Olivier Anquier abre seu arquivo de memórias — e quer vender tudo

Novo espaço na Praça da República, em São Paulo, reúne fotografias e objetos de 20 anos de viagens pelo Brasil; até o inseparável Fusca ganhará um novo dono

Vista parcial do Arquivo Anquier, que Olivier não gosta de chamar de galeria nem de espaço cultural (Crédito: Marcos Mazini/Divulgação)

Por Celso Masson

 

Durante 20 anos, Olivier Anquier atravessou o Brasil atrás de receitas. Pelo menos era essa a premissa do Diário do Olivier, programa criado em 1998 e exibido pelo GNT. No caminho, encontrou muito mais. Entrou em casas, conheceu personagens, percorreu cidades, vilarejos e paisagens pouco conhecidas. Francês de nascimento, registrou milhares de imagens de um país que escolheu como seu e que revelou para tantos brasileiros.

 

Parte desse acervo acaba de sair das caixas. Instalado na Praça da República, em um imóvel vizinho a endreços onde ele já viveu e até hoje tem restaurantes, o Arquivo Anquier começa sua programação com a exposição Diário do Olivier: 20 anos descobrindo o Brasil. São 55 fotografias feitas durante as viagens, acompanhadas de objetos recolhidos ao longo daquela trajetória. Entre eles, um carrinho de madeira usado por um ambulante que vendia café e cigarros em Belém e que Anquier comprou assim que viu.

 

Zebra de Claudio Tozzi. Praça da República, São Paulo, 2010 (Olivier Anquier/Divulgação

Zebra de Claudio Tozzi. Praça da República, São Paulo, 2010 (Olivier Anquier/Divulgação).

Embora a maior parte tenha sido clicada nas viagens feitas para o programa de TV, algumas retratam cenas insólitas como a da zebra pintada por Claudio Tozzi e afixada na parede de um edifício da República ou a “Ilha de Coroas para pobres e desconhecidos“, montada como um casebre, com carro e tudo, sobre uma balsa ancorada na Baía da Guanabara, perto da Ilha do Fundão. “A fotografia temo poder de cristalizar um momento único, congelar algo que não se repete no tempo”, diz Anquier, que herdou do pai o prazer de fotografar – e de filmar, como ele demonstra em duas projeções que ocupam o Arquivo. Uma, feita por Inteligência Artificial a partir de fotos da família, vai dos tempos da infência aos dias atuais. A outra reproduz trechos do que ele mesmo filmou com sua câmera de cinema, de 16 milímetros, nas viagens pelo Brasil. A filmadora está em exibição, ao lado de duas câmeras fotográficas analógicas. “Eu sempre gauardei tudo. Agora, não tenho mais razão para manter tanta coisa comigo”, afirma, em tom de desapego.

 

Até por isso, o Arquivo não é um santuário criado para preservar lembranças intactas, mas para colocá-las em circulação. Quando a exposição terminar, em dezembro, fotografias e objetos serão vendidos. O antigo Fusca que ficou famoso em seu programa de TV também. “Não quero que ele vire sucata. Nas mãos de um colecionador, ele pode seguir circulando, ser preservado da extinção”, acredita.

 

Além das imagens

 

Há uma aparente contradição em criar um arquivo para depois desmontá-lo. É justamente nesse movimento que o projeto revela sua dimensão mais pessoal. Para Olivier, preservar uma lembrança não significa necessariamente conservar aquilo que a cercava. Talvez por isso a fotografia tenha assumido agora um lugar tão importante em sua trajetória. A ponto de Olivier ter sido convidado a ocupar integralmente a edição 46 da revista C, da Galeria Carcará, dedicada à fotografia autoral brasileira. Agora, pela primeira vez, as imagens acumuladas ao longo de tantos anos chegam às paredes de uma exposição aberta ao público.

 

Ilha de Coroas. Manguezal de Tubiacanga, RJ, 2009.

“Ilha de Coroas”. Manguezal de Tubiacanga, RJ, 2009 (Olivier Anquier/divulgação)

 

A mostra é apenas o primeiro de três atos concebidos para transformar continuamente o espaço. Depois dela, o Arquivo receberá uma exposição com obras de Sérgio César, artista conhecido por recriar cenas urbanas em esculturas feitas com materiais descartados. No terceiro ato, Olivier pretende reambientar o endereço como um simulacro de seu sítio na Serra da Bocaina. O desfecho será ainda mais radical: o sítio também será leiloado, e os objetos que fazem parte daquele universo, vendidos.

 

Antes de se desfazer de tudo, haverá outro capítulo nessa jornada: em 11 de novembro, quando Olivier completa 67 anos, será lançado seu livro de fotografias. A coincidência entre aniversário, publicação e abertura de seu acervo parece adequada para alguém que decidiu rever a própria história sem transformá-la em monumento.

 

O endereço escolhido também não é casual. Olivier vive há duas décadas na região da Praça da República, onde mantém outros negócios, e há tempos defende a recuperação do Centro de São Paulo como território de convivência. O Arquivo Anquier ocupa o número 36 da praça, com entrada gratuita.

 

No fim, talvez o nome Arquivo Anquier contenha uma pequena provocação. Arquivos costumam existir para impedir que as coisas desapareçam. Olivier criou o seu disposto a fazer justamente o contrário: abrir as portas, contar as histórias e deixar os objetos partirem.

 

Na estrada. em Minas Gerais, 2009, com o Fusca que irá a leilão (divulgaçáo)

Na estrada. em Minas Gerais, 2009, com o Fusca que irá a leilão (divulgaçáo)

 

O Fusca seguirá viagem. O sítio terá outro dono. As coisas acumuladas durante décadas encontrarão outras casas. Restarão as fotografias — aqueles instantes que, uma vez cristalizados, já não dependem dos objetos para continuar existindo.

 

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