Super Serrano: produtor gaúcho cria vinho inspirado nos Super Toscanos

Depois de homenagear o Château Lafite em um corte bordalês que usou as mesmas barricas do Premier Grand Cru Classé de Paulliac, Fernando Weber se volta para o vinho italiano Tignanello

vinícola República Missiones
República Missiones: boutique de vinhos trabalha apenas com pequenos lotes (Divulgação)

Por Celso Masson

 

Primeira Denominação de Origem para vinhos finos do Brasil, o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, construiu sua reputação em torno da uva Merlot, que se adaptou perfeitamente ao terroir e tem garantido rótulos de excelência aos produtores locais desde o final da década de 1990. A variedade Merlot é uma das principais componentes do Corte Bordalês, característico da região de Bordeaux, na França. Embora hoje sejam toleradas até castas estrangeiras no Corte Bordalês, como a portuguesa Touriga Nacional, ainda predominam as uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, ao lado da Merlot.

 

A alta qualidade dessa variedade no Vale dos Vinhedos é a base da matéria-prima utilizada pelo produtor Fernando Weber, dono da pequena vinícola República Missiones, uma boutique de vinhos que trabalha apenas com pequenos lotes e sempre pautada pela excelência. “Nossos vinhos serão somente lançados em safras excepcionais e em edições limitadas”, diz Weber. “Utilizamos o melhor da tecnologia na elaboração, do mosto a barris de carvalho de primeiro uso e rolhas de cortiças selecionadas”, completa.

 

O produtor Fernando Weber, donbo da República Missiones, no Vale dos Vinhedos

O produtor Fernando Weber, dono da República Missiones, no Vale dos Vinhedos (Divulgação)

Apaixonado por grandes vinhos franceses e italianos, ele aplicou seu conhecimento para criar rótulos que emulam alguns dos maiores nomes globais. Foi assim que nasceu o Corte Bordalês 2020 (R$ 360). Elaborado na melhor safra da história do Brasil (a “safra das safras”) e inspirado no Château Lafite, o vinho foi pautado pelo perfeccionismo.

 

“A ideia foi costurar as uvas das três variedades nas mesmas proporções de uma supersafra de Lafite”, afirma Weber. Até as madeiras utilizadas nas barricas pelas quais o líquido repousou por 14 meses foram adquiridas nas mesmas florestas de que fornecem carvalho para o Château Lafite. O resultado? Um vinho rico e concentrado, de grande complexidade e sedosidade.

 

Após o sucesso do Corte Bordalês 2020, Weber voltou seu olhar para a Toscana. Agora, a proposta foi reinterpretar, à moda brasileira, um movimento iniciado na Itália na década de 1970 e que desde então gerou alguns dos maiores vinhos daquele país, os Super Toscanos. “São vinhos que desafiaram as regras tradicionais de denominação de origem ao priorizar liberdade criativa e qualidade acima das convenções locais”, diz Weber. Ao seguir um caminho semelhante, ele criou uma nova categoria, que batizou como Super Serrano.

 

O primeiro exemplar dessa nova categoria recebeu o nome de El Payador 2022. Desta vez, Weber aumentou a participação de Cabernet Franc, reduziu Cabernet Sauvignon e prolongou o estágio em carvalho para aproximar o perfil do vinho ao Tignanello, da família Antinori, um dos marcos históricos dos Super Toscanos.

 

O vinho amadureceu por 18 meses em barricas de carvalho. Exibe coloração rubi profunda com reflexos granada e aromas de frutas negras, cassis, especiarias finas, tabaco e cedro. Em boca, revela estrutura encorpada, concentração e taninos sedosos, sustentados por um final persistente.

 

A proposta da República Missiones parte da convicção de que determinadas áreas da Serra Gaúcha possuem semelhanças climáticas e de solo com regiões clássicas europeias. Weber cita referências como Pauillac, Saint-Émilion e partes da Borgonha para justificar a afinidade de estilo. “São vinhos com uma pegada mais terrosa, que permitem explorar bastante o terroir”, disse.

 

Branco da Borgonha

 

A mesma lógica aparece no Castelhana Chardonnay Extra Barricado 2022, branco inspirado nos grandes Montrachet da Borgonha. O rótulo foi concebido a partir de Chardonnay maturado em barricas escolhidas segundo as mesmas origens florestais usadas nos grandes brancos borgonheses.

 

O vinho apresenta coloração amarelo-dourada intensa e aromas de frutas amarelas maduras, como damasco e physalis, além de notas de amêndoas e baunilha provenientes do estágio em carvalho. Em boca, combina textura cremosa, densidade e frescor, com final longo e elegante. O potencial de guarda estimado é de 12 anos.

 

A estratégia da República Missiones não busca reproduzir literalmente os grandes vinhos europeus, mas reinterpretar suas referências a partir da identidade serrana. Ao lançar a categoria Super Serrano, Fernando Weber tenta posicionar a Serra Gaúcha em um território menos preso às convenções tradicionais e mais aberto à assinatura autoral de seus produtores.

 

Fichas técnicas

 

EL PAYADOR SUPER SERRANO 2022

VISUAL: Coloração rubi profunda e concentrada, com reflexos em tom granada.
AROMAS: Frutas negras e cassis, com notas de especiarias finas, tabaco e cedro, adquiridas na maturação de 18 em carvalho.
PALADAR: Encorpado e concentrado, com taninos finos e sedosos que revelam grande complexidade de frutas negras.
TEOR ALCOÓLICO: 14%

 

 

CASTELHANA CHARDONNAY EXTRA BARRICADO 2022

VISUAL: Coloração amarelo-dourado, límpido e de brilho intenso.
AROMAS: Frutas amarelas, como damasco e physalis, com notas elegantes de amêndoas e baunilha, vindas dos 15 meses em barrica.
PALADAR: Em boca notas de damasco, physalis e amêndoas.
TEOR ALCOÓLICO: 14%