Biondi-Santi: a família que ensinou o mundo a esperar pelos melhores vinhos

Criadora do Brunello di Montalcino, a dinastia toscana transformou a longevidade em filosofia de produção, definiu os padrões da denominação e segue influenciando a enologia mundial mais de 160 anos depois

Tenuta Greppo, onde o Brunello di Montalcio nasceu, em 1865, hoje pertencente ao francês Christofer Descours (divulgação)
Tenuta Greppo, onde o Brunello di Montalcio nasceu, em 1865, hoje pertencente ao francês Christofer Descours (Divulgação)

Por Celso Masson

 

“A natureza é capaz de criar coisas grandiosas. Você só precisa esperar.” A frase de Franco Biondi-Santi (1922 –2013) sintetiza uma filosofia construída ao longo de décadas e ajuda a explicar um dos muitos motivos pelos quais o Brunello di Montalcino ocupa um lugar tão especial no mundo do vinho.

 

Poucos rótulos conseguiram demonstrar de forma tão evidente que o tempo pode ser um dos ingredientes mais importantes para se chegar à excelência na taça – tanto quanto a uva, o terroir ou as pessoas que trabalham no vinhedo e na vinificação. Pois o tempo, quando se trata de Biondi-Santi, não é apenas um detalhe. Ele é indissociável da alma do vinho.

 

LEIA MAIS

 

 

 

Tanto assim que a origem dessa história remonta ao longínquo ano de 1865, quando Clemente Santi produziu aquele que é considerado o primeiro Brunello di Montalcino. Em uma época em que os vinhos da Toscana eram elaborados para consumo rápido e frequentemente resultavam de misturas entre variedades tintas e brancas, ele vislumbrou algo diferente: um vinho capaz de envelhecer por décadas, feito com uma casta apenas.

 

O nome Brunello surgiu em referência à tonalidade escura da Sangiovese Grosso, uva que se tornaria a base da identidade da denominação. Mas o neto de Clemente, Ferruccio Biondi-Santi, quem transformou essa intuição em uma filosofia de produção. Ele consolidou uma nova dinastia e estabeleceu os fundamentos que ainda hoje definem a marca, adquirida em 2017 por Christofer Descours (empresário francês ligado a uma família com longa tradição no segmento de bens de luxo), de quem falarei adiante.

 

Voltando a Ferruccio Biondi-Santi, convém ressaltar que sua decisão de produzir um vinho elaborado exclusivamente com Sangiovese Grosso era bem ousada para a época. A casta era considerada difícil de cultivar e amadurecer, especialmente nas condições do final do século XIX. Ferruccio, porém, acreditava que a pureza dessa variedade seria essencial para criar vinhos de personalidade própria e extraordinária longevidade. Ele estava certo.

 

A garrafa mais antiga preservada pela propriedade data de 1888. Ela representa o início de uma visão que ajudaria a redefinir o potencial dos vinhos italianos. E se alguém desconfia que esse vinho pode não ter presevado suas qualidades, é bom lembrar que o crítico Nicholas Belfrage atribuiu 100 pontos à safra 1891, que na ocasião somava impressionantes 103 anos de idade.

 

Ainda que Ferruccio tenha dado um grande salto na história do Brunello, algo ainda mais espetacular viria na figura de seu filho Tancredi Biondi-Santi, personagem central na consolidação de Montalcino como uma das mais respeitadas regiões vinícolas do mundo. Durante quase meio século à frente da propriedade, entre 1921 e 1970, ele atuou simultaneamente como produtor, educador e formulador de padrões de qualidade.

 

Tancredi criou a primeira cooperativa vinícola local, compartilhou conhecimento técnico com outros agricultores e contribuiu para elevar o nível da viticultura da região. Sua influência alcançou o ponto máximo em 1967, quando o governo italiano criou oficialmente a denominação Brunello di Montalcino. Coube a ele definir as regras fundamentais de produção, rendimento por hectare e períodos mínimos de envelhecimento.

 

 

Giampiero Bertolini, CEO da Biondi-Santi (divulgação)

Giampiero Bertolini, CEO da Biondi-Santi (Divulgação)

“Naquele momento existiam apenas cinco ou seis produtores na região. Hoje são mais de 250, ainda seguindo princípios estabelecidos por Tancredi há quase seis décadas”, disse o atual CEO da vinícola, Giampiero Bertolini, durante sua primeira visita ao Brasil. “Seu legado inclui também a preservação de um patrimônio enológico sem paralelo”, afirmou Bertolini, relembrando um episódio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Ao saber da aproximação das tropas alemãs, Tancredi e seu filho Franco construíram uma parede falsa na adega para esconder as reservas históricas da propriedade. Graças à iniciativa, a coleção sobreviveu intacta e permanece até hoje como um dos mais importantes arquivos líquidos do vinho italiano.

 

Entre as garrafas lendárias produzidas sob a gestão de Tancredi está o Brunello di Montalcino Riserva 1955. A safra foi escolhida pela revista Wine Spectator como um dos 12 melhores vinhos do século XX. Décadas depois, continua sendo citada como uma das maiores expressões da Sangiovese já produzidas.

 

Outro marco histórico surgiu com o Riserva 1964. O vinho foi eleito pela Associação Italiana de Sommeliers como o melhor da história da Itália e tornou-se o rótulo oficial das celebrações dos 150 anos da unificação italiana. Poucos vinhos conseguiram reunir, ao mesmo tempo, valor histórico, prestígio crítico e relevância cultural em escala nacional.

 

A geração seguinte foi liderada por Franco Biondi-Santi, conhecido em Montalcino como o “Gentleman do Brunello”. Elegante no trato e rigoroso na técnica, ele introduziu avanços que modernizaram a produção sem alterar sua identidade. Nos anos 1970, implantou o controle de temperatura durante a fermentação, algo raro para a época. Em parceria com a Universidade de Florença, conduziu ainda um longo programa de pesquisa genética que resultou na seleção do clone BBSS11 (Brunello Biondi-Santi Selection 11), o primeiro clone italiano oficialmente associado ao nome de uma família.

 

Franco também desempenhou papel decisivo na valorização internacional de Montalcino. Em 1994, quando os chamados Super Toscanos monopolizavam a atenção da crítica, ele organizou uma degustação histórica reunindo mais de um século de safras da propriedade. O evento demonstrou de forma inequívoca a capacidade de envelhecimento dos vinhos da casa e da própria denominação.

 

Sala de degustação com barricas antigas da Biondi-Santi. Vinícola preserva rótulos de 1888 (divulgação)

Sala de degustação com barricas antigas da Biondi-Santi. Vinícola preserva rótulos de 1888 (Divulgação)

A última safra produzida integralmente sob a supervisão de Franco foi a de 2012. Após sua morte, em 2013, a propriedade permaneceu por alguns anos sob comando da família até que uma nova etapa se iniciou. Os herdeiros de Franco Biondi-Santi decidiram vender a Tenuta Greppo, onde nasceu o Brunello. A mudança de controle despertou certa desconfiança no mundo do vinho, mas o projeto adotado pelos novos proprietários surpreendeu positivamente. Em vez de promover rupturas, a nova gestão, comandada por Christofer Descours, assumiu o compromisso de preservar os valores que transformaram a Biondi-Santi em uma referência mundial. O conceito que passou a orientar a propriedade foi resumido em uma expressão simples: evolução, não revolução.

 

Desde 2018, essa estratégia vem sendo conduzida por Giampiero Bertolini. Nascido em Quito, no Equador, formado em Economia e Marketing pela Universidade de Florença e com especialização em Marketing Internacional pelo MIT, Bertolini construiu sua carreira na Procter & Gamble antes de passar 16 anos no grupo Marchesi de’ Frescobaldi, outra das tradicionalíssimas famílias do vinho italiano.

 

Sob sua liderança, a Tenuta Greppo aprofundou o conhecimento sobre seus vinhedos e ampliou investimentos em pesquisa, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas. Estudos detalhados analisaram 32 áreas distintas da propriedade, permitindo compreender com precisão a personalidade de cada solo e seu papel na composição dos vinhos. Ao mesmo tempo, programas de viticultura regenerativa passaram a orientar o manejo dos vinhedos, com foco na recuperação da matéria orgânica dos solos, no aumento da biodiversidade e na preservação da vida microbiológica.

 

Outro projeto relevante envolve a seleção massal de videiras históricas. A partir de vinhedos plantados na década de 1930, a equipe identificou plantas-mãe que hoje fornecem material genético para novas áreas experimentais, garantindo que a identidade histórica da Tenuta Greppo permaneça preservada para as próximas gerações.

 

Sede da Tenuta Greppo, em Montalcino, na Toscana (divulgação)

Sede da Tenuta Greppo, em Montalcino, na Toscana (Divulgação)

A propriedade também desenvolveu novos sistemas de condução dos vinhedos para enfrentar o aquecimento global, criando maior proteção natural para os cachos e preservando características consideradas essenciais para o estilo Biondi-Santi: frescor, acidez, elegância e graduação alcoólica moderada.

 

Ao percorrer a adega histórica da Tenuta Greppo, onde repousam exemplares de todas as safras Riserva produzidas desde 1888, torna-se evidente que a obsessão pelo tempo continua sendo o elo entre passado e futuro. Não por acaso, a propriedade mantém a coleção conhecida como La Storica, um acervo que preserva 44 safras de Riserva e serve como testemunho material da longevidade que transformou o Brunello em uma referência mundial.

 

Da visão pioneira de Clemente Santi aos investimentos conduzidos por Bertolini e pela família Descours, a trajetória da Biondi-Santi acompanha a própria evolução do vinho italiano. Em diferentes épocas, seus protagonistas contribuíram para definir padrões de qualidade, aprofundar o conhecimento sobre a Sangiovese e demonstrar que alguns vinhos não são feitos para acompanhar tendências, mas para atravessar gerações.

 

Quatro safras para entender o estilo Biondi-Santi*

 

Quatro vinhos Biondi Santi degustados com o CEO da vinícola Giampiero Bertolini (divulgação)

Quatro vinhos Biondi Santi degustados com o CEO da vinícola Giampiero Bertolini (divulgação)

Se a safra de 1955 entrou para a história como um dos 12 maiores vinhos do século XX e a Riserva 1964 foi reconhecida como o maior vinho já produzido na Itália, as garrafas degustadas na presença de Giampiero Bertolini e de Otavio Lilla, da Mistral Importadora, mostram que a filosofia capaz de dar origem a esses ícones continua viva. A cuidadosa escolha das safras permitiu percorrer diferentes momentos da história recente da propriedade. Em comum, os vinhos revelaram aquilo que a Biondi-Santi considera sua assinatura: elegância, frescor, equilíbrio e extraordinária capacidade de envelhecimento.

 

Rosso di Montalcino 2021
(R$ 1.693,04)

Frequentemente chamado de “porta de entrada” para o universo Biondi-Santi, o Rosso di Montalcino 2021 mostrou que simplicidade nunca foi um conceito associado à casa. Combina fruta pura e vibrante com uma estrutura surpreendente para a categoria. Cerejas frescas, notas florais delicadas e uma acidez precisa formam um conjunto elegante e gastronômico. Bertolini destacou que o Rosso expressa a essência do estilo Biondi-Santi em uma versão mais acessível e pronta para ser apreciada ainda jovem, sem abrir mão da profundidade que caracteriza os vinhos da propriedade.

 

Brunello di Montalcino 2019
(R$ 4.139,45)

Considerada uma das colheitas mais equilibradas dos últimos anos em Montalcino, a safra 2019 foi apresentada por Bertolini como um exemplo clássico do potencial da região. O vinho combina aromas de cerejas, romã, flores secas e ervas mediterrâneas com uma textura refinada e taninos de grande precisão. O que mais impressiona é a sensação de harmonia: nada se sobressai, tudo parece ocupar exatamente o lugar que deveria. É um Brunello construído para envelhecer por décadas, mas que já demonstra grande complexidade e elegância.

 

Brunello di Montalcino Riserva 2018
(R$ 11.917,79)

Produzir um Riserva em Biondi-Santi continua sendo um acontecimento raro. Desde a primeira safra, em 1888, menos de 50 safras receberam essa distinção. O Riserva 2018 nasce justamente dessa seleção rigorosa. Durante a degustação, Bertolini ressaltou a combinação entre profundidade e delicadeza que define o vinho. Os aromas transitam entre frutas vermelhas maduras, especiarias, flores secas e nuances balsâmicas. Em boca, impressiona pela energia e pela precisão dos taninos. Trata-se de um vinho que ainda parece estar apenas no início de sua trajetória evolutiva.

 

Brunello di Montalcino Riserva 2011 “La Storica”
R$ 9.403,00

O momento mais aguardado da degustação veio com a apresentação do Riserva 2011 proveniente da coleção La Storica, acervo onde a propriedade preserva exemplares de todas as suas safras históricas. Neste caso, a última sob o comando de Franco Biondi-Santi, que viria a falecer em abril de 2013. Mais de uma década após a colheita, o vinho exibe uma complexidade difícil de reproduzir. Notas de frutas em compota, chá preto, tabaco, casca de laranja, ervas secas e especiarias surgem em camadas sucessivas, sustentadas por uma acidez ainda vibrante. O conjunto demonstra aquilo que Franco Biondi-Santi sempre defendeu: grandes vinhos não envelhecem, transformam-se. É uma garrafa que ajuda a compreender por que a propriedade se tornou referência mundial quando o assunto é longevidade.

 

Em Montalcino, a espera nunca foi um obstáculo. Sempre foi parte essencial da receita.

 

*Todos os vinhos são importados com exclusividade pela Mistral e podem ser adquiridos no site www.mistral.com.br