Para Caroline Putnoki, a nova era do turismo é voltada para a “art de vivre” e a vontade de desbravar o mundo

Em entrevista para a Versatille, a presidente da Comissão Europeia de Turismo no Brasil e diretora da Atout France para a América do Sul fala sobre as mudanças de comportamentos dos viajantes

Foto: Jack Lima

Filha de pai húngaro e mãe francesa, Caroline Putnoki nasceu em Caiena, capital da Guiana Francesa, e cresceu em um ambiente de extrema diversidade cultural. Fora de casa, numa região amazônica e com seus costumes. Dentro, um mix europeu entre as vivências de seus pais. “Acredito que essa mistura provocou em mim o desejo de ter uma carreira internacional. Com isso, o setor de turismo foi uma escolha óbvia, porque encarna esse espírito de liberdade e de descoberta do mundo”, conta Caroline.

 

Ao deixar Caiena, passou a desbravar o mundo. Começou os seus estudos na França, em Bordeaux, e finalizou no Canadá, onde também trabalhou em uma agência de viagens que lhe deu muita base para seguir carreira na área. Foi nessa época que conheceu o diretor da Atout France (Agência de Desenvolvimento Turístico da França), que gostou de seu trabalho e a chamou para ingressar na empresa. Em solo canadense, Caroline se especializou em marketing de destinos e se tornou diretora do escritório de turismo da França no país norte-americano.

 

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A temporada no Canadá só acabou quando ela decidiu acompanhar o seu marido em uma proposta de emprego no Brasil. Uma mudança que trouxe novas oportunidades e vivências: abriu uma empresa de comunicação com foco em comidas e bebidas e se envolveu em projetos de cruzeiros fluviais na Amazônia. Foram sete anos assim, até a Atout France retornar para a sua vida. Hoje, Caroline é diretora da Atout France para a América do Sul e foi, recentemente, anunciada como presidente da Comissão Europeia de Turismo no Brasil.

 

Em entrevista, Caroline compartilhou a sua visão sobre o setor e suas mudanças.

 

Versatille: Quais os maiores desafios do seu momento atual de carreira?

Caroline Putnoki: Este ano começou bem acelerado, com uma geopolítica global intensa que preocupa muita gente. Com certeza isso impacta o setor, mas no momento a Comissão Europeia do Turismo tem como objetivo fortalecer a marca Europa como a melhor opção de viagem para os brasileiros. Além disso, queremos fortalecer e encorajar cada vez mais as viagens sustentáveis, fora da alta temporada e para destinos que fogem do óbvio. Uma forma de combater o overtourism e a superlotação em alguns lugares. Esse é o nosso maior desafio no momento.

 

V: Os viajantes estão abertos a essa proposta?

CP: Hoje, o consumidor tem demonstrado um desejo por viagens de mais qualidade, mesmo que isso signifique viajar menos. Viagens mais longas, com mais tempo de qualidade, para que possa se aprofundar em novos destinos. É uma mudança boa. A Europa tem muito a oferecer a esse viajante.

 

V: Acredita que essa mudança de comportamento é um reflexo do pós-pandemia?

CP: Com certeza! A pandemia nos mudou por completo. Essa valorização de qualidade versus quantidade veio daí. Muitos perceberam que a vida é curta, e precisamos aproveitar com as pessoas que gostamos, criar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Algo que os franceses já tinham antecipado por meio da noção da art de vivre, a ‘‘arte de viver’’, que nos incentiva a parar para curtir um pouco a vida. Tomar um vinho sem pressa. Sentar para comer com a família e os amigos. Isso é importante e impacta diretamente no setor do turismo. Não é mais apenas sobre visitar um hotel. As pessoas querem se alimentar de história e cultura também. Por mais que o mundo esteja cada vez mais virtual, muitos querem o contato real.

 

V:  E quais são as suas dicas para os brasileiros que desejam viver isso mesmo com o câmbio não favorável para quem ganha em real?

CP: O câmbio é uma realidade. Impacta, mas temos estratégias. Recomendamos reservar com antecedência, fugir da alta temporada e realmente cogitar conhecer outros destinos fora das bolhas que mais conhecemos. Sair das grandes capitais é sempre uma boa solução. Vamos desbravar!

 

V: Tem algum lugar recente “fora da bolha” que você descobriu e recomenda?

CP: Recentemente eu redescobri Lyon, capital da gastronomia francesa. Já havia visitado, mas dessa vez fiquei impressionada com a facilidade do trajeto de trem saindo de Paris e com a estrutura local. Mercados com produtos excepcionais e passeios que valem a visita. Na mesma viagem, descobri Beaujolais, uma região próxima de Lyon que tem castelos e muitas experiências de viticultura. Recomendo!

 

V: Como você enxerga o seu papel como mulher em um cargo tão importante para o turismo da Europa?

CP: Sou a primeira mulher a assumir esse cargo, e isso é muito importante e inspirador para minhas colegas do turismo. Toda vez que tenho a oportunidade de assumir esse papel de liderança feminina, eu me sinto muito honrada. Recentemente fui citada em um livro, chamado Ensemble, que destaca 139 vozes femininas de diversos setores. Fiquei tão emocionada. Precisamos multiplicar os exemplos, porque temos a capacidade de mudar o mundo para um lugar melhor.

 

Por Beatriz Calais | Matéria publicada na edição 139 da Versatille

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