Como é o irmão caçula do Opus One, que custa metade do preço
Overture nasce dos mesmos vinhedos do célebre tinto californiano e chega ao Brasil por pouco mais de R$ 3 mil; degustação em São Paulo colocou lado a lado as safras 2021 e 2022 de ambos

Por Celso Masson
Poucos vinhos americanos carregam uma história tão ligada ao universo do luxo quanto o Opus One. Criado a partir do encontro de dois personagens que ajudaram a mudar a história do vinho no século 20 — o barão Philippe de Rothschild, do Château Mouton Rothschild, em Bordeaux, e Robert Mondavi, um dos responsáveis pela projeção internacional de Napa Valley —, o tinto californiano custa hoje quase R$ 7 mil no Brasil. O preço, aparentemente alto, não é um exagero para esse rótulo excepcional. A crítica inglesa Jancis Robinson chegou a defini-lo como “o vinho que tem gosto de luxo”. Gosto e aroma.
Bem menos cobiçado é seu irmão mais novo, Overture. Produzido a partir dos mesmos vinhedos da propriedade e seguindo o rigoroso processo de seleção da Opus One, custa aproximadamente a metade do preço: na Mistral, importadora dos rótulos no Brasil, a safra 2021 sai por R$ 3.135,80, e a 2022, por R$ 3.449,44.
As diferenças — e semelhanças — entre eles ficaram claras em um jantar para poucos jornalistas especializados na segunda-feira (21), no restaurante Figueira Rubaiyat, em São Paulo. O encontro, do qual Versatille participou, foi conduzido por Laurent Delassus, vice-presidente de marketing internacional da Opus One, e por Otavio Lilla, sócio da Mistral. Nas taças, Overture e Opus One das safras 2021 e 2022.

Laurent Delassus, vice-presidente de marketing da Opus One (divulgação)
Bordeaux em Napa Valley
A origem da Opus One remonta aos anos 1970, quando Philippe de Rothschild começou a se interessar pelo potencial dos vinhos americanos. Para levar adiante um projeto na Califórnia, porém, não queria trabalhar sozinho. Um nome aparecia repetidamente nas conversas: Robert Mondavi. Em 1978, Mondavi finalmente foi recebido por Rothschild em Bordeaux. “Eles passaram três dias juntos e falaram de negócios por apenas uma hora”, conta Delassus.
No ano seguinte, Lucien Sionneau, enólogo do Mouton Rothschild, foi enviado à Califórnia para trabalhar com Tim Mondavi, filho de Robert, na criação do primeiro corte. Sionneau tinha 55 anos e não falava inglês; Tim, então com 25, acabara de se formar em enologia pela Universidade da Califórnia em Davis. Era uma dupla pouco provável. Mas os resultados da parceria apareceram logo na primeira safra, em 1979. E a joint-venture se consolidou com a aquisição de vinhedos próprios, incluindo parcelas do histórico To Kalon. Anos mais tarde, a sociedade construiu uma nova vinícola em Oakville. A safra 1991 foi a primeira elaborada integralmente ali. Àquela altura, a reputação da Opus One já estava à altura dos sobrenomes de seus fundadores.
O Overture by Opus One surgiria em 1993, como consequência do próprio método de elaboração do Opus One. Os lotes são provados às cegas para chegar ao corte final e, segundo Delassus, cerca de 10% a 20% ficam de fora. “Alguns são grandes vinhos, mas talvez não se encaixem no quebra-cabeça”, explica. Inicialmente, esses vinhos eram destinados aos funcionários. Depois, passaram a ser servidos aos visitantes, que começaram a perguntar se poderiam comprá-los. Nascia assim umm segundo rótulo da vinícola.

Overture 2022, que chega ao Brasil custando R$ 3.449,44 (divulgação)
Durante anos, ele foi elaborado como multi-vintage, reunindo duas ou três colheitas recentes. Depois, passou a ser feito com uvas de um único ano. A partir de 2021, passou a informar a safra no rótulo. A mudança criou um novo desafio para a equipe. “Antes podíamos dizer que era uma linguagem diferente. Agora é possível comparar Overture com Opus One de uma mesma safra”, diz. Foi exatamente isso que fizemos no jantar em São Paulo. E pode-se afirmar que é justamente nessa comparação que as impressões sobre os rótulos ficam mais interessante.
Um terroir, duas safras, quatro vinhos
Produzido em um ano seco, em que uma onda de calor assustou os agricultores e enólogos da Califórnia, o Overture 2021 mostra amora e mirtilo acompanhados por café e chocolate. Tem textura sedosa, profundidade e ótimo equilíbrio entre potência e finesse. Já o 2022 segue um caminho mais fresco, resultado de um ano de clima ameno. Mesmo com 94% de Cabernet Sauvignon, ele traz acidez viva reforçada por aromas de frutas vermelhas e violetas. Aos poucos, amêndoas aparecem ao lado de notas de mocha.
No Opus One, a distância entre as duas colheitas também é perceptível. O 2021 impressiona pela intensidade e concentração. Cassis e amora se combinam a notas florais, especiarias e baunilha. Na boca, é vibrante e macio, com nuances de chá preto e chocolate e final longo. O Opus One 2022, vendido no Brasil por R$ 6.893,86, enfrentou calor intenso e seca, mas surpreende pelo frescor. Mirtilo e cassis dividem espaço com notas florais, caixa de charuto e grafite. Os taninos são finos, a fruta mantém vivacidade e o final traz notas minerais e de baunilha. Recebeu 96 pontos de James Suckling e 95 de Robert Parker.

Opus One 2022, vendido pela Mistral a R$ 6.893,86: “o sabor do luxo”, segundo Jancis Robinson (divulgação)
Curiosamente, à mesa, foi o 2021 que levou vantagem. Harmonizado com a Tirita de picanha do Rubaiyat, mostrou maior integração entre fruta, textura e concentração. Uma lembrança de que pontuações podem ajudar a situar um grande vinho, mas a experiência na taça — e à mesa — continua tendo a palavra final.
E o Overture? Não é um Opus One pela metade. Mas, custando 50% do preço e entregando complexidade, elegância e capacidade de guarda, talvez seja uma excelente alternativa para quem quer ter na adega o melhor da Califórina sem pagar o preço elevado que “o gosto do luxo” obrigatoriamente custa.
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