dots Buried in Infinity Will Eternally Cover the Universe, no Museu Ludwig, na Alemanha, foi outro sucesso. 

 

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Aqui, no Brasil, a melhor maneira de ver suas obras de perto é visitar o Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. Lá, há uma instalação importante na trajetória da artista: Narcissus Garden, que Kusama apresentou pela primeira vez na Bienal de Veneza de 1962, sem ser convidada. A obra acabou sendo retirada pelos organizadores, e foi montada em um espaço permanente em Inhotim. É composta por 1500 bolas com superfícies reflexivas, colocadas sobre um lago, que mudam de acordo com o movimento da água e do vento. A Galeria Yayoi Kusama, outro espaço permanente inaugurado em 2023, tem uma de suas salas infinitas, Aftermath of Obliteration of Eternity, em que lanternas suspensas criam a sensação de que a sala não tem fim.

 

Também ficou conhecida pelas parcerias com o conglomerado de luxo LVMH. Lançou duas coleções em parceria com a Louis Vuitton, a maior delas, de 2023, era composta por mais de 450 itens, incluindo roupas, sapatos e perfumes. Em 2012 assinou a arte do rótulo La Grande Dame, de Veuve Clicquot, edição especial da champagne lançada apenas em safras históricas.

 

Galeria Yayoi Kusama em Inhotim (DIvulgação/Inhotim/Daniel Mansur)

Galeria Yayoi Kusama em Inhotim (DIvulgação/Inhotim/Daniel Mansur)