Nos bastidores: saiba como são produzidos os grãos de cafés especiais no sul de Minas
Com uma operação completa, do plantio do grão à torrefação, a Fazenda Sertãozinho, da Orfeu, é referência na produção de Cafés Especiais

Por André Sollitto
É o final do período de colheita do café no sul de Minas Gerais. Muitos dos cafeeiros já estão sem frutos, mas em alguns setores da fazenda os frutos alcançaram o ponto ideal de maturação agora. Ao longe, é possível ouvir o barulho dos derriçadores, máquinas que vibram para fazer com que os grãos se soltem dos galhos, à medida que os funcionários avançam em cada talhão da fazenda.
A convite de Orfeu, a reportagem de Versatille viajou para Botelhos, no sul de Minas Gerais, para conhecer a Fazenda Sertãozinho, a maior do grupo, onde são produzidos os cafés especiais da marca. Hoje, a empresa tem mais de 800 hectares de plantação de café, divididos em quatro fazendas da região. Também começou uma iniciativa de certificação de produtores parceiros da região, que fornecem grãos para a marca.
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A colheita é a primeira depois que a Orfeu recebeu um reconhecimento importante. Em abril, a marca foi reconhecida como Legends of Excellence, mais alta chancela da cafeicultura mundial, dada pela Alliance for Coffee Excellence (ACE). A Orfeu é a segunda marca brasileira a obter tal reconhecimento. No ano passado, Luiz Paulo Pereira, da Fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas, recebeu o título, junto com outros cinco produtores internacionais. O prêmio é uma forma de reconhecer a consistência da marca, que já foi finalista de 31 edições do Cup of Excellence, evento que premia os melhores cafés de cada ano.
Ao pé do cafeeiro, Lucas Franco, responsável pela Fazenda Sertãozinho, fala sobre o terroir da região. “A altitude e o solo são os principais fatores. Nosso solo é bastante pedregoso, de origem vulcânica, com muitos nutrientes, e pouca umidade. A altitude, de cerca de mil metros, ajuda a garantir condições ideais: dias com calor, mesmo no inverno, e noites mais frias, importantes para que a planta assimile os nutrientes.

Grãos de café da Orfeu (DIvulgação)
Após a colheita, o café segue para a secagem. Fica sob o sol durante alguns dias até estar pronto para seguir rumo ao beneficiamento. Ao longo dessa etapa, os grãos são selecionados para manter um padrão de qualidade. Máquinas conseguem identificar qualquer variação em cor, tamanho e formato que podem comprometer o resultado final.
Depois, o café segue para a torrefação, última etapa antes de ser empacotado. Nas máquinas, o processo é quase totalmente automático. Em um visor, o mestre da torrefação determina o tipo de torra e o tempo que o grão ficará no torrefador. Mas em meio a tanta mecanização, ainda é a expertise humana que dá a palavra final sobre o ponto exato. Por meio dos aromas, do visual e até do som, o mestre de torra sabe exatamente o momento em que o café está pronto e pode seguir para ser empacotado em grãos ou moído para ser usado em cápsulas ou no formato drip coffee. “A tecnologia nos ajuda muito a aprimorar nosso controle e o gerenciamento da nossa produção, mas há uma ação muito importante do ser humano nessa etapa, já que a torra envolve não apenas mudanças fisico-químicas, mas também sensoriais”, afirma Gustavo Marques, diretor de operações industriais e logísticas.
A marca surgiu em 2005, antes da criação da nomenclatura de cafés especiais. Fundada por Roberto Irineu Marinho e sua esposa, Karen, com a proposta de oferecer grãos de qualidade mais alta, a Orfeu foi ganhando corpo à medida que o próprio mercado foi amadurecendo e passando a valorizar cafés de qualidade superior – que antes eram enviados para fora do país.
O portfólio também foi crescendo. Além do café clássico e intenso, há opções orgânicas e descafeinadas. Mais recentemente, a marca lançou uma linha de variedades, com cinco variedades: Arara, Acauã, Bourbon Amarelo, Catucaí e Japy. Há ainda edições limitadas, com microlotes premiados. A Orfeu também foi pioneira ao lançar a Confraria, um clube de assinaturas de microlotes especiais. A ideia surgiu como forma de destacar alguns dos cafés com características únicas que são produzidos nas fazendas em pequenas quantidades. A assinatura mensal custa R$ 124 e é a única forma de provar algumas das variedades menos conhecidas que a marca cultiva.
Nos últimos anos, a Orfeu passou a trabalhar com outro produto: azeite. Em outra fazenda do grupo, localizada em Pocos de Caldas, exatamente na divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais, a produção de cafés divide espaço com oliveiras. A altitude na Fazenda Rainha é maior que em Sertãozinho, chegando a mais de 1.500 metros. É lá que estão os cafés da variedade geisha, rara, delicada e responsável por algumas das principais premiações recebidas pela marca. E onde estão as oliveiras que produzem os frutos usados tanto no blend da safra, principal azeite lançado pela Orfeu, quanto nos rótulos da coleção de varietais, hoje com quatro opções: picual, koroneiki, arbosana e arbequina.
Embora a nova frente de negócios seja pequena em comparação com os cafés especiais, o mercado de azeites representa grande potencial, já que os rótulos também têm valor agregado maior. E a Orfeu quer se tornar referência também no segmento dos azeites especiais.
