A outra Lacoste: o vilarejo do “escândalo” virou polo de arte

Povoado provençal onde o Marquês de Sade promoveu “experimentos libertinos” é exemplo de restauração arquitetônica e polo cultural, com festivais de moda e cinema

Lacoste chateau e horizonte
No verão provençal, turistas e locais se encontram em meio aos ateliês e galerias de arte (Fotos: Divulgação)

Por Miriam Spritzer

 

Quando se fala em Lacoste, é inevitável que venha à mente a grife de roupas esportivas criada pelo tenista René Lacoste, conhecido na década de 1930 como “crocodilo”, e que imortalizou a camiseta polo com seu emblema estampado na altura do peito. Pois muitos séculos antes de conquistar fama no vestuário, Lacoste já dava nome a um vilarejo provençal localizado na região francesa de Luberon. A cidade, cercada por belos campos de lavanda, é hoje um dos pontos centrais da vida cultural da Provence. Recebe anualmente exposições de moda e festivais de cinema e televisão frequentados por celebridades. Mais que isso, é um exemplo bem-sucedido de restauração do patrimônio histórico.

 

Apesar da coincidência do nome, o vilarejo não tem relação alguma com a marca de roupas. No entanto, foi graças a um grande ícone da alta costura, junto a uma universidade norte-americana – e, de certa forma, a um escandaloso membro da nobreza da França que o vilarejo se transformou em um ponto turístico obrigatório.

 

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Ruas de Lacoste

Lojinha de arte em Lacoste, vilarejo francês que teve ajuda do lendário estilista Pierre Cardin

Parece confuso, mas tudo fará sentido ao término deste texto. A rica história de Lacoste remonta à era paleolítica, da qual datam os primeiros registros da ocupação humana. Ao longo dos séculos, o local atraiu as civilizações celta e romana. Mas foi apenas no século IX que começou o verdadeiro desenvolvimento da região. Foi quando surgiram as primeiras construções medievais ao redor da colina.

 

Quem hoje passeia pelas ruas charmosas, pontuadas por lojinhas descoladas, galerias e museus de arte, mal pode supor que há menos de 30 anos tudo estava em ruínas, com as construções tomadas pela vegetação.

 

Ainda que tenha se tornado um próspero povoado provençal durante a Idade Média e renascença, a notoriedade de Lacoste só viria no século XVIII – e como cenário de um dos maiores escândalos da França. Lacoste foi a principal residência do infame Marquês de Sade, sobrenome do qual deriva o termo sadismo. Logo que se mudou para o Château Lacoste, no topo da montanha, o nobre mandou construir um teatro privado, onde recebia convidados para festas, noites de jogatina, performances e “experimentos libertinos”.

 

A má fama do marquês custou caro ao vilarejo. Em 1779, os habitantes, fartos dos escândalos, invadiram e destruíram parcialmente o castelo. Posteriormente, partes de suas ruínas foram reaproveitadas em novas construções. Este talvez tenha sido o primeiro marco de um declínio lento e gradual que teve seu ápice com as crises econômicas no período das Grandes Guerras Mundiais, quando famílias abandonaram suas casas centenárias em busca de regiões mais prósperas.

 

O pintor americano Bernard Pfriem conheceu lacoste nos anos 1950. Duas décadas depois, ele fundaria a Lacoste School of the Arts, criando um movimento de artistas rumo ao vilarejo

 

No pós-guerra, Lacoste se tornou uma deteriorada cidade fantasma. Mesmo assim, sua beleza atraiu o pintor americano Bernard Pfriem, que a conheceu nos anos 1950. Duas décadas depois, ele fundaria a Lacoste School of the Arts, criando um certo movimento de artistas rumo ao vilarejo. Porém, a escola também encontrou dificuldades para se manter.

 

No começo dos anos 2000, o vilarejo precisava de ajuda para sobreviver. Entre as várias possibilidades de sucessão, surgiu um nome improvável: a Savannah College of Art and Design (SCAD), uma universidade americana especializada em áreas criativas. A escola já acumulava um sólido histórico em restauração urbana, pois praticamente revitalizou o centro de Savannah, cidade do estado da Geórgia onde funciona o principal campus da SCAD.

 

Nascia um projeto ambicioso: restaurar as mais de 30 estruturas medievais de Lacoste e transformá-las em salas de aula, ateliês, residências estudantis e espaços culturais – tudo mantendo a autenticidade arquitetônica original. Com a autorização do governo, em 2002 a SCAD comprou praticamente o vilarejo inteiro. E a transformação foi de tirar o fôlego.

 

Lacoste Studio

Galerias como esta tornam Lacoste um polo cultural da Provence

Do lado externo das construções, a sensação é de voltar no tempo. Da porta para dentro, aproveitam os espaços com o que há de mais moderno e tecnológico. A antiga padaria, um dos principais pontos da cidade, se tornou uma biblioteca. As Olivier Caves (cavernas medievais escavadas na rocha) foram convertidas em estúdios e ateliês de artistas. Até mesmo a Maison Basse, onde aconteciam os jogos de azar do Marquês de Sade, se tornou parte do campus. Além das salas de aula, há acomodações para receber convidados especiais.

 

Curiosamente, o Château e alguns outros espaços foram comprados por outro personagem inusitado: o lendário estilista francês Pierre Cardin. Ele transformou as ruínas do castelo em um centro cultural, com um pequeno museu em memória do marquês e espaços para exposições de arte e performances de ópera e dança, ou até filmes a céu aberto durante os meses de verão.

 

A programação de eventos culturais da SCAD em Lacoste está em movimento constante. Uma semana você pode encontrar uma mostra de esculturas contemporâneas na praça principal; na seguinte, uma instalação de arte digital nas caves subterrâneas. No entanto, vale destacar as exposições de moda anuais que trouxeram ao vilarejo nomes como Jean-Paul Gaultier, Christian Lacroix e a marca Christian Dior.

 

festival de verão em Lacoste

Ao ar livre, o SCAD Festival de Cinema de Lacoste é uma experiência única do verão

O SCAD Festival de Cinema de Lacoste, apesar de estar fora do circuito principal, é uma experiência única do verão provençal, onde turistas e locais se encontram para assistir alguns dos principais lançamentos do ano ou rever algum clássico. O detalhe é que as sessões principais são sob as estrelas, com a vista de um vilarejo medieval. E ainda há a chance de você encontrar sua celebridade ou cineasta favorito. De fato essa colaboração informal entre a escola e o estilista reinventou o vilarejo. A parceria era tão forte entre as duas entidades que Pierre Cardin deu prioridade à universidade para comprar suas propriedades em Lacoste após o seu falecimento.

 

E mesmo que alguns franceses reclamem da presença tão forte de uma universidade americana na região, é inegável o impacto positivo, que também se nota na criação de empregos para a população local. Isso sem contar o aumento do turismo nos arredores do vilarejo. A apenas alguns quilômetros de Lacoste, os povoados de Gordes, Ménerbes, Bonnieux, Goult e Roussillon, acabam recebendo visitantes do mundo todo. Cada um com a sua peculiaridade, de mercados que encantam e divertem qualquer visitante a restaurantes premiados. Há ainda o turismo esportivo ou de natureza – afinal, Luberon é uma das regiões mais deslumbrantes da França, com suas paisagens montanhosas, campos de lavanda, oliveiras, cerejeiras e, claro, alguns dos melhores vinhedos do mundo.