Com novos espumantes, Sacramentos Vinifer avança na experimentação e na busca pela elegância

Vinícola do Ano em 2025 pelo Guia Descorchados e pioneira na Serra da Canastra, empresa inaugura nova fase ao lançar dois grandes rótulos elaborados com uvas da Serra Gaúcha

Rótulo com algumas das premiações da Sacramentos Vinifer (divulgação)
Garrafa do Sabina Sauvignon Blanc Entre Serras 2025, que alcançou 95 pontos no mais prestigiado guia sul-americano (divulgação)

Por Celso Masson

 

Dois novos espumantes colocam em evidência a inquietação que orienta a Sacramentos Vinifer: o Sabina Millesimato Brut 2024 e o Sacramentos Nature Prima Sboccatura. Os lançamentos ampliam um portfólio que vem conquistando reconhecimento com escolhas pouco convencionais, das origens das uvas aos recipientes de fermentação e amadurecimento. Provas disso foram as conquistas do título de Vinícola do Ano em 2025 pelo Guia Descorchados e os prêmios de Melhor Tinto para o Sabina Syrah Seleção de Parcelas 2024 e de Melhor Branco do Brasil para o Sabina Sauvignon Blanc Entre Serras 2025 que alcançou 95 pontos no mais prestigiado guia sul-americano.

 

É com esse histórico que a Sacramentos expande sua atuação nos espumantes. Lançados no início do mês em uma degustação em São Paulo com a presença do produtor Jorgito Donadelli e do enólogo Alejandro Cardozo, os dois novos rótulos agregam camadas de inovação e de elegância ao portfólio da casa. Não por acaso, foram descritos por Jorgito como representantes de uma nova fase da vinícola.

 

Os dois novos espumantes Sacramentos (divulgação)

Os dois novos espumantes Sacramentos (divulgação)

O Sabina Millesimato Brut 2024, além de reforçar a linha de espumantes já desenvolvida com uvas da Serra Gaúcha (toda a vinificação da empresa é feita no Sul), é provavelmente o mais evoluído da Sacramentos até aqui. Isso porque, além de combinar 38% de Viognier a uma proporção igual de Chardonnay, usa no corte 24% de vinho base de safras anteriores da Serra Gaúcha. O resultado é um espumante fresco e equilibrado, com alta acidez e mousse cremosa, mas que no nariz traz nuances de brioche, pão fresco e biscoito, provenientes dos 24 meses de autólise.

 

Já o Sacramento Nature Prima Sboccatura inaugura uma etapa que a casa associa à busca de maior complexidade, textura e elegância, com o tempo de contato com as leveduras como parte central da elaboração. Com 45% Chardonnay e 26% Chenin Blanc, ele leva no corte 29% de vinho base reserva de 2017 a 2022, combinando Chardonnay, Trebbiano, Viognier e Riesling Itálico). O nome Prima Sboccatura remete ao primeiro dégorgement, a retirada dos sedimentos de leveduras da garrafa após a segunda fermentação e o amadurecimento. A escolha do nome italiano anuncia a proposta do lançamento: explorar o que esse percurso pode acrescentar à expressão do espumante. Na degustação, a novidade foi apresentada como um marco na evolução das borbulhas da Sacramentos. É seco e amanteigado, com final persistente.

 

Estilo peculiar

 

Ainda que os novos espumantes da Sacramentos sejam elaborados com uvas da Serra Gaúcha, as escolhas de Donadelli e Cardozo (com a consultoria do crítico e consultor Eduardo Milan) são orientadas para a construção de um estilo peculiar. A Sacramentos foi pioneira na produção de uvas da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Nos vinhedos mineiros, a cerca de 1.100 metros de altitude, a grande amplitude térmica e o sistema de dupla poda permitem colher no inverno, até um mês antes da safra nas demais regiões produtoras do Sudeste, sobretudo na Serra da Mantiqueira. Para os espumantes, o projeto estabeleceu parcerias com viticultores da Serra Gaúcha, especialmente de Monte Belo do Sul e Nova Prata. Tudo é vinificado no Sul, onde o enólogo Cardozo pode se dedicar 100% às uvas da Sacramentos durante os meses de julho, agosto e setembro, quando não há colheita de uvas no Sul.

 

Jorgito Donadelli nos vinhedos de Sacramento (MG), na Serra da Canastra (divulgação)

Jorgito Donadelli no vinhedo São Miguel, na Serra da Canastra (divulgação)

Até por isso, na adega, a experimentação é mais livre. Ela ganha forma em uma coleção de recipientes escolhidos por suas diferentes contribuições ao vinho. Há foudres, barricas de grandes volumes de carvalho francês, austríaco e alemão, barricas com pouca ou nenhuma tosta, ânforas e tanques de concreto. Entre os equipamentos estão recipientes da austríaca Stockinger, ânforas Tava e ovos de concreto Nomblot e uma tecnologia até então totalmente inédita no Brasil, de barricas de cerâmica produzidos pela italiana Clayver. “A Sacramentos esteve entre as pioneiras no país na adoção de alguns desses recursos. As ânforas com sistema de refrigeração, por exemplo, nós adquirimos por entender que ela ampliam o controle sobre a fermentação”, disse Donadelli.

Mais do que reunir equipamentos, o trabalho consiste em comparar o mesmo vinho em recipientes distintos para entender como cada material e formato interfere no resultado. “Nós fomos definindo o perfil dos nossos vinhos e entendemos que os que mais nos encantavam eram aqueles  com menos extração, com teor alcoólico mais baixo e com uma tensão maior na na boca”, afimrou o proprietário da Sacramentos Vinifer.

Essa disposição para testar caminhos aparece também nos cortes pouco usuais e na extração delicada. Um dos rosés chega a se aproximar visualmente de um branco, levando ao limite a proposta de trabalhar a cor com sutileza. A linha Far Niente, dedicada a microvinificações, oferece outro espaço para explorar possibilidades fora das fórmulas mais previsíveis. E assim, com base na experimentação e na busca pela elegância, a enologia brasileira avança graças aos investimentos e a persistência de empresários que, como Jorgito Donadelli, não se contentam em fazer mais do mesmo. Seu trabalho merece todo o reconhecimento alcançado até aqui – e os que certamente ainda estão por vir.

 

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