De volta ao Brasil, MG une legado britânico e inovação chinesa
Centenária marca de carros ingleses foi comprada pela chinesa Saic e volta ao país com portfólio 100% elétrico; esportivo Cyberster é destaque

Por André Sollitto
Em 1939, quando o mundo entrava no sombrio período da Segunda Guerra Mundial, o piloto britânico Goldie Gardner (1890-1958) cravou um recorde de velocidade histórico. Pela primeira vez, um ser humano ultrapassava a marca de 320 km/h em um carro. Ao longo de sua carreira nas pistas, Gardner estabeleceu mais de 150 marcas, incluindo seis dos 10 recordes de categoria homologados pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Mesmo após décadas desde sua morte, ele ainda é o recordista em três categorias.

O piloto Ken Miles vence a corrida em Palm Springs, em 1955, usando um MG (Reprodução/MG)
A impressionante barreira de 320 km/h alcançada por Gardner em 1939, contudo, se deveu não apenas ao talento e à bravura do piloto, como também à competência técnica de outro fanático por alta performance: Cecil Kimber (1888-1945), empresário, mecânico e piloto amador que uma década antes fundara a MG (Morris Garages). A montadora com vocação esportiva ficou especialmente famosa por seus roadsters, como o T-Type, produzido entre 1936 e 1955, e o MGA, fabricado até 1962. Gardner chegou aos 320 km/h ao volante do bólido EX135, desenhado para bater o recorde de velocidade.
Agora, o legado da marca britânica ganha uma nova fase sob o comando da chinesa Saic Motor. A MG está de volta, inclusive ao Brasil, com um portfólio de modelos variados que buscam atender a diferentes perfis. Em quase todos, a velocidade é garantida também pela eletrificação.
A história da MG Motor é repleta de reviravoltas. Após sua fundação, em 1924, foi controlada por diversos grupos automotivos, como a British Leyland Motor Corporation (que na década de 1970 chegou a ter em seu portfólio marcas como Jaguar e Land Rover). Passou por momentos difíceis nos anos 1990, com o lançamento de poucos modelos. Até ser comprada pela Saic Motor, a maior entre as quatro grandes companhias automotivas controladas pelo Estado chinês.
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A estratégia dos chineses era transformar a MG na principal marca de exportação de automóveis. E o plano vem dando resultados. Em 2023, 88% de suas vendas foram registradas fora do mercado doméstico. A expansão já avançou rumo à Europa e à Oceania e chega agora ao Brasil com uma estrutura robusta que prevê até 70 concessionárias no fim do ano. “Viemos para ficar”, disse Frederico Geraldino, diretor de desenvolvimento de rede da MG Motor no Brasil, no evento de lançamento da marca. “Acreditamos no potencial do Brasil e queremos inovar.”

Detalhe do Cyberster, com suas setas chamativas (Divulgação | MG)
Para sua estreia em solo brasileiro, a MG trouxe um portfólio abrangente. O principal chamariz é o Cyberster, o primeiro roadster 100% elétrico do mundo que se destaca atenção pelo design que remete ao passado esportivo da marca, mas adota uma linguagem visual contemporânea. Por dentro, o cockpit é totalmente orientado ao motorista, com um painel de instrumentos dividido em três telas de alta resolução e acabamento em couro e alcantara. Por fora, a capota retrátil, as lanternas traseiras em forma de seta e as portas com abertura em tesoura ajudam a chamar ainda mais atenção.
Os atributos de performance também impressionam. Com 511 cavalos de potência e tração traseira, ele acelera de 0 a 100 km/h em apenas 3,2 segundos. Ainda tem autonomia declarada de 342 quilômetros. E custa pouco mais de meio milhão de reais. Com o lançamento do Cyberster em 2024, a MG conseguiu superar a Tesla, que anunciou seu próprio roadster originalmente em 2017, mas cujo lançamento foi atrasado diversas vezes. Segundo Elon Musk, o modelo só deve chegar às lojas em 2027. Ou seja, o esportivo chinês de alma britânica reina sozinho nessa categoria.
Seu modelo de maior volume será o MGS5, SUV elétrico de apelo familiar que busca se diferenciar dos outros chineses que chegaram ao país por meio de detalhes, como o bom gosto no acabamento interno, que evita o excesso de diferentes texturas, as câmeras não invasivas, que monitoram tudo o que acontece ao redor do veículo sem atrapalhar a navegação, ou o uso de botões físicos e as conexões com todos os tipos de smartphones usados por aqui. Na direção, agrada mais pelo conforto do que pelo desempenho, embora seus 205 cv de potência sejam suficientes para ultrapassagens e para pegar a estrada sem problemas. A autonomia maior, de quase 500 quilômetros, também favorece o uso no dia a dia, bem como o pacote de assistência ao motorista.

MG4 é um dos modelos que integram o portfólio da marca no Brasil (Divulgação|MG)
A MG trouxe ainda um hatch elétrico, o MG 4, em três versões. A mais interessante é a X-Power, que resgata a tradição dos hot hatches, compactos de vocação esportiva, para a era dos eletrificados. São 435 cavalos de potência, tração integral e aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 3,8 segundos em um carro de proporções mais modestas. O apelo é justamente entre quem busca performance. No início de abril, anunciou ainda a chegada do MG 4 Urban, modelo que vai brigar pelo segmento de entrada dos elétricos, hoje dominado pela concorrente chinesa BYD.
Na disputa por mercados internacionais, a companhia aposta alto em design. Em 2024, no ano em que celebrou seu centenário, a MG anunciou a contratação de Jozef Kabaň, designer responsável por assinar o visual do supercarro esportivo Bugatti Veyron, bem como de outros modelos, incluindo o Volkswagen Lupo, o Škoda Octavia e o SEAT Arosa. Passou por Volkswagen, Audi, BMW e Rolls-Royce antes de aceitar o cargo de vice-presidente do centro global de design da Saic, incluindo a marca MG. Kabaň veio ao Brasil no evento de lançamento para falar sobre sua carreira e como ele vem trabalhando na criação de veículos inspirados na tradição inglesa, mas atualizados para o mundo dos eletrificados.
Mas seu maior legado é a esportividade. E essa tradição a marca chinesa de origem britânica quer manter viva. Tanto que busca repetir os feitos de velocidade do passado. No Salão de Pequim de 2024, apresentou o conceito EXE181, um hipercarro elétrico que, ao menos na planilha dos designers, pode alcançar a impressionante velocidade de 415 km/h e acelerar da inércia a 100 km/h em menos de um segundo.
O nome é uma homenagem ao clássico MG EX181, modelo que bateu o recorde absoluto de velocidade em terra ao superar 410 km/h em 1959 – e só foi superado pela Bugatti em 2014. O novo elétrico EXE181 pode nunca ser fabricado de fato, já que muitos dos conceitos apresentados em salões internacionais não chegam às ruas. Mas a busca pelo desempenho e pelo desempenho e pela performance ditam os rumos que a MG quer seguir.
- Matéria publicada na Revista Versatille 141, disponível para download gratuito



