Um balanço do Brasil na Semana de Design de Milão 2026

Designers brasileiros tiveram participação no Salão do Móvel, no circuito Fuorisalone e também em programa da Fondazione Sozzani

Peças de designers brasileiros no Salão do Móvel de Milão
Brasil mostrou consistência na Semana de Design de Milão 2026, ocupando diferentes pavilhões, como o estande da Edra no Hall 24, com peças do Estúdio Campana (Divulgação)

Por Pedro H. Jasmim

 

Duas coisas ocorrem ao mesmo tempo durante o Salone del Mobile, em Milão, encerrado no dia 26 de abril. A feira oficial, dentro da Fiera Milano Rho, grandes marcas apresentam lançamentos e consolidam tendências. Fora dali, o Fuorisalone ocupa a cidade inteira com instalações, exposições e experiências espalhadas por bairros, galerias e espaços históricos. São duas dinâmicas complementares que fazem mais sentido juntas. Uma organiza o mercado, já a outra expande o repertório.

 

É essa combinação que transforma Milão no principal centro criativo do mundo durante a semana de design. O salão aponta direção industrial e comercial e o que acontece na cidade ganha uma dose extra de vida, de visitantes e, principalmente, de linguagem, narrativa e comportamento.

 

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Este ano, o que chamou atenção foi o Brasil aparecendo com mais consistência, como parte ativa das discussões contemporâneas do design. Menos associado a um imaginário estereotipado e mais reconhecido por repertório, discurso e autoria.

 

O Salone existe há mais de seis décadas e segue como a principal feira de móveis e design do mundo, onde referências são construídas e tendências ganham forma. E o Brasil tem presença crescente, consistente, com marcas e designers ocupando diferentes pavilhões. Um país que cada vez mais se posiciona à frente de movimentos criativos em diversas áreas.

 

No Hall 24, o estande da Edra apresentou três peças dos Irmãos Campana que ajudam a entender bem esse lugar que o Brasil vem ocupando: a cadeira Vermelha, construída com centenas de metros de corda enrolados manualmente; a Grinza, com couro moldado de forma única em cada exemplar; e o sofá Boa, formado por tubos flexíveis entrelaçados em uma cor azul vibrante.

 

O trabalho dos Campana sempre operou nesse limite entre design e arte, onde imperfeição, acúmulo e improviso viram linguagem. E isso explica por que eles seguem relevantes depois de mais de quarenta anos de trajetória.

 

Essa presença ganha ainda mais peso quando se considera que Fernando Campana faleceu em 2022. Hoje, Humberto Campana segue à frente do Estúdio Campana, mantendo viva uma produção que já é parte da história do design contemporâneo.

 

Além da feira

 

A atuação dos brasileiros não fica restrita à feira. No Fuorisalone, o Estúdio exibiu peças para a coleção Objets Nomades, da Louis Vuitton, apresentada no Palazzo Serbelloni. Dois contextos completamente diferentes, o institucional e o experimental, mas com a mesma assinatura. Além disso, na Fondazione Sozzani, o programa Racconti di Design e Città inclui um recorte importante dessa presença do design sobre o documentário dos Irmãos Campana, que foi apresentado por lá e teve participação de Humberto Campana. O filme percorre os quarenta anos de trajetória da dupla, conectando desde experimentações iniciais até projetos mais recentes e reforçando a relevância histórica e contemporânea do design brasileiro no cenário global.

 

Mas o Brasil não para por aí. Outro destaque é o Piloto Milano, projeto com curadoria brasileira assinado por Ricardo Gaioso que reuniu diversos criativos do país no Fuorisalone. A iniciativa funciona como uma plataforma de articulação coletiva, apresentando o design brasileiro de forma mais estruturada e alinhada ao debate internacional, sem recorrer a simplificações culturais.

 

A semana também foi marcada por uma série de ativações de marcas brasileiras pela cidade. Entre festas, coquetéis e encontros mais informais, esses momentos ajudaram a consolidar ainda mais essa presença, reforçando que o movimento não acontece apenas nos espaços expositivos, mas também nas conexões, nas conversas e na construção de uma rede que sustenta esse posicionamento no longo prazo.

 

Por fim, a presença de uma exposição incrível do mobiliário de Jorge Zalszupin, que mesmo não sendo brasileiro de nascença fez sua carreira no país e adiciona uma camada importante de leitura histórica. Sua obra aparece em diálogo com produções atuais e ajuda a evidenciar que essa inserção internacional não é recente. Ela sempre existiu, mas nem sempre foi narrada com a mesma visibilidade.