Nova Chanel faz sonhar com os pés fincados no chão
A première de Matthieu Blazy uniu, com praticidade e encanto, os códigos da maison ao eterno sonho de explorar os astros

Antes da estreia à frente da Chanel no dia 6 de outubro, em Paris, o novo diretor criativo da maison, Matthieu Blazy, deu uma entrevista ao Business of Fashion na qual afirmou que, quando uma pessoa se veste com a marca, é quase como se usasse uma armadura ou fantasia. “Estou interessado em transformá-la de novo em vestuário, mesmo que você veja, a 200 metros, que é Chanel.”
Os códigos que entregam a assinatura clássica da maison são altamente reconhecíveis: os dois “C” entrelaçados, as camélias, o matelassê, o tweed, as pérolas etc. Assumir o desafio de manter a identidade e o legado e atualizá-los ao desejo de consumo, sem deixar de entregar novidade atrás de novidade ou, ao menos, uma sensação de frescor, não é uma coreografia tão simples.
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Blazy, por sua vez, conseguiu. A alfaiataria cinza de cintura baixa que abriu o desfile, a camisaria combinada a saias longas coloridas ou em tons sóbrios, o preto e branco em saias e vestidos visualmente limpos e com cintura anos 1920… A coleção tinha a cara da Chanel, mas sem parecer uma herança herdada da avó.

Foto: reprodução Instagram @Chanelofficial
A proposta do diretor criativo é contemporânea. Nela, é possível ver garotas de 20 e poucos anos, suas mães e até mesmo avós, porque, hoje, as mulheres não precisam ter uma aparência única por conta da idade. Esta é uma das grandes possibilidades do vestuário atual. Apesar de padrões ainda muito vigentes, há cada vez mais espaço para testar essas normas — o que está alinhado ao posicionamento da própria Coco Chanel de questionar o status quo.
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Na interpretação de Matthieu Blazy, é possível fazer tudo isso de maneira sonhadora — daí o cenário de espaço sideral com planetas e até as toucas franjadas na cabeça das modelos —, mas com os pés na Terra. Ou seja, usando um jargão comercial e compreensível para além do mundo da moda: roupa com cara de roupa.
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O crochê colorido dá forma a conjuntos transparentes; blusas que também revelam a pele por baixo são combinadas a saias de tweed com cintura baixa, e maxi pulseiras metalizadas adornam os looks. Esses elementos, além de pequenas flores coloridas com pétalas de tecido desfiado em vestidos e de saias volumosas feitas com a mesma técnica, mostram ainda como o diretor reforça o apreço pelo manual do seu tempo na Bottega Veneta.
“Nós podemos seguir dois caminhos”, disse Matthieu na mesma entrevista ao Business of Fashion. “De uma forma limpa, moderna, seguindo os códigos […] ou nós fazemos esse desfile como se fosse o nosso último. Eu segui esta opção.” Talvez houvesse ainda uma terceira opção, de acordo com o que foi desfilado: o caminho do meio, uma junção de possibilidades.
por Thiago Andrill



