Arte em movimento
A PERCEPÇÃO DE QUE A TECNOLOGIA PODIA ALIAR-SE À EXPRESSÃO ARTÍSTICA FOI FUNDAMENTAL PARA O BRASILEIRO ABRAHAM PALATNIK — PAI DA ARTE CINÉTICA — TORNAR-SE MUNDIALMENTE RECONHECIDO Considerado um dos precursores da arte cinética no mundo,

A PERCEPÇÃO DE QUE A TECNOLOGIA PODIA ALIAR-SE À EXPRESSÃO ARTÍSTICA FOI FUNDAMENTAL PARA O BRASILEIRO ABRAHAM PALATNIK — PAI DA ARTE CINÉTICA — TORNAR-SE MUNDIALMENTE RECONHECIDO
Considerado um dos precursores da arte cinética no mundo, o potiguar Abraham Palatnik, aos 89 anos, continua a produzir seus trabalhos no apartamento onde vive, no Rio de Janeiro, RJ. São obras que encantam pelo movimento proposto, nascidas a partir de uma experiência transformadora na vida do artista. Visitar o Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no final dos anos 1940, mudou o rumo de sua carreira. Então com 20 e poucos anos, o jovem pintor entrou em contato com trabalhos produzidos por Raphael Domingues Filho (1912-1979) e Emygdio de Barros (1895-1986), entre outros — pacientes esquizofrênicos da entidade, tratados pela doutora Nise da Silveira.
Ele passou a ir ao hospital a convite do artista Almir Mavignier, que lidava com aquele grupo e a médica, e do crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981). “O que eu vi lá era uma coisa extraordinária, uma coisa de uma densidade tão fabulosa, com uma expressividade que vinha de dentro”, afirmou Palatnik. “A linguagem e a imagem se fundiam e eu comecei a me sentir desorientado.” O impacto levou-o a abandonar sua pintura acadêmica, em que havia retratos e naturezas-mortas.
Além de Mavignier, Palatnik convivia com nomes como Renina Katz e Ivan Serpa (1923-1973). Esses contatos, somados a discussões com Pedrosa, que indicou ao artista leituras sobre a teoria da Gestalt, levaram-no a romper definitivamente com o figurativismo e partir para experimentações. Em 1949, depois de pintar algumas telas construtivas, aproximadas da arte abstrata, Palatnik começou a estudar o campo da luz e o do movimento, o que resultou no Aparelho Cinecromático — uma caixa com lâmpadas, acionadas por motor, que criam imagens de luzes e cores em movimento. “Como artista, eu me perguntava como resolver o problema da cor”, disse ele. “Fatalmente, eu cheguei à luz, aos focos luminosos.
O que eu devia fazer era algo que não representasse o exterior, mas que representasse a si mesmo.” Exposto em 1951 na 1.ª Bienal Internacional de São Paulo, o trabalho recebeu menção honrosa do júri internacional. Curioso é que, inicialmente, a obra tinha sido rejeitada pela exposição por não pertencer a nenhuma das classificações então existentes.
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Nos anos 1950, Palatnik desenvolveu pesquisa em pintura abstrato-geométrica e, também, em design de móveis. Em 1954, ele integrou-se ao Grupo Frente, marco do movimento construtivo no Brasil, ao lado de Serpa, Pedrosa, Ferreira Gullar (1930-2016), Franz Weissmann (1911-2005) e Lygia Clark (1920-1988), entre outros. Mas o autor sempre trilhou um caminho muito próprio e original.
A obra de Palatinik tem a ver, em resumo, com a tecnologia a serviço da arte. A partir de 1959, o artista trouxe o movimento para a tridimensionalidade, com trabalhos em que campos eletromagnéticos acionam pequenos objetos colocados em caixas fechadas. Ele também fez quadros bidimensionais, como na série Progressões, iniciada em 1962. Nela, efeitos óticos de movimento são criados, por exemplo, por faixas de madeira e cartões trabalhadas em uma superfície.
Mais uma vez a tecnologia seria a base com a qual Palatnik desenvolveu mais tarde, a partir de 1964, os Objetos Cinéticos. Desdobramento daquelas primeiras obras em que focos de luz criavam formas e cores, nos tais trabalhos ele suprimiu a projeção de luz e valorizou os mecanismos de funcionamento aparentes. São aparelhos construídos por hastes ou fios metálicos que têm nas extremidades discos de madeira de várias cores. Hastes e placas são movimentadas por um motor, com variação de velocidade e direção. Para o artista, seu impulso inicial está na intuição. “No meu caso, esse caminho passa pela intuição, depois pelo pensamento/raciocínio junto com intensa experimentação e, finalmente, por um processo atento e cuidadoso de construção”, afirmou ele. Em 1964, Palatnik também participou da Bienal de Veneza, o que fez deslanchar sua carreira internacional.
Muito do conhecimento tecnológico desse artista deve-se a um curso especializado em motores de explosão, que fez na Escola Técnica Montefiori, em Tel Aviv, então Palestina, para onde se mudou com a família de judeus russos em 1932. É lá que iniciou os estudos artísticos, no ateliê do pintor Haaron Avni (1906-1951) e do escultor Sternshus. Além disso, o rapaz frequentou o Instituto Municipal de Arte de Tel Aviv, entre 1943 e 1947, retornando ao Brasil, onde se instalou no Rio de Janeiro.
Arte por Bob Jr. | Matéria publicada na edição 98 da Revista Versatille



