Botica mais que centenária: por dentro da história da Granado
Fundada em 1870, a Granado demonstra como é possível, a partir da união entre tradição e modernidade, se manter relevante no mercado de cosméticos e perfumaria

Em 1860, José Antonio Coxito Granado, ainda aos 14 anos, chegou ao Brasil carregando poucos pertences e o sonho de construir uma vida próspera. Em solo carioca, o jovem desembarcou em um país que vivia o auge do Segundo Reinado, com uma certa estabilidade política e crescimento econômico, o que permitiu um primeiro emprego com bons benefícios, como o próprio José chegou a citar em uma entrevista para o jornal A Noite, em 1932:
“Cheguei ao Rio como chega um portuguez disposto ao trabalho: com pequena mochila e animo forte! […]. O patrão dava-me casa, comida e roupa lavada. Juntei dinheiro e, ao cabo de dez annos, quando dalli sai, tinha regular pecúlio!” – disse ele na ocasião, em claro português da época.
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O emprego que permitiu tal “regular pecúlio” – uma soma de dinheiro economizada – foi em uma botica na Rua do Hospício, hoje conhecida como Rua Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro. No período, com uma intensa urbanização das cidades, os precários hábitos de higiene resultavam em surtos de doenças como varíola, cólera e febre amarela, o que fazia das farmácias empreendimentos altamente necessários para o bem-estar da população, cada vez mais em busca de medicamentos, bálsamos e elixires.
Aprendiz, o português começou lavando frascos em um desses estabelecimentos. Um trabalho que lhe rendia moradia, comida, roupa lavada e remuneração fixa. Com experiência e boa vontade, o jovem foi se destacando, o que o levou a receber um convite para dirigir outra botica na capital. Foi ali, realizando as mais diversas funções necessárias para manter uma empresa de pé, que ele ganhou confiança para abrir o próprio negócio.
Além de garra e vontade de fazer dar certo, José e sua família possuíam uma chácara em Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, onde o jovem cultivava ervas e flores nativas com o objetivo de criar matérias-primas para os produtos de sua marca. O local era conhecido como “Ilha da Saúde”, um nome condizente com o foco da Pharmácia Granado, fundada oficialmente em janeiro de 1870, dez anos após a chegada do português ao Brasil.

Registros históricos e a linha vintage de fragrâncias
A empresa utilizava cerca de 300 espécies de plantas medicinais cultivadas em Teresópolis e importava medicamentos da Europa – esses últimos tinham suas fórmulas adaptadas às necessidades específicas dos brasileiros. Aos poucos, suas águas-de-colônia, cremes e talcos iam conquistando uma clientela influente na sociedade carioca. Tão influente que chegou aos ouvidos do imperador dom. Pedro II, que testou, aprovou e concedeu à botica, em 1880, o título de Farmácia Oficial da Família Real Brasileira.
A partir daí, a empresa deslanchou, lançando produtos e campanhas marcantes e revolucionárias para a época. Em 1888, o destaque foi o Pharol da Medicina, um almanaque listando os novos produtos e oferecendo notícias relevantes da área da saúde para o público consumidor. O material foi distribuído até a década de 1940.
Entre os produtos, um dos mais famosos da Granado foi lançado em 1903: o Polvilho Antisséptico, criado pelo irmão de José, João Bernardo Granado. A fórmula teve registro aprovado por Oswaldo Cruz e continua inalterada até hoje. Foi com o fruto desse sucesso que a faculdade de João foi paga. Alguns anos depois, em 1915, a botica colocou o Sabonete de Glicerina no mercado, conquistando mais uma vez um intenso número de vendas.

Acima, José Antonio Coxito Granado; o famoso Polvilho Antisséptico; e uma publicidade antiga
No período, o desenvolvimento dos produtos já tinha migrado da chácara para o Laboratório Chimico-Pharmaceutico de Granado, montado em 1912, na Lapa. Era o espaço com tecnologia mais avançada da época, sendo um dos maiores e melhores da América do Sul. Tudo correu bem até 1935, quando José faleceu e algumas crises mundiais começaram a deixar claro que os tempos haviam mudado e que a Granado não deixaria de ser afetada pelo seu entorno.
QUANDO A MODERNIDADE ENCONTRA A TRADIÇÃO
Poucos anos após o falecimento de José, a Segunda Guerra Mundial começou, o que gerou uma intensa escassez de insumos em diversos setores da sociedade. Para a Granado, o maior impacto foi a falta da folha de flandres, fundamental para a fabricação das latinhas do Polvilho Antisséptico. Para não depender da embalagem, a empresa se reinventou e desenvolveu uma embalagem de papelão para o produto.
Mesmo com as dificuldades, o negócio atravessou a guerra, mas precisou aprender a lidar com as adversidades da época, marcada por crises econômicas no mundo todo. Na década de 1980, após se manter por tantos anos, a empresa começou a sofrer com a inflação, o que resultou em um declínio nos anos 1990, impedindo investimentos em novas tecnologias e expansão.

Foi nesse momento que a modernidade, estimulada pelo próprio fundador, que registrou em seu testamento o desejo de que a empresa ganhasse o mundo, entrou em jogo. Buscando realizar o desejo de seu avô, Carlos Granado, da terceira geração, chamou o empresário inglês Christopher Freeman para uma avaliação da empresa. A ideia era encontrar um comprador internacional, o que levaria à internacionalização.
O que ninguém imaginava era que esse comprador seria o próprio Christopher, que se encantou pelo negócio. Em 1994, o inglês adquiriu e tomou a frente do negócio, sendo recebido em solo brasileiro pelo começo do Plano Real, o que iniciou uma nova fase para o mercado nacional, gerando estabilidade e possibilidade de novos investimentos. Sem deixar a história e a tradição para trás, o empresário começou a diversificar produtos, ampliar o portfólio para incluir perfumaria, cuidados corporais e fragrâncias para o lar e introduzir ações de marketing, tecnologia e gestão.
Em 2004, outra marca muito tradicional de cosméticos brasileiros foi incorporada por Christopher. A Phebo entrou para a família, agregando mais valor à história da Granado. Já em 2005, sob o comando da diretora de marketing e vendas Sissi Freeman, a primeira loja-conceito foi inaugurada no centro do Rio de Janeiro, exibindo vitrines originais, embalagens centenárias, quadros, almofarizes, balanças e propagandas da época. Hoje, são mais de 80 lojas-conceito que reproduzem a riqueza desses detalhes históricos.
A estratégia de valorizar a história por trás da marca conquistou os consumidores, que se apaixonaram pela estética vintage e pelas lojas, que mais parecem um túnel do tempo para uma elegante botica do século passado. Com paciência e consolidação no mercado nacional, a expansão internacional finalmente começou em 2013.

No momento, a Granado conta com 100 lojas próprias pelo Brasil e uma presença global que inclui lojas-conceito em Paris, Londres, Lisboa e Nova York, além de atender clientes em mais de 30 países pelo seu e-commerce. Em 2016, houve uma venda minoritária da empresa para a espanhola Puig, uma das maiores companhias de perfumaria do mundo, o que fortalece a presença no exterior.
Com forte apelo nostálgico, uma identidade que gera desejo de consumo nos tempos atuais, pode-se dizer que a Granado é um exemplo de sucesso na arte de unir tradição e modernidade. A empresa foi uma das primeiras a produzirem sabonetes livres de ingredientes de origem animal no país e está sempre inovando em produtos mais tecnológicos, mas também mantém a tradicional fórmula do Polvilho Antisséptico, criada em 1903. Talvez esteja aí o segredo da Botica centenária: abraçar o passado sem fechar os olhos para o futuro.
Por Beatriz Calais | Matéria publicada na edição 139 da Versatille



