Livros asiáticos que contam histórias de “aconchego” conquistam espaço nas estantes dos brasileiros
A ficção de cura, gênero literário que nasceu na Ásia, vem dominando as escolhas literárias após a pandemia de Covid-19

Uma xícara de chá quente, um gato no colo e uma prosa sobre a vida. A atmosfera de um cotidiano tranquilo em ambientes seguros como livrarias, cafeterias e até lavanderias é a premissa dos livros de healing fiction, ou ficção de cura, gênero literário que nasceu na Ásia e vem dominando as escolhas literárias dos brasileiros, fato comprovado na 27ª Bienal do Livro de São Paulo.
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A ficção de cura esteve presente nas listas dos mais vendidos de grandes editorias, como a Intrínseca, com Bem-Vindos à Livraria Hyunam-Dong, de Hwang Bo-Reum, e o Grupo Record, com Meus Dias na Livraria Morisaki, de Satoshi Yagisawa. Ambas apostaram em painéis instagramáveis de seus títulos e presenciaram um mar de pessoas que pararam para fazer uma foto especial e adquirir um exemplar. “Esses livros marcam presença recorrente nas listas dos mais vendidos, então sabíamos que [o painel] seria um sucesso”, conta à Versatille Marina Ginefra, editora de aquisição da Intrínseca. Além da área instagramável, a editora trouxe para o palco da Bienal a autora de Bem-Vindos à Livraria Hyunam-Dong, que lotou a arena. “Hwang Bo-Reum foi a terceira escritora mais vendida no nosso estande durante todo o evento. Ela é uma unanimidade entre os leitores, não só por ser pioneira entre os títulos asiáticos, mas também por abrir as portas para outros autores. Ela é um marco na ficção de cura”, conta Marina.

A autora Hwang Bo-Reum no painel da Intrínseca durante a Bienal
Meus Dias na Livraria Morisaki, publicação do selo Bertrand, também ganhou destaque no estande da Record. “A construção da livraria foi uma homenagem à literatura de cura pelo espaço que ela vem ocupando, e um presente aos leitores”, explica Renata Pettengil, editora-executiva na Editora Record.
O movimento do público em consumir produções culturais fora do eixo americano não atingiu apenas o mercado literário. Os animes japoneses marcam presença no gosto popular brasileiro há anos, enquanto os doramas (novelas coreanas) e os grupos musicais – como BTS e Black Pink – caíram no gosto popular graças ao incentivo cultural do governo da Coreia e ao fácil acesso ao conteúdo através dos streamings. “Trazer referências fora do padrão europeu ou americano foi sempre muito bem-vindo no Grupo Record. Temos uma diversidade de títulos e autores dentro dos nossos selos e decidimos acompanhar a tendência do mercado e o interesse do público pela literatura asiática”, comenta Renata.
O fenômeno sul-coreano, mais atual, e a abertura do mercado japonês em terras brasileiras, que aconteceu entre 1990 e começo dos anos 2000, não são as únicas justificativas para a ascensão da literatura de cura. Para Marina, essas histórias fisgaram o interesse dos leitores pois buscam levar reflexões e mensagens como se fossem um aconchego. “Devido à pandemia da Covid-19, vivemos tempos difíceis, com grandes perdas e restrições. É natural que as pessoas procurem por conteúdos mais leves.” Renata tem a mesma visão sobre o sucesso do gênero: “A entrada da ficção de cura aconteceu em um momento propício, as pessoas estavam abertas para ler textos inspiradores, que fossem um consolo quando a saúde mental estava abalada”.
Mesmo após o fim da pandemia, o gênero continua sendo um sucesso dentro do mundo literário, e ambas as editoras têm planos para continuar a importar mais títulos. Temporada de Cura no Ateliê Soyo será lançado pelo Grupo Record ainda em 2024, e outros livros estão na lista para 2025, como o The Memory Bookshop. A ficção de cura continuará nas estantes das livrarias brasileiras por um longo tempo, oferecendo um abraço para quem necessita de um.
Por Marcella Fonseca | Matéria publicada na edição 137 da Versatille