The Madison: Kurt Russell fala sobre luto, vida e seu papel na série

Por Miriam Spritzer Em The Madison, ele é o marido perfeito que morreu cedo demais. Sua ausência é justamente o que move tudo. Conversamos com o ator sobre o projeto, sobre processar o luto e sobre

ator Kurt Russell

Por Miriam Spritzer

 

Em The Madison, ele é o marido perfeito que morreu cedo demais. Sua ausência é justamente o que move tudo. Conversamos com o ator sobre o projeto, sobre processar o luto e sobre o que significa, afinal, viver bem.

 

Quando o agente de Kurt Russell começou a negociar The Madison, o ator estava prestes a embarcar rumo à Austrália para filmar Monarch: Legacy of Monsters, da Apple. O timing parecia impossível. Eis que chegaram os quatro primeiros episódios, com a informação de que Michelle Pfeiffer já estava confirmada no papel principal. Russell leu.

 

E a decisão foi quase imediata. “Foi imediatamente poderoso”, ele contou em entrevista exclusiva para a Versatille. Assim, aos 74 anos de idade e 65 de carreira, Kurt Russell escolheu o papel mais próximo de si mesmo que já interpretou. “Eu sabia que podia trazer a coisa certa para a série. Não havia nada que eu não tivesse gostado sobre o personagem”.

 

Essa coisa é o que torna The Madison algo diferente no catálogo de um dos atores mais versáteis de Hollywood. Não apenas a ação, o carisma ou a presença física que definiram alguns de seus lendários personagens em filmes como O Enigma de Outro Mundo, Fuga de Nova York e Os Oito Odiados. Seu novo personagem tem algo mais quieto, mais pessoal e, por consequência, mais difícil de atuar.

 

The Madison é o projeto mais íntimo que Taylor Sheridan já escreveu. O criador de sucessos da televisão entre eles Yellowstone, Operação: Lioness e Tulsa King resolveu em sua nova série explorar o luto, o que acontece com uma família ao perder um de seus elos mais fortes. Sheridan escreveu todos os 12 episódios da primeira temporada.

 

Uma raridade que Russell não deixou passar em branco: “Não me lembro da última vez que trabalhei em algo sem receber alterações no roteiro. O que você lê é o que você vai fazer.” O ator conta que teve a oportunidade de conversar com Sheridan sobre o resultado e ouviu algo que considera raríssimo, “ele sentiu que 95% do que estava na cabeça dele, que colocou no papel, foi o que executamos”.

 

A trama acompanha Stacy Clyburn (Michelle Pfeiffer), uma nova-iorquina que perde o marido subitamente e, no meio do luto, se vê forçada a visitar pela primeira vez uma propriedade em Montana que ele amava e que nunca chegou a mostrar à família. Kurt Russell interpreta Preston Clyburn, o marido que aparece em flashbacks, ligações telefônicas e nas páginas de um diário.

 

A morte do personagem não é uma surpresa, e sim um ponto de partida para a série que acompanha mãe e filhas adultas em um lugar totalmente novo. Ao mesmo tempo que vão entendendo o lugar, descobrem algo novo sobre este homem que fez parte de todas as suas vidas. As revelações são para elas e para o público ao mesmo tempo, o que dá à série sua força particular.

 

Por conta deste formato de narrativa, as duas primeiras temporadas foram filmadas na mesma época, o que foi uma grande sorte para Russell, que só conseguiria se liberar para as filmagens quando a primeira parte já havia sido encerrada.

 

Assim que terminou as gravações na Austrália, Russell viajou para Montana com cerca de um mês de antecedência, gravou tudo o que envolvia seu irmão na série e as cenas ao lado de Michelle Pfeiffer. Mas a produção teve que ser criativa para fazer tudo dar certo com a agenda do ator, e foram pensadas cenas em que os dois personagens interagem à distância.

 

The Madson Kurt Russell

Russell com a atriz Michelle Pfeiffer, em uma das cenas da série que exigiu a “magia do cinema”.

 

“Em qualquer cena que aparecemos juntos, nós estávamos ali de verdade. E quando aparecemos separados, o telefone funciona, o diário funciona, a memória dela funciona. Você não consegue ver quando eu estava lá ou não. É a magia de fazer cinema”, explica.

 

“Fico muito feliz que ela, Taylor e a Paramount conseguiram trabalhar com meu agente para resolver isso, porque realmente acho o roteiro lindo”.

 

Michelle Pfeiffer teve que gravar todas suas cenas sem saber ao certo quem interpretaria o marido, mas imaginou que seria Russell. “Ela teve que presumir que, quem quer que fosse, estaria nessa sintonia”, Russell brincou. “Foi um tiro no escuro que ela deu e acertou”.

 

O ator admite ter tido o trabalho mais fácil ao gravar sua parte com base no que a atriz já tinha feito, “eu tinha monitores para ver algumas das cenas que ela gravou, e então entrava e fazia com outra pessoa. Funcionou”.

 

O relacionamento de Preston e Stacy também foi um fator que atraiu muito o ator a participar da série. A relação que os dois constroem juntos é um dos casamentos mais raros na televisão atual, onde duas pessoas, que são distintas, genuinamente se amam e convivem bem. “Nós dois vínhamos de um lugar de entendimento das coisas que Taylor estava escrevendo”, comenta.

 

Russell é casado com Goldie Hawn há mais de 40 anos, enquanto Michelle Pfeiffer e David E. Kelley, há mais de 30, “foi divertido poder interpretar isso. É um mundo que conhecemos bem. Não é algo que você faz facilmente”.

 

Não é a primeira vez que os dois dividem a tela. Em 1988, estrelaram juntos Tequila Sunrise, ao lado de Mel Gibson. “Tivemos um ótimo tempo juntos, mas a filmagem em si foi difícil, especialmente para a Michelle pelo que o personagem dela vivia”, lembrou Russell.

 

Quase quatro décadas depois, o reencontro em cena foi natural. “Eu sabia que ela ia ser absolutamente fabulosa no papel. Ela está realmente ótima nessa série”. A amizade de anos dos dois atores ajudou a facilitar a dinâmica do casal da ficção.

 

Ao longo de décadas construindo personagens que gravitam longe da sua própria personalidade, Russell encontrou em Preston Clyburn algo diferente. “Nunca interpretei nenhum personagem tão próximo da minha própria vida e de quem eu sou”, reflete.

 

Preston é um executivo financeiro de Nova York que, sempre que pode, foge para a propriedade que divide com o irmão em Montana, onde pesca e desfruta da natureza, longe do barulho e dos luxos da cidade grande. A locação não é apenas um cenário, mas um personagem.

 

“Quando você está pescando e se concentra nisso, não consegue evitar. No fim do dia, você basicamente ficou refletindo sobre a própria vida. A terra e o rio alimentam a alma. E quando você é de Nova York e chega lá, isso te atinge de um jeito muito diferente”, comenta.

 

A vida entre a cidade e o campo é algo que o próprio ator conhece melhor do que qualquer roteiro poderia ensinar uma vez que ele divide o seu tempo entre a casa de Los Angeles e seu rancho no Colorado há 40 anos.

 

“Era uma vida que eu sempre desejei viver. Ou iria fazer isso, ou passaria o tempo todo falando disso”, reflete durante nossa ligação por vídeo, com a conexão fraca devido ao sinal de internet do rancho.

 

Assim como Preston, Russell também valoriza o presente. “Sempre vivi minha vida da forma como vivo. Para o hoje e olhando para o futuro. Não acho que seja conducente a uma vida feliz se você não olha para o futuro”, confessa, “o que acontece hoje vira passado. Se você aprender rápido com o que não deu certo, o passado já foi resolvido”.

 

E é essa a lição que ele leva de The Madison viver bem e viver o agora. A série é “sobre a vida de um ponto de vista muito, muito difícil. Mas mesmo nesses momentos há também coisas doces, até engraçadas. A vida é sobre tudo isso.”

 

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