Yves Saint Laurent: de Paris a Marrakech
Paris o consagrou. É lá que manteve o seu QG produtivo, seu ateliê e a sua gigantesca coleção pessoal, apresentada ao público em mostras temporárias ao redor do mundo e no atual museu da Fundação

Paris o consagrou. É lá que manteve o seu QG produtivo, seu ateliê e a sua gigantesca coleção pessoal, apresentada ao público em mostras temporárias ao redor do mundo e no atual museu da Fundação Pierre-Bergé-Yves Saint Laurent, desde 2004. Cinco mil peças de alta-costura, 15 mil acessórios e dezenas de milhares de croquis e fotografias formam o acervo pessoal do criador, hoje conservados na Fundação. Um patrimônio riquíssimo, que abrange looks revolucionários e alguns “polêmicos” da história da moda, que será exposto nos dois novos museus dedicados ao couturier. Como não lembrar — para mencionar algumas — da ousada coleção Mondrian, do inverno de 1965; da coleção Pop Art e do primeiro smoking, de 1966; ou do escândalo com a provocante coleção 40, de 1971.
O museu parisiense será instalado na Avenue Marceau, 5, no 16e arrondissement, local da maison de couture histórica de Yves, de 1974 a 2002. Os antigos salões de alta-costura e o studio de Saint Laurent integrarão o percurso — que “visa envolver o público no processo criativo da Maison”. O espaço promete deslumbrar os visitantes, graças ao trabalho da cenógrafa Nathalie Crinière e do decorador Jacques Grange, encarregados de traduzir a ambiência original da Maison de haute-couture.
Mas, sem dúvida, Marrakech, o lugar escolhido para o segundo museu e adotado por Saint Laurent como um “exílio” nos anos 1960, manteve um papel fundamental para o crescimento de sua arte e impulsionou a sua explosão criativa. “Antes de Marrakech, eu não fazia nada, além de preto e branco”, declarou Yves, mais tarde. A “Cidade Vermelha”, como é conhecida, transformou-se não apenas num refúgio de paz, mas no local para criar, onde o estilista se instalava, pelo menos 15 dias, duas vezes ao ano, para elaborar as coleções. Marrakech é, simplesmente, assim! Basta uma visita para se apaixonar!
2017 SERÁ O ANO DE SAINT LAURENT. A ABERTURA DE DOIS NOVOS MUSEUS, EM PARIS E MARRAKECH, EM OUTUBRO, CELEBRARÁ O CONJUNTO DA OBRA DO ESTILISTA, QUE NASCEU EM ORAN, NA ARGÉLIA, E NUNCA ESQUECEU AS SUAS RAÍZES AFRICANAS, ELEGENDO A ÁFRICA — LEIA-SE MARROCOS — COMO UM OÁSIS DE CRIAÇÃO.
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Em 1943, W. Churchill disse a Franklin Roosevelt: “É o lugar mais encantador do mundo”. A partir de então, a cidade tornou-se hip, atingindo o seu auge nos “sixties”, quando a primeira onda de artistas e boêmios aventurou-se no Marrakech Express, incluindo Yves Saint Laurent e Pierre Bergé, seu companheiro inseparável. Em 1966, apenas dez dias após estarem no Marrocos, compraram a primeira casa: Dar El Hanch (Casa da Serpente). “Quando Yves Saint Laurent descobriu Marrakech, em 1966, ficou tão comovido com o lugar que decidiu comprar uma casa e voltar lá regularmente. Parece perfeitamente natural, 50 anos depois, construir um museu dedicado à sua obra, tão inspirada por esse país. Quanto a Paris, quem precisa especificar que é onde Yves Saint Laurent criou todo o seu trabalho e construiu sua carreira?”, Pierre Bergé, presidente da Fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent.
O impacto da África logo foi sentido e traduzido na peça ícone de Saint Laurent, a saharienne, vestimenta militar super-sexy, usada em batalhas e expedições na savana subsaariana, totalmente up-to-date, e imortalizada pela modelo star da década, Veruschka. E, ainda, em toda a lendária coleção primavera-verão dos vestidos bambara, de 1967, que abalaram os padrões da alta-costura. Pela primeira vez, a ráfia e o linho são bordados com contas de madeira e vidro. Foi, portanto, nessa primeira casa que surgiram as cores nas coleções de Saint Laurent e, também, as capas, os djellabas, os sarouels. Mais tarde, o casal ainda compraria e revitalizaria a famosa Villa Oasis — casa do pintor Jacques Majorelle.
O Museu Yves Saint Laurent, em Marrakech, ficará na Rue Yves Saint Laurent, próximo ao Jardim Majorelle, um reconhecimento para a cidade que o acolheu. A concepção do megamuseu, com mais de 4 mil metros quadrados está sob os cuidados do Escritório de Arquitetura Studio KO e permitirá à Fundação, que conserva mais de 40 anos de criação do estilista (1962-2002), expor uma parte de seu trabalho. Precursor, Saint Laurent é o único costureiro da sua geração que arquivou toda a sua produção.
O centro cultural abrigará uma coleção permanente de suas peças, um auditório, salas de exposições temporárias, uma biblioteca para pesquisa e um café-restaurante. Uma verdadeira homenagem à “Cidade Vermelha”, descoberta pelo criador em 1966, e onde passou longas temporadas. Certamente, para quem curte os ícones da alta-costura, há dois ótimos motivos para marcar aquela viagem a Paris e fazer ponte para Marrakech, um oásis aos pés do deserto, com atmosfera redobrada de paraíso cultural! Fica a dica!
HAUTE COUTURE por Giselle Padoin Curadora e Pesquisadora de Moda | Matéria publicada na edição 97 da Revista Versatille



