Renata Kuerten: a voz do luxo silencioso
Coube à revista Versatille a honra de publicar a centésima capa de Renata Kuerten. Em uma carreira de mais de 20 anos como modelo e apresentadora, ela transforma a própria trajetória em linguagem

Por Celso Masson
Há um momento – quase imperceptível – em que o luxo deixa de ser visto e passa a ser sentido. Durante décadas, ele foi uma superfície: brilho, excesso, inacessibilidade. Um código reconhecível à distância. Hoje, o luxo fala menos e em um tom mais suave. Migra para territórios sutis, onde não se anuncia, apenas se revela. Tempo, silêncio, escolha. Renata Kuerten chegou a esse lugar. E talvez aí esteja o verdadeiro sentido de sua 100ª capa – exatamente para a revista Versatille: não uma celebração da imagem, mas da consciência sobre ela.
Cem capas não se conquistam à toa. Renata construiu esse status superando o caminho previsível em tantas histórias bem-sucedidas da moda brasileira: descoberta precoce, ascensão rápida, Europa como rito de passagem. Aos 15 anos, saiu de Braço do Norte, em Santa Catarina, para um circuito que transforma meninas em símbolos visuais. Paris, Milão… cenários que, por muito tempo, definiram o luxo como espetáculo.

Renata Kuerten: equilíbrio (Foto: Henrique Tarricone)
“A elegância é recusa”, escreveu Coco Chanel. Recusa do excesso, do óbvio, do ruído. É uma frase que poderia servir de chave de letura para a trajetória de Renata Kuerten. Se houve algo que ela não aprendeu nas passarelas se sim na vida foi a capacidade de editar a própria narrativa. Ao contrário de tantas carreiras que se esgotam na imagem, a dela foi se depurando.
A televisão foi o primeiro movimento de tradução. Ao migrar das campanhas para o papel de apresentadora, por volta de 2015, ela não abandonou a moda, mas fez desse mundo uma nova passarela. No Esquadrão da Moda, programa que hoje apresenta ao lado de Dudu Bertolini, há um deslocamento importante: a roupa deixa de ser centro e passa a ser meio. O que se trabalha ali não é apenas estilo, mas identidade. Em vez de impor códigos, Renata os interpreta. Escuta antes de sugerir. Ajusta antes de transformar. Há um entendimento implícito de que vestir-se bem não é aderir a um padrão, mas alinhar forma e intenção.
A maternidade me ensinou a repensar muitos aspectos da minha vida. Precisei desaprender a pressa, a cobrança excessiva e a ideia de que posso controlar tudo. Aprendi a organizar melhor meus compromissos para valorizar os pequenos momentos com a família e viver com mais presença.
É um gesto discreto, profundamente contemporâneo. Se a televisão ampliou sua voz, foi fora dela que Renata encontrou sua frequência mais pessoal. Nos últimos anos, seu conteúdo digital abandonou o excesso de produção para se aproximar do cotidiano. Cozinhar, organizar a rotina, dividir momentos com a filha. Nada que, à primeira vista, pareça extraordinário. E, no entanto, talvez seja aí que reside o novo luxo.
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O filósofo francês Gilles Lipovetsky, que há décadas analisa o consumo e suas mutações, escreveu: “O luxo não é mais o que distingue, mas o que faz sentido”. A frase ilumina um deslocamento silencioso: do status para a experiência. Silêncio em vez de ruído. Presença em vez de performance. Renata opera nesse registro.

“Precisei desaprender a pressa” (Foto: Henrique Tarricone)
Seu corpo é expressão de equilíbrio. Não há mais a rigidez de um ideal externo, mas a construção de uma rotina possível. Exercício, alimentação, descanso. Três palavras que, repetidas à exaustão pelo discurso do bem-estar, ganham outra densidade quando atravessadas pela vida real. Não se trata de perfeição. Trata-se de continuidade. E continuidade, no mundo contemporâneo, é uma forma sofisticada de disciplina.
Em uma palavra: equilíbrio. Chegar à 100ª capa, nesse contexto, não é apenas acumular imagens. É construir coerência. Renata não rompeu com suas versões anteriores – ela as integrou. A modelo internacional ainda está ali, mas agora conversa com a apresentadora. A apresentadora dialoga com a mãe. A mãe, com a mulher que busca equilíbrio em meio ao excesso de estímulos.
Esse tipo de construção é raro porque exige tempo – e tempo, hoje, é talvez o mais escasso dos luxos. Provas disso estão na conversa com Renata, que revela na entrevista a seguir o prazer de atitudes simples, como dedicar mais tempo aos pequenos momentos com a família e de cozinhar com a filha Lorena.
“É incrível ver como a moda pode ser uma ferramenta de transformação, permitindo que elas se sintam mais seguras e empoderadas. Acredito que isso traduz a mulher de forma autêntica: forte, resiliente, cheia de personalidade e capaz de inspirar outras mulheres ao seu redor.”
VERSATILLE: Entre maternidade, trabalho e autocuidado, o que você precisou desaprender – ou reinventar – para encontrar equilíbrio e serenidade?
Renata Kuerten: A maternidade me ensinou a repensar muitos aspectos da minha vida. Precisei desaprender a pressa, a cobrança excessiva e a ideia de que posso controlar tudo, e aprendi a organizar melhor meus compromissos para valorizar os pequenos momentos com a família e viver com mais presença.

“É incrível ver como a moda pode ser uma ferramenta de transformação” (Foto: Henrique Tarricone)
V: Esse é um exercício constante?
RK: É um exercício constante de adaptação: equilibrar trabalho, autocuidado e tempo com a Lorena exige paciência, planejamento e, acima de tudo, amor. Cada dia traz um novo aprendizado, e esse processo me tornou mais calma, resiliente e conectada comigo mesma e com minha família.
V: O programa Esquadrão da Moda ganhou uma abordagem mais emocional nos últimos anos. Como essa linguagem dialoga com o seu momento atual e de que forma isso traduz a cara da mulher brasileira?
RK: Eu valorizo muito conexões reais e experiências que transformam vidas. No Esquadrão da Moda, acompanhamos mulheres se redescobrindo, recuperando a autoestima e encontrando confiança para expressar quem realmente são. É incrível ver como a moda pode ser uma ferramenta de transformação, permitindo que elas se sintam mais seguras e empoderadas. Acredito que isso traduz a mulher de forma autêntica: forte, resiliente, cheia de personalidade e capaz de inspirar outras mulheres ao seu redor. É emocionante fazer parte de um projeto que vai além do visual e ajuda as pessoas a se conectarem consigo mesmas, celebrando a diversidade e a singularidade de cada história.
V: Em mais de 20 anos desde que despontou como modelo, você construiu uma carreira sólida na moda e na TV. Agora, pode ser vista no Youtube, cozinhando receitas saudáveis ao lado da filha Lorena, de três
aninhos. O que motivou essa escolha?
RK: Sou uma pessoa muito ligada à família, e esses momentos com a Lorena representam tudo para mim. Sempre compartilhei nas redes sociais o meu cotidiano, incluindo família, fitness e dia a dia, e retomei os quadros de receitas porque é algo que realmente gosto de fazer em casa. Além de práticas e rápidas, são receitas saudáveis que posso incluir na alimentação da Lorena, e ela adora experimentar coisas novas. Também é uma oportunidade de compartilhar dicas práticas para mães que também têm uma rotina corrida e sabem que pensar no lanche do dia a dia pode ser um desafio.
V: Além de um desafio, poder ser também um prazer, não?
RK: Para mim, cozinhar juntas vai além da comida: é sobre criar memórias, fortalecer nossos laços e viver experiências que levamos para a vida inteira. Ter esse tempo de qualidade com quem amo é essencial. Minha família é a minha base, meu refúgio e minha motivação diária, e valorizamos cada oportunidade de colecionar lembranças especiais, porque, no fim das contas, são elas que realmente importam.
ENSAIO DE RENATA KUERTEN
Stylist: Dudu Farias
Assistente de stylist: @callmebylacerda
Make-up: Lucas Matias @iamlucasmatias
Fotografia: Henrique Tarricone @tarricone
Assistentes de fotografia: @hkavantgarde_ e @leooprodutor
Assessoria: evva comunicação
- Matéria publicada na Revista Versatille 141, inteiramente disponível para download gratuito
