Ronaldo Fraga conta histórias de Milton Nascimento e de muitos Brasis na passarela
De volta à SPFW, o estilista responsável pelo figurino da última turnê do cantor o homenageia com música, bordado e poesia

Foi há seis anos que o estilista mineiro Ronaldo Fraga apresentou sua última coleção na passarela da SPFW. O criativo é um veterano da moda e conhecido por desfiles grandiosos, lúdicos e que contam histórias sobre o Brasil, o seu povo e sua poesia. Em seu retorno ao evento, na noite da última segunda (13), Ronaldo mostrou que este olhar continua aguçado.
Foi no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que a coleção Minas-Nascimento, uma homenagem ao cantor, compositor e conterrâneo Milton Nascimento, foi apresentada. O artista é seu grande ídolo da Música Popular Brasileira e, para ele, Ronaldo criou o figurino de A Última Sessão de Música, turnê final que lotou estádios pelo país em 2022. Daí surgiu a vontade de bolar uma coleção inspirada em Nascimento e desfilá-la na SPFW.
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Em alusão à infância do ídolo em Três Pontas (MG), meninos negros cruzaram a passarela com asas de anjinho de papelão. No chão, o desenho do trilho de um trem. Modelos adultos, na sequência, apareceram não com asas de papelão, mas com luzes de led na cabeça – talvez, aqui, uma alusão à passagem e transformação do tempo.

Foto: reprodução spfw.com.br / Zé Takahashi Agência Fotosite
As roupas exploram o caráter manual pelo qual Ronaldo Fraga é conhecido, com bordados e crochês com elementos que remetem à natureza (pássaros, flores, rios e o sol), ao tempo (relógios) e à poesia (a frase “Todo dia é dia de viver”). O clima é onírico, as vestes frequentemente lembram túnicas cerimoniais.

Foto: reprodução spfw.com.br / Zé Takahashi Agência Fotosite
A silhueta, em grande parte, é comprida, com maxivestidos, blusas com saias de cintura alta – às vezes com aplicação de peplum – e mangas volumosas. Pontos de transparência trazem, aqui e ali, leveza ao fluxo poético da passarela. Há também jeans, assim como alfaiataria e gravata borboleta, referências a quando Milton Nascimento trabalhou em bares nos anos 1950.
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A junção do local – o Museu da Língua Portuguesa – à trilha sonora com clássicos de Nascimento e às referências à natureza e à poesia sustentaram a atmosfera sonhadora clássica de Ronaldo Fraga. Especialmente nos tempos atuais, este clima pode fazer falta em uma grande e corrida semana de moda como a SPFW.
É um respiro, como sentar e ouvir a história de alguém querido. Talvez seja até escapista, mas não no sentido de alienação ou indiferença pelo qual esse termo é cada vez mais conhecido. Afinal, os contos de Ronaldo Fraga são sempre sobre a força, o brilho e o sonho da gente brasileira
Por Thiago Andrill



