Restaurantes transformam vinhos de marca própria em extensão de suas cozinhas

Casarìa oferece cinco rótulos chilenos elaborados pelo enólogo Pascal Marty. Fasano, Vista e outras casas também investem em garrafas exclusivas

O enólogo francês Pascal Marty (divulgação)
O enólogo francês que trabalhou no Château Mouton Rothschild, Opus One e Almaviva, hoje vive no Chile e produz seus rótulos na Viña Marty (foto: divulgação)

Por Celso Masson

 

Escolher os vinhos que entram em uma carta de restaurante exige conhecimento do público, da cozinha e da proposta da casa. Alguns restaurateurs vão além e colocam o próprio nome nas garrafas, desenvolvendo rótulos em parceria com enólogos e vinícolas. O resultado são vinhos pensados para acompanhar o cardápio e, ao mesmo tempo, prolongar a identidade do estabelecimento à mesa.

 

Uma iniciativa recente vem do Casarìa. O restaurante lançou cinco vinhos chilenos assinados pelo francês Pascal Marty, verdadeira lenda da enologia que trabalhou por décadas para a Baron Philippe de Rothschild, grupo proprietário do Château Mouton Rothschild. Marty participou do desenvolvimento da Opus One, parceria com Robert Mondavi no Vale do Napa, e, em 1997, assumiu a elaboração do Almaviva, projeto da família Rothschild com a chilena Concha y Toro. Em 2008, fundou sua própria empresa, a Viña Marty, no Vale Central do Chile, onde vive atualmente.

 

Os cinco rótulos do Casarìa feitos no Chile por Pascal Marty (divulgação)

Os cinco rótulos do Casarìa feitos no Chile por Pascal Marty (divulgação)

Para o Casarìa, o enólogo elaborou um rosé, dois brancos e dois tintos, todos vendidos ao preço de R$ 122. O Rosé 2024, feito com Syrah, tem aromas de framboesa, cereja e flores; o Sauvignon Blanc 2025 privilegia o frescor e as notas de pêssego, nectarina e frutas tropicais; e o Chardonnay 2024 combina aromas florais, amêndoas e discreto toque de confeitaria. Entre os tintos, o Cabernet Sauvignon 2023 apresenta frutas vermelhas e negras, alcaçuz, taninos maduros e boa acidez. Já o Carménère 2022  explora uma das variedades mais associadas ao Chile (e uva favorita de Marty), com frutas maduras, mirtilo, especiarias e taninos macios. Os cinco rótulos estão disponíveis nas unidades do Casarìa em São Paulo e Salvador (no Palacete Tirachapéu), além dos restaurantes Casa DaLi e Refúgio.

 

A Forneria San Paolo adotou a ideia quando vinhos de marca própria ainda eram pouco frequentes nos restaurantes brasileiros. Há cerca de 15 anos, uma importadora apresentou ao sócio-fundador Júlio Labate a possibilidade de criar um rótulo exclusivo na Toscana. Ele aprovou o vinho, visitou a propriedade italiana e acompanhou o processo de produção. O Forneria San Paolo Sangiovese (R$ 169) tem perfil seco, frutas vermelhas, especiarias e acidez marcante. “Na época, pouca gente fez essa escolha e nós assumimos o risco. Provei, gostei muito e resolvemos seguir em frente. Para nossa surpresa, a aceitação foi excelente e, ao longo desses anos, ele é o nosso campeão de vendas”, afirma Labate.

 

Assinatura Fasano em garrafas

 

Fasano Pinot Grigio (divulgação)

Fasano Pinot Grigio (divulgação)

O Grupo Fasano mantém uma seleção de vinhos próprios nas cartas de seus restaurantes. Entre eles está o Pinot Grigio Fasano, produzido pela Di Lenardo, vinícola fundada em 1878 no Friuli. A região do nordeste italiano, situada entre os Alpes e o Mar Adriático, reúne condições especialmente favoráveis às variedades brancas. O rótulo apresenta frutas amarelas, notas florais e acidez pronunciada. O Prosecco Fasano Millesimato DOCG é elaborado pela De Faveri em Valdobbiadene, no Vêneto, território reconhecido pela produção de espumantes com a uva Glera. Há ainda o Chianti Fasano, feito pela Poggiotondo, na Toscana, e espumantes brasileiros da linha Selezione Fasano, produzidos por Adolfo Lona. Os rótulos aparecem nas cartas de diferentes endereços do grupo, inclusive em versões servidas em taça.

 

Leia mais:

 

Homenagem de pai para filha

 

Em Goiânia, o Íz Restaurante, do chef Ian Baiocchi, mantém dois rótulos próprios. O Demi Sui Malbec Pinot Noir (R$ 297), lançado em 2025, é produzido pela Gen del Alma, no Valle de Uco, em Mendoza. A cofermentação das duas uvas resulta em um tinto sedoso e versátil, concebido para acompanhar diferentes pratos da casa. O segundo é o Anita Rosato (R$ 297), criado com a vinícola brasileira ArteViva. Lançado em 2026, o vinho homenageia Anita, filha de Baiocchi, nascida neste ano. Tem perfil fresco, com notas florais e de frutas vermelhas. Os rótulos reforçam uma escolha já presente na carta organizada pelo sommelier Diego Arrebola: cerca de 60% de suas referências são brasileiras, provenientes de nove estados e de produtores de diferentes portes.

 

Anita Rosato, feito pela vinícola ArteVIva para o Íz Restaurante, em Goiânia (divulgação)

Anita Rosato, feito pela vinícola ArteVIva para o Íz Restaurante, em Goiânia (divulgação)

Também elaborados pela Arte Viva são dois dos vinhos “da casa” servidos no Restaurante Vista Ibirapuera, no rooftop do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em São Paulo. A vinícola gaúcha criada pelo enólogo Giovanni Ferrari já elaborava o delicado branco Vista ArteViva Pinot Grigio (R$ 165) e um bastante versátil corte de Marselan e Chardonnay (R$ 180), ambos com uvas do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves (RS). Dada a boa aceitação dos rótulos, o Vista passou a vender três versões do Kit ArteViva, com preços especiais para a quem leva duas garrafas.  Mais recentemente, a ArteViva foi convidada para assinar o Vista 7 anos, em comemoração ao aniversário do restaurante. E nada mais apropriado que combinar sete uvas. São elas Merlot, Cabernet Franc, Tannat, Syrah, Marselan, Malbec e Petit Verdot, colidas na Campanha e na Serra Gaúcha.

 

Vinhos de altitude na Serra Fluminense

 

Famoso por atrair apreciadores de vinhos em seus restaurantes e pousadas, o Grupo Locanda possui uma ampla linha de produtos próprios que inclui pães, massas, geleias, cervejas e, claro, vinhos e espumantes. Os rótulos Sauvignon Blanc, Merlot e Cabernet Sauvignon (R$ 149 cada) são produzidos pela Hiragami em São Joaquim, na Serra Catarinense, a 1.430 metros de altitude. Também catarinense, o 5 Vignas 2020 (R$ 300) vem da Vinícola Suzin. Os espumantes Locanda, por sua vez, são elaborados com uvas da Serra Gaúcha e da Campanha, com vinificação, guarda e finalização sob responsabilidade de Adolfo Lona em Porto Alegre. “Buscamos rótulos que traduzissem a essência da Locanda: autenticidade, elegância e atenção aos detalhes”, diz Luiz Fernando Gomes, sócio-proprietário do grupo.

 

Espumantes do Grupo Locanda (divulgação)

Espumantes do Grupo Locanda (divulgação)

Um Chardonnay diante do Arpoador

 

No arp bar, restaurante do Hotel Arpoador, o rótulo próprio é brasileiro e foi concebido para acompanhar a cozinha e a atmosfera à beira-mar. O Arp Chardonnay é produzido pela Guatambu com uvas da Campanha Gaúcha e vendido a R$ 35 a taça ou R$ 149 a garrafa. O vinho apresenta aromas de maçã verde, melão, abacaxi, frutas cítricas e flor de laranjeira. Um breve estágio em carvalho acrescenta textura e uma nota de baunilha. Pode acompanhar carnes brancas, massas e risotos — ou simplesmente ocupar a mesa durante o pôr do sol no Arpoador.