Vitry inicia operação no Brasil sob liderança de Adélåide de Grandcourt
Com atuação em mais de 50 países, a centenária Vitry chega ao País sob a liderança de Adélåide de Grandcourt. Conheça os planos para o exigente mercado local

Por Karina Hollo
A Revolução Francesa ainda estava em marcha quando os irmãos Vitry adquiriram uma manufatura criada na Idade Média por monges que produziam espadas e sabres. O ano era 1795 e a empresa que iria imortalizar o sobrenome da família Vitry já estava em sua segunda encarnação. A terceira viria com Jules Thinet, que expandiu a atuação para o desenvolvimento de instrumentos de beleza, incluindo tesouras, alicates e pinças. Em 1907, Thinet criou a lâmina de barbear, que também passou a integrar o portfólio da marca. Até hoje, seus descendentes estão no negócio, permanecendo como uma empresa totalmente familiar.
Durante décadas, a Vitry manteve o foco em acessórios. Até que, em 2005, passou por uma reformulação importante, incluindo no portfólio cosméticos voltados às unhas, como bases e esmaltes, além de itens de maquiagem. Hoje, ela também fabrica produtos de cuidados masculinos e skincare que chegam a mais de 50 países. É com essa rica trajetória que a marca chega enfim ao Brasil, sob a liderança de Adélåide de Grandcourt, trineta de Jules Thinet. Aos 34 anos, ela assume a presidência da marca no país, com o qual já possui uma ligação anterior, tendo vivido aqui entre 2013 e 2017.
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Radicada em São Paulo naquele período e recém-formada em design de moda, modelagem e direção de arte pela Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, Adélåide também acumulou experiências profissionais em casas como Christian Dior e Vanessa Bruno. No Brasil, criou sua própria marca de roupas femininas e, posteriormente, integrou a equipe criativa da designer de calçados Sarah Chofakian, antes de retornar à França. Após três anos de planejamento, a estreia da Vitry por aqui carrega também um significado emocional. “Meu avô materno era um apaixonado pelo Brasil, morou aqui por alguns anos e tinha um vínculo profundo com o país”, comenta. A seguir, ela compartilha mais detalhes sobre a marca e seus planos para o mercado nacional.
VERSATILLE: Como a sua história da marca e familiar influenciou a decisão de assumir um papel ativo na Vitry?
Adélaide de Grandcourt: A Vitry faz parte da minha história desde sempre. Cresci com a marca e com os valores de exigência, savoir-faire e excelência transmitidos pela minha família. No entanto, assumir um papel ativo dentro da empresa nem sempre foi um caminho. Quando mais jovem, eu me via em um universo completamente diferente: estudei moda na École de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, que era minha verdadeira paixão na época – bem longe das pinças. Hoje, como coCEO e diretora artística, percebo que esses dois mundos não são opostos, mas profundamente complementares. Sempre fui muito próxima do meu avô materno, antigo diretor da Vitry, que teve como missão desenvolver a marca no Brasil nos anos 1950. No fim, tudo isso faz muito sentido hoje.

Vitry: tradição francesa com precisão artesanal (Divulgação)
V: De que forma a herança de mais de dois séculos impacta as estratégias atuais da marca?
AG: Esse legado constitui ao mesmo tempo um pilar fundamental e uma linha de conduta rigorosa. Ele nos impõe um alto nível de exigência, tanto na fabricação quanto na imagem da marca. Carregamos o trabalho e a história de várias gerações, e temos como missão preservar esse patrimônio, ao mesmo tempo em que o transformamos em um forte diferencial. Hoje, fizemos tradição em um ativo verdadeiramente contemporâneo: qualidade, precisão e durabilidade permanecem no centro da nossa abordagem, impulsionadas por uma busca constante por inovação.
V: O que motivou a escolha do Brasil como próximo passo de expansão da Vitry?
AG: O Brasil sempre teve um significado muito especial para mim, tanto no plano pessoal quanto histórico – meu avô já desenvolvia a marca no Rio de Janeiro nos anos 1950. Trata-se de um mercado extremamente dinâmico, com uma forte cultura de beleza e um alto nível de exigência. Era, portanto, um território natural para o desenvolvimento da Vitry. Levar o nosso savoir-faire, a nossa qualidade e produtos que respeitam a saúde sempre me pareceu uma evidência, especialmente após os quatro anos que vivi em São Paulo. Foi nesse período que pude realmente perceber o enorme potencial do país e a forte atração dos consumidores pelo universo dos cosméticos.
V: Como sua experiência em moda e design contribui para o posicionamento da marca?
AG: Minha formação em moda e marroquinaria [artigos feitos de couro ou peles, especialmente de cabra curtida] me trouxe um olhar extremamente apurado sobre a qualidade de fabricação, a estética, o detalhe e o storytelling. Hoje, isso se traduz em produtos mais desejáveis, com uma identidade forte. Cada objeto não é apenas funcional, mas um objeto de beleza. Também percebi que a fabricação artesanal francesa está cada vez mais rara e que temos a sorte de fazer parte dos últimos a preservar esse savoir-faire. Existe, portanto, um enorme potencial de comunicação junto aos consumidores. Além disso, senti a necessidade de trazer uma imagem mais jovem e mais glamour para dentro do universo da farmácia, mostrando que é possível aliar o belo ao eficaz – fazer produtos que sejam ao mesmo tempo desejáveis e de alta qualidade.
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Inovar, para nós, não significa romper com o passado, mas reinterpretá-lo.
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V: Como equilibrar tradição e inovação dentro de uma empresa familiar?
AG: É um equilíbrio constante. A tradição nos guia, mas nunca deve nos limitar. Inovar, para nós, não significa romper com o passado, mas reinterpretá-lo. Trata-se de evoluir respeitando a nossa essência. Meu pai sempre foi muito criativo e foi formado na L’Oréal, estando constantemente atento às novidades. Foi justamente essa visão que o levou, há cerca de 20 anos, a introduzir a cosmética na Vitry – uma decisão estratégica que hoje representa cerca de 50% do nosso faturamento.
V: Qual é o papel da cutelaria na identidade atual da marca?
AG: A cutelaria é o coração da Vitry. É ela que fundamenta a nossa legitimidade e constrói a nossa credibilidade. Mesmo com o desenvolvimento dos cosméticos, essa expertise continua sendo a base da marca – é o nosso DNA. Continuamos também a inovar na cutelaria. Acabamos de lançar novas pinças com pontas de cerâmica, que já são um sucesso.
V: Como você enxerga o consumidor brasileiro e suas demandas em beleza?
AG: O consumidor brasileiro é extremamente sofisticado e está sempre em busca de produtos de excelência e alta qualidade. Ele valoriza especialmente produtos importados e artesanais, assim como a história de uma marca e de produtos que já demonstraram sua qualidade ao longo do tempo. Busca ao mesmo tempo eficácia, sensorialidade e experiência. Também é muito atento à imagem, ao design e à qualidade percebida, o que corresponde perfeitamente ao universo da Vitry.
V: Quais são os planos de crescimento da Vitry no Brasil nos próximos anos?
AG: Nos próximos anos, queremos estruturar um crescimento sólido e sustentável no Brasil. Isso passa pelo fortalecimento da nossa presença nos principais pontos de venda, especialmente em farmácias premium, e pelo desenvolvimento de parcerias estratégicas. Também temos como objetivo ampliar nossa oferta de produtos, tanto em acessórios quanto em cosméticos, sempre respeitando nosso posicionamento de exigência e excelência. Paralelamente, queremos investir fortemente em branding e comunicação, a fim de consolidar a Vitry como uma referência no mercado da beleza brasileiro.
V: Que legado você pretende construir à frente da marca no país?
AG: Meu objetivo é construir uma marca forte, desejada e respeitada, que una tradição francesa e modernidade. Quero que a Vitry se torne uma referência de qualidade, precisão e elegância no Brasil, preservando sempre a autenticidade que faz parte da sua essência. Mais do que isso, desejo transmitir um legado de exigência, de paixão pelo detalhe e de valorização do trabalho bem feito – mostrando que é possível aliar performance, estética e responsabilidade.



