“A arte ficou tão forte que não tive como fugir”, diz Fause Haten sobre sua primeira exposição

"DITO! Aquilo que não foi", em cartaz na Galeria Fonte, em São Paulo, marca a estreia do estilista como artista plástico

O estilista e artista plástico Fause Haten (Divulgação/Rafa Marques)
O estilista e artista plástico Fause Haten (Divulgação/Rafa Marques)

Por André Sollitto

 

“Eu faço roupas. Sempre vou fazer roupas!”, diz a frase na parede da loja e ateliê de Fause Haten, em São Paulo. Conhecido por sua produção como estilista, já gravou discos, escreveu peças de teatro e fez performances em galerias de arte. Agora, faz sua estreia como artista plástico com a exposição DITO! Aquilo que não foi, em cartaz até 12 de setembro na Galeria Fonte, em São Paulo.

 

A mostra reúne 28 obras, apresentadas como instalações, em que as roupas aparecem como suporte para mensagens que Haten quer passar. Ele faz intervenções no tecido,  escrevendo frases curtas, que ganham novos significados a partir da interação do público com a roupa, que já carrega marcas do tempo, e a mensagem do artista. 

 

Leia mais:

 

Em sua loja e ateliê, no bairro dos Jardins, em São Paulo, Fause Haten recebeu a reportagem de Versatille para uma conversa sobre sua produção artística, sua relação com as artes plásticas e sua primeira exposição individual.

 

Leia a entrevista completa com Fause Haten a seguir: 

 

Versatille: Você está fazendo sua primeira exposição individual, estreando como artista plástico. Como foi esse processo?

 

Fause Haten: Na realidade, eu já produzo há mais de dez anos. Tenho uma pesquisa há muito tempo. Mas eu nunca quis me apresentar dessa forma. Ou melhor, nunca achei que quisesse me apresentar dessa maneira. Mas nos últimos dois anos comecei a me organizar um pouco e achar que havia uma complexidade nesse trabalho. Quando você é conhecido em um ambiente e decide mudar, as pessoas pensam que você está “fazendo uma coisinha ali”. Até entenderem que tenho uma pesquisa é todo um processo. Mas a arte ficou tão forte, tão importante para mim, que eu não tinha mais como fugir. 

 

Obra de Fause Haten que está na exposição "DITO! Aquilo que não foi", na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

Obra de Fause Haten que está na exposição “DITO! Aquilo que não foi”, na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

 

V: Quais objetivos você busca na sua produção artística?

F.H.: No caso das obras da exposição, eu sempre tive necessidade de falar sobre alguns assuntos. E até tentava de alguma maneira trabalhar essas questões na moda, mas sentia que não era o lugar. Na arte, consigo tratar esses assuntos. É mais um desejo de ser ouvido sobre essas questões, não uma necessidade de ser reconhecido como artista plástico. Tenho meu nome e não é isso que estou buscando. É um outro lugar que me faz falta.

 

V: Como começou sua pesquisa nas artes plásticas? Porque a moda e as artes visuais dialogam de certa forma.

 

F.H.: Eu gosto de usar uma frase do Yves Saint Laurent (1936-2008) que diz que “moda não é arte, mas é feita por artistas”. Eu acho que é isso. Eu não sou o único estilista que foi trabalhar com fotografia, com artes plásticas. O que aconteceu foi que em 2006, no auge do sucesso, eu comecei a me sentir muito corporativo. No sentido que a marca tinha crescido, eu tinha que lidar com questões de importação, fazendo reuniões com a equipe, do que quieto, no meu canto, criando. E o que fiz foi entrar em um curso de teatro da Célia Helena. E meu plano era ficar uns seis meses.

 

V: E como foi a experiência?

 

F.H.: Terminei passando três anos lá e me formando. Foi lá que descobri uma série de coisas sobre a criação que não depende de um mercado. Porque um, dois anos depois, eu vendi minha marca. E aquilo foi muito grande, saiu no Jornal Nacional, deu muita notícia. As pessoas iam atrás de mim e, naquela época, todas as noites eu me sentava no chão, nas aulas, com uma molecada. Foi muito importante para que eu colocasse o pé no chão. 

 

V: Seus colegas te conheciam como um estilista tão famoso?

 

F.H.: Eles sabiam quem eu era, mas nunca foi uma questão. A própria Lígia (Cortez, filha de Célia Helena e educadora na escola) me disse que pensava que eu só ia ficar alguns meses. Eu lembro de um episódio que gosto de contar. Um professor meu, em determinada hora, me disse: “Fause, você é um performer”. E na época eu me ofendi, pensei que ele queria dizer que eu não era um bom ator, algo assim. Anos depois, quando comecei a entender a questão da dramaturgia, do cenário, do figurino, da luz, eu percebi o que ele queria dizer. E foi mais ou menos nessa época, por volta de 2009, que meus desfiles começaram a virar performances, a dialogar com o teatro. Fiz um com marionetes, outro em que entrava cantando, performando.

 

Obra de Fause Haten que está na exposição "DITO! Aquilo que não foi", na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

Obra de Fause Haten que está na exposição “DITO! Aquilo que não foi”, na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

 

V: Você chegou a ter uma carreira como cantor.

 

F.H.: O meu desejo de escrita me levou a escrever algumas canções com um amigo, e cheguei a lançar dois CDs. Mas não era isso que eu queria. Eu escrevi minha primeira peça, A Feia Lulu, em 2014. Na mesma época, comecei a fazer as minhas primeiras esculturas de tecido, e aquilo foi ficando ali. Fiquei dois anos em cartaz, em 2015 e 2016. No ano seguinte, lancei um novo trabalho, Lili Marlene. E a partir desse trabalho foram saindo vários outros materiais de imagem.

 

V: Como esse trabalho acabou influenciando sua produção de artes plásticas?

 

F.H.: Eu tenho um ritmo de trabalho que é um pouco um método de teatro. Eu faço pequenas performances, pelo menos da maneira como eu entendo a performance, que não sei exatamente para onde vão levar. Posso ligar a câmera ou ficar na frente de uma pessoa e começar a testar algumas ideias. Tenho uma performance que chama Cabelo, em que eu fazia uma experimentação do feminino no meu corpo, com várias perucas. Fiz outra, que ficou bem famosa, que se chama Cem Peitos. Eu apresentei essa performance em um festival na Galeria Mezanino. E o Renato e a Luana, da galeria, me disseram que eu tinha que deixar alguns resíduos dessas performances para expor ou vender. E foi a primeira vez que comecei a olhar mais seriamente para esse coisa de galeria. 

 

V: De que forma essas experimentações se tornaram uma produção constante?

 

F.H.: Durante a pandemia, fiquei um ano e meio trancado no meu ateliê. Eu semprei morei perto de onde trabalho. Foi todo um processo. Comecei a costurar, a mexer com fotografia, a usar a câmera para estudar movimentos. Foi uma produção intensa em fotografia, escultura, performance. Vi um documentário sobre a vida de Francis Bacon, em que contam que no dia de sua maior exposição encontraram seu namorado morto no hotel e decidiram não contar nada pra ele para que a morte não ofuscasse a exposição. Escrevi um conto sobre isso, que acabou virando uma peça de teatro. E juntei esculturas e outros materiais que eu tinha feito. Entendi que a minha criação tinha essa forma 360 graus de explodir, e que nem tudo eram obras. Algumas eram trabalhos de passagem, mas sempre é um ritmo meu de criar em diferentes plataformas. Essa performance, O Monstro, foi onde me achei.

 

Obra de Fause Haten que está na exposição "DITO! Aquilo que não foi", na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

Obra de Fause Haten que está na exposição “DITO! Aquilo que não foi”, na Galeria Fonte (DIvulgação/Paulo Cabral)

 

V: Você trabalha também com pintura, certo?

 

F.H.: Eu comecei fazendo um trabalho que chamo de pintura têxtil, que tem algo de impressionista, mas quando se aproxima da tela percebe que a imagem é feita de pequenos pedaços de tecido presos com alfinetes. Depois, fui para a pintura a óleo, que eu achava que não seria capaz, mas no fim tive muita facilidade. Já fiz argila, testei outros suportes. Eu digo que sempre fiz roupas, e vou fazer por toda a vida. Mas podem ser roupas de parede. Podem ser esculturas. Podem ser formas de entender a roupa como uma forma tridimensional. 

 

V: Como você selecionou as obras que estão na nova exposição?

 

F.H.: O Daniel Rangel, curador, vem acompanhando meu trabalho faz tempo. E ele disse que essas instalações que eu faço eram, na sua opinião, meu trabalho mais importante. Então, essa é uma série que se chama Dito, aquilo que não foi, que trata de vozes, enfim, caladas, que de uma certa maneira eu coloco no universo hoje. Eu comecei pintando sobre uma camisola a frase “Eu não sou propriedade sua”. Toda essa questão feminina, tudo isso que está acontecendo hoje, me pega muito. E foi por meio das obras que achei uma maneira de falar sobre isso. Eu tinha um corpo de trabalho, com algumas peças, fiz outras especialmente para a exposição. São instalações, porque não são esculturas, nem telas. Eu fiz questão de colocar cada uma em um cubo de acrílico. Eu já tinha uma pesquisa de peças vintage, como um vestido de Oleg Cassini (1913-2006), que fazia as roupas de Jacqueline Kennedy Onassis (1929-1994), que por si só poderia ser exposta. Ou seja, isso já é uma camada de significado. Quando eu escrevo em cima, adiciono outra camada. E cada pessoa vai se relacionar com aquela obra de uma maneira. 

 

V: Qual a sua relação com a arte?

 

F.H.: Costumo dizer que a arte, para mim, é um lugar de fala. No sentido de que não sou um cara que foi treinado para falar muito. Minha família era silenciosa, não falava muito. Tem coisas do passado que só fui descobrir depois que eles morreram. Eu tinha muito essa coisa do silêncio em casa. Não sou tão silencioso quanto eles, me coloco mais, principalmente profissionalmente. Mas pessoalmente, menos. E a arte me dá esse lugar de fala. É como tem sido até agora.