Salvador de volta ao centro
A Rua Chile, em Salvador, recupera seu protagonismo com hotéis de luxo, restaurantes premiados, patrimônio histórico e novas experiências gastronômicas.

Por André Sollitto
Hotéis instalados em edifícios históricos, investimentos milionários e restaurantes que vão além de reinterpretar a cozinha baiana devolvem protagonismo à Rua Chile e a seu entorno, requalificando a região central de uma cidade pulsante que não se contenta em viver do passado
“A Rua Chile é pequena. Vai da Praça Municipal ao Largo do Teatro, enladeirada. No entanto é o coração da cidade, nela se exibe toda gente. […] Ali estão os ricos sem quefazer, os desocupados, os literatos, os aventureiros, os turistas, gente que sobe e desce a rua, ali as mulheres mostram seus novos vestidos, exibem as bolsas caras, em passeio diário. Há quem não possa deixar de ir à Rua Chile todos os dias.”
Foi assim que Jorge Amado descreveu, no livro Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios, aquela que é considerada a primeira rua do Brasil. Inaugurada em 1549 como Rua Direita dos Mercadores e rebatizada em 1902, a Chile foi uma das vias mais importantes da capital baiana, por onde circulavam as pessoas mais importantes da sociedade. “O turista deseja encontrar alguém na Bahia e não possui seu endereço? Deve ir à Rua Chile às cinco horas da tarde e com certeza encontrará a pessoa que procura”, recomendava o romancista.
Após seu período de esplendor, aquela rua pequena e enladeirada foi perdendo importância. Os antigos prédios e casarões ficaram abandonados por décadas. Agora, um movimento de revitalização tem recuperado a arquitetura clássica da rua, movimentando a cena turística e a gastronomia da região. É um símbolo do bom momento que vive a cidade de Salvador, com novos hotéis, restaurantes sendo reconhecidos mundo afora e uma ótima programação cultural e histórica.

No alto, à esquerda, o Hotel Fasano Salvador, que ocupa o antigo prédio do jornal A Tarde, com piscina no rooftop e quartos tombados. Acima, à direita, o Hotel Fera Palace, instalado em um edifício histórico de 1934.
Fera, Fasano, Tira-Chapéu
O processo de reocupação começou há uma década, com uma série de investimentos privados para requalificar edifícios históricos da Rua Chile. O primeiro a abrir as portas foi o Fera Palace, em 2017, que ocupa um prédio de 1934. Quando foi inaugurado, o Palace Hotel era o mais sofisticado de Salvador. Hospedou artistas como a cantora Carmen Miranda (1909-1955) e o cineasta americano Orson Welles (1915-1985). Hoje, sob gestão do Grupo Fera, recuperou o brilho de outrora.
No ano seguinte, em 2018, o grupo Fasano inaugurou o Fasano Salvador. Localizado na antiga sede do jornal A Tarde, em frente à praça Castro Alves, o prédio mantém a fachada original e parte do interior. Um dos destaques é a antiga sala do diretor de redação, localizada no primeiro andar. Com piso de taco e painéis de madeira jacarandá originais, mantém até pequenas marcas de um incêndio que atingiu a sala em 1930, quando manifestantes protestaram contra a operadora de transporte público da cidade. No térreo, um bar e uma unidade do restaurante Gero completam a infraestrutura. Além do menu tradicional, baseado na gastronomia italiana, o cardápio oferece opções como moqueca e bobó de camarão. O responsável pelo trabalho na cozinha é o chef Bahia Brito, que trabalha no grupo há mais de 30 anos.

A Chef Preta, o restaurante que leva seu nome, localizado dentro do Palacete Tira-Chapéu, e seus pratos feitos com pescados.
As duas iniciativas hoteleiras atraíram novos investidores para a Rua Chile. Um deles é o empresário mineiro Marcelo Magalhães, com vários negócios na área da gastronomia. Ele entrou como sócio na restauração do Palacete Tira-Chapéu, antiga sede da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia. Construído em 1917, ele estava degradado antes da reforma que deu origem a um complexo cultural e gastronômico. Reaberto em 2024, abriga espaços para eventos, um salão de baile que recebe apresentações musicais, lojas de roupas e artesanato, além de três restaurantes. No térreo, o Casaria segue a linha contemporânea, enquanto o Preta, com cozinha autoral de Angeluci Figueiredo (mais conhecida como chef Preta), destaca os frutos do mar e o tempero baiano. No rooftop, Pala 7 apresenta influências mediterrâneas em cardápio assinado por Claude Troisgros.
Vista para a Baía de todos-os-santos
No ano passado, o Gorges Residence abriu as portas em um prédio da década de 1950 que já foi sede de banco e passou por um completo retrofit para abrigar uma proposta de hospedagem pensada em estadas mais longas, com apartamentos espaçosos e decoração contemporânea, todos com vista para a Baía de todos-os-santos. Em breve, outro prédio histórico da rua será reinaugurado. O Palácio Rio Branco, antiga sede do governo da Bahia, passará por uma restauração estimada em R$ 250 milhões. Receberá o nome de Hotel Allard e será o primeiro “seis estrelas” do Nordeste, com previsão de inauguração em 2028. À frente do projeto está o empresário francês Alex Allard, que criou em São Paulo o complexo Cidade Matarazzo com o hotel Rosewood, lojas, residências e restaurantes.
Assim, o centro histórico de Salvador vem recuperando sua antiga glória. A localização da Rua Chile é parte de seu enorme apelo. É nela que fica o Elevador Lacerda, que conecta a cidade alta à cidade baixa. Está bem próxima ao Pelourinho e a algumas das mais tradicionais igrejas da capital baiana, como a de São Francisco, conhecida como “igreja do ouro”, e a Igreja do Rosário dos Pretos, que tem uma impressionante missa celebrada às terças em que a liturgia católica é unida aos atabaques afro-brasileiros. A Rua Chile é a melhor opção para quem quer se hospedar com luxo e conforto. Mas Salvador tem muito mais para quem quer ir além do centro histórico e explorar a cidade em busca das melhores opções gastronômicas.
Com o curioso nome Mistura Contorno, o restaurante da chef potiguar Andréa Ribeiro começou como um quiosque na Praia de Itapuã, em 1993, com um cardápio que misturava receitas da Bahia e referências mediterrâneas. Então casada com o restaurateur italiano Paolo Alfonsi, Andréa estudou na Itália e se formou em gastronomia. Na época, Itapuã era um destino turístico até para quem vivia na cidade. “Havia muito movimento, as pessoas saiam do centro para ir até Itapuã, e faltavam opções de restaurantes”, afirma a chef.
O Mistura cresceu, se tornou um dos endereços mais importantes da cena gastronômica, e em 2016 ganhou outra unidade, o Mistura Contorno, na Avenida Contorno. O menu serve pratos já clássicos, como a massa com frutos do mar, vários deles vindos de pescadores parceiros com que a chef tem uma relação de parceria há anos. “Começamos esse movimento de conhecer os pescadores lá nos anos 1990”, diz Ribeiro. Após 10 anos, o restaurante passou por uma reforma e acaba de reabrir.
Outra referência é o Amado, do chef Edinho Engel, que em 2026 completa 20 anos. As celebrações incluem uma série de jantares com chefs convidados, como Emmanuel Bassoleil, consultor gastronômico do Hotel Unique, e Oscar Bosch, do Tanit, em São Paulo, Rafa Costa e Silva, do Lasai, no Rio de Janeiro, e Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, responsáveis pelo Origem. O restaurante foi pioneiro em usar técnicas tradicionais da cozinha francesa com ingredientes da Bahia. Engel, que já tinha o celebrado Manacá, em Camburi, no litoral norte de São Paulo, levou a mesma proposta para Salvador e desde então o Amado se tornou referência na cidade.

Acima, os chefs Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, do Origem, e os pratos do menu Recôncavo que celebram 10 anos do restaurante. No alto, o chef Edinho Engel e o espaço do restaurante Amado, que completa 20 anos em 2026.
Ancestralidade e novos caminhos
Depois, vieram outros. O Origem, primeiro restaurante a servir apenas menu degustação, também celebra um marco importante. O casal Fabrício Lemos e Lisiane Arouca começou o trabalho de pesquisa dos biomas, da fauna e da flora da Bahia há 10 anos. “Temos uma diversidade incrível que o próprio baiano desconhece”, diz Lemos.
Hoje, o Origem é o 52º no ranking Latin America’s Best Restaurants. O menu atual, que celebra a primeira década, é um olhar profundo sobre o Recôncavo baiano. “É um território com muitos insumos vindos do mar, mas também tem, de forma muito forte, a ancestralidade vinda de África”, afirma o chef. “Nesses 10 anos, a gente aprendeu muito em relação ao que somos e o que essa nossa cultura quer falar”, completa.
Na visão dos chefs, além da pesquisa dos ingredientes, a missão do restaurante é devolver esses produtos à população por meio de receitas que agregam valor a insumos que nem sempre têm o valor comercial que merecem. “Hoje, quem vai empreender na Bahia com restaurantes nos tem como referência. E não é só uma atividade para obter resultado financeiro. É um movimento cultural de transformação de pessoas e fortalecimento da cadeia produtiva”, afirma Lemos.
Além do Origem, a operação conta com outros restaurantes, como o Megiro, um boteco com receitas tradicionais e um ambiente mais sofisticado, o Orí, com menu contemporâneo, e o Segreto Ristorantino, de inspiração italiana.
Chefs mais jovens também estão levando a tradição da comida baiana para novos caminhos. Kaywa Hilton, à frente do Boia, assumiu a tarefa de valorizar pescados pouco consumidos usando técnicas modernas, como a maturação em uma câmera que ocupa um espaço central no restaurante. Abre ainda espaço para outros insumos locais, como meles de abelhas nativas, leite de coco e dendê. “Quero mostrar que há muita diversidade de ingredientes na região”, conta Hilton.
O ambiente informal do restaurante contrasta com sua experiência anterior, em hotéis de luxo. Mas seu trabalho tem dado frutos: o Boia vem figurando em listas de melhores endereços do país.
Salvador sempre foi um destino turístico incrível, com belas praias, igrejas históricas, uma comida saborosa e temperada, uma agenda cultural vibrante e uma mistura única entre o velho e o novo, entre santos e orixás. Agora, com novas opções de hospedagem de luxo que se mesclam à arquitetura histórica e uma cena gastronômica renovada, que parte da tradição e dos insumos locais, Salvador olha para frente em busca do futuro e ganha ainda mais motivos para ser visitada.

A chef Andréa Ribeiro, a vista do restaurante Mistura Contorno e seu clássico linguine com vôngole e mexilhão. O chef Kaywa Hilton, do restaurante Boia, e seu ceviche com pescados locais.
- Matéria publicada na Revista Versatille 142, disponível para download gratuito
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