“Não sou um Pop Star”, diz Hugo Rodrigues, ícone da publicidade do Brasil

Após receber inúmeros “nãos” na carreira, Hugo Rodrigues aproveita a boa fase profissional sem esquecer o passado e os valores recebidos dos pais Apontado como um dos nomes mais influentes do mercado publicitário brasileiro, Hugo Rodrigues

Após receber inúmeros “nãos” na carreira, Hugo Rodrigues aproveita a boa fase profissional sem esquecer o passado e os valores recebidos dos pais

 

Apontado como um dos nomes mais influentes do mercado publicitário brasileiro, Hugo Rodrigues costuma lembrar que embarcou nessa área “meio que pelas beiradas”, trabalhando em agências pequenas e não muito conhecidas que faziam os trabalhos considerados “menos nobres”.

 

Em 2014, assume como CEO (Chief Executive Officer) da principal agência da Publicis Worldwide, um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, a Publicis Brasil, e, também, da Salles Chemistri. Antes disso, quebrou a cara trabalhando como vendedor e foi à falência, junto com um primo, em uma fábrica de espumas.

 

Hoje, aos 46 anos, tem no currículo alguns dos principais prêmios que se pode conquistar nessa área. Além disso, é conhecido pela personalidade forte e pela irreverência, e é o nome por trás das campanhas de relevantes marcas globais e nacionais como GM, P&G, Nestlé, L’Oréal, Discovery, Centauro e Habib’s.  Não à toa, poderia, facilmente, ser apontado como o novo popstar da publicidade. “Não, não, não… Nossa vida é muito dura, não tem todo o glamour que parece”, diz. Versatille conversou com ele. Confira!

 

VERSATILLE — Existe alguma propaganda que marcou você durante a infância e que esteja guardada na sua memória?

HUGO RODRIGUES — Sim, e acho que muita gente lembra, também. Era mais ou menos assim: “Dá-me um Cornetto, muito crocante… É più cremoso, é da Gelato… Cornetto é da própria Itália, ti voglio tanto… Corneeeetto mio!” (risos). Essa é uma campanha que lembro bastante, tinha um toque romântico, que remetia a Veneza, na Itália, mostrava um monte de roupas penduradas nas janelas e uma música forte, difícil de esquecer. Tem aquela do baleiro também: “Roda, roda, roda baleiro, atenção… Quando o baleiro parar, põe a mão… Pegue a bala mais gostosa do planeta… Não deixe que a sorte se intrometa…”. Sabe, tenho um baleiro desses em casa que uso como decoração e, toda vez que pego alguma coisa nele, lembro dessa propaganda. O engraçado é que não recordo quantos anos eu tinha na época, se eram 4 anos ou 10 anos ou 14 anos. O legal é que, além do jingle, a gente lembra da marca também.

 

VERSATILLE — Por que isso acontece?

HUGO — Acredito que, naquela época, era um pouco mais fácil memorizar as propagandas. Nós não éramos tão bombardeados pela quantidade de informações quanto hoje. O fato de lembrar de alguma história, lembrar de alguma marca, era mais fácil. Se colocarmos de um jeito frio, o objetivo de uma propaganda sempre foi colocar a marca no coração das pessoas. Quando você ama uma marca, como hoje acontece, por exemplo, como Apple, que as pessoas têm devoção, a compra se torna um processo natural e a pessoa entende aquilo como uma relação.

A propaganda sempre buscou isso. Tenho certeza que, hoje, se nós não tivéssemos tantas plataformas e tantos dados disponíveis como temos, nós também gostaríamos e lembraríamos mais de algumas marcas por causa da propaganda. O problema é que a quantidade de informações que recebemos diariamente, não só de propaganda, mas de tudo, e a velocidade com que as coisas mudam, é tão rápida que acaba confundindo um pouco e até fazendo você esquecer e não estabelecer uma relação não apenas com marcas mas com outras coisas, também.

 

VERSATILLE — Criar essa relação entre marca e consumidor é o principal desafio atualmente?

 HUGO — Um pesquisa feita ano passado revela que 78% dos consumidores mundiais não são fiéis a nenhuma marca. Isso significa que a relação entre marcas e consumidores é fria. Isso é o fim do mundo? Não, isso é uma fase de desapego, e esse desapego também se traduz na vida cotidiana das pessoas.

 

VERSATILLE — No Brasil, o ano de 2016 tem sido marcado por embates políticos, crises econômicas etc. O momento é, ainda, mais desafiador para quem vive do humor da economia, como a publicidade, por exemplo?

HUGO — Na verdade, acho que estamos vivendo um momento maravilhoso e a gente ainda não tem consciência disso. É uma transformação que talvez poucas gerações terão a oportunidade de passar por isso.

 

VERSATILLE — Faz tempo que a publicidade tem sido uma ferramenta importante nas campanhas eleitorais do país. Você já participou de alguma?

 HUGO — Não, nunca participei. Não tenho preconceito, mas não conseguiria fazer uma campanha política para quem eu não acreditasse. Se eu não acreditar, não faço por dinheiro nenhum do mundo. Em algum momento, todas as pessoas que galgam um espaço na vida passam por tentações e testes que se colocam à prova para ver se o dinheiro, a fama, o sucesso são mais importantes que os valores que recebemos dos nossos pais desde pequenos. Mas os valores são mais importantes pra mim. Diria até que, se eu fosse promíscuo a ponto de não me preocupar com isso, poderia estar muito melhor na minha vida profissional. Então, afirmo que não tenho nenhum preconceito com campanha política desde que eu esteja alinhado com os valores ou do candidato ou do partido.

 

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VERSATILLE — O que pensa sobre colegas de profissão que seguem esse caminho?

HUGO — A gente passa por uma tormenta econômica e política tão grande hoje em dia que, quando uma pessoa próxima, do nosso mercado, se envolve em um escândalo dessa magnitude, como o do Eduardo Cunha, por exemplo, fica até difícil não acreditarmos que, em algum momento, essa tempestade vai passar para que possamos chegar ao paraíso. É uma tempestade dura, é verdade… mas, por que não acreditar que isso vai mudar!?

Fico pensando no seguinte: sou presidente de uma empresa com 350 funcionários e é impossível ter domínio de tudo o que acontece. Agora, imagine em grandes corporações, com milhares de pessoas… Então, quando vejo o envolvimento em escândalos de algumas agências de publicidade e de algumas lideranças, questiono o seguinte:

1º) as provas têm que ser analisadas com frieza para que ninguém seja condenado antes da hora; 2º) se isso tudo for validado, for provado, o envolvido tem que cumprir uma pena pelo crime. Tenho um lema na minha vida que aprendi com meu pai, é mais ou menos assim: “…se eu fizesse algo contra a  lei e acabasse preso, ele não deixaria de ser meu pai, mas ele ia depor contra mim…”. O que posso dizer é que, se algum colega ou conhecido comete algo contra a lei, eu não vou deixar de ser amigo ou respeitá-lo como ser humano, mas vou depor contra ele, e isso pode ser até com meu pai. Foi assim que aprendi e é nisso que acredito.

 

VERSATILLE — Você sempre quis trabalhar na área de comunicação? O que o levou para esse caminho?

HUGO — Na verdade, o medo foi um grande aliado. O medo de não ter condição financeira para me sustentar com o básico, mesmo, sabe, café da manhã, almoço e jantar. É claro que cada pessoa reage de uma maneira, mas acho que o grande guia da minha vida foi o medo, que me trazia força para continuar tentando.

 

VERSATILLE — Entrar nessa área e decolar na carreira demorou um pouco para você. Por que acha que isso aconteceu?

HUGO — A propaganda é um mercado parecido com as inovadoras áreas tecnológicas comandadas por gente como o Mark Zuckerberg (criador do Facebook), o Bill Gates (da Microsoft), ou, mesmo, o Steve Jobs (da Apple): ela (a empresa) sempre foi um celeiro de jovens talentos. Eu só consegui um certo sucesso aos 34 anos, quando tive uma campanha conhecida e cantada nacionalmente. Antes disso levei muitas pancadas. Lembro quando tinha 29 anos e minha vida econômica estava começando a se estruturar. Tinha acabado de comprar uma casa e, de repente, fui demitido, meu dinheiro começou a acabar de novo… Pensei: “Caramba, isso outra vez!”. Eu demorei para ter um certo reconhecimento, tive inúmeros motivos para desistir, mas os “nãos” que recebi foram importantíssimos para seguir em frente. Cada “não” recebido foi, ao mesmo tempo, uma dor e um empurrão. No fundo, queria que as coisas acontecessem rápido. Isso acontece porque as pessoas se espelham naqueles que tiveram sucesso rápido, só que elas se esquecem o quanto de dor teve até chegar àquela conquista. Mas nunca deixei de acreditar. Então, devo essa perseverança à educação que tive em casa, porque foi o lado “durão” do meu pai e o lado de “fé” da minha mãe que deram força para seguir na caminhada.

 

VERSATILLE — Você assumiu a presidência da Publicis Brasil em 2014. Como vê a empresa de lá pra cá? O que mudou?

HUGO — Mudou uma filosofia de vida. Eu trouxe para o trabalho aquilo que sempre acreditei. Vivo cercado de pessoas muito mais talentosas do que acho que sou. Então, todo dia me faz ter a obrigação e a vontade de ser, correr atrás para que eu não seja “ridicularizado” por elas. O nível do time hoje é muito superior. Tem gente que prefere ser o ator principal de um projeto fracassado, mas eu não ligo de ser o coadjuvante de algo fenomenal. Essa filosofia foi algo que mais mudou na Publicis e, talvez por isso, a gente esteja tendo o melhor ano da história da Publicis, no Brasil, em 20 anos. Por isso eu garanto que nosso time faz eu me sentir que tenho de suar demais para acompanhá-los.

 

VERSATILLE — Além de ter sido premiado em Cannes, você já foi contemplado em vários dos mais prestigiados festivais publicitários do mundo. Ainda dá um frio na barriga submeter um trabalho a uma avaliação?

HUGO — Vejo as coisas assim: prêmio tem que ser consequência de um trabalho, não pode ser a causa. Existem campanhas maravilhosas, que fazem sucesso no nosso país, mas que não ganham prêmio, que não são reconhecidas. O sonho de qualquer profissional é ser reconhecido. Mas, se tiver de escolher, primeiramente, prefiro contagiar o coração dos nossos consumidores e, se o prêmio vier e coroar isso, então a felicidade é enorme. Agora, o ideal é conquistar os dois e, graças a Deus, tive a felicidade de alcançar isso algumas vezes. Se colocar isso como meta para todos os festivais que existem, o frio na barriga vai virar um tornado porque é muito, muito difícil. Por isso prefiro focar no consumidor e no sucesso do cliente, se o prêmio vier, será ótimo. A ambição de conquistar algo não é um defeito e gera um frio na barriga; só não dá para ficar doente por isso. Quando você deixa de ter frio na barriga é preciso começar a repensar algumas coisas.

 

VERSATILLE — Com tantos prêmios no currículo e uma carreira pra lá de vencedora, você se considera um popstar da propaganda?

HUGO — Não, não, não… A palavra popstar traz inserida uma felicidade que nem sempre é verdade. Nossa vida é muito dura, não tem todo o glamour que parece. Quando você fala em popstar, isso acaba relacionado com algo que é prazeroso 24 horas por dia. Não tenho uma vida de popstar; tenho uma vida de suor, de disciplina e muito trabalho. Claro que o sucesso tem o lado bom, que é o de poder realizar alguns sonhos, mas, também, tem o lado da solidão, de dor e de trabalho que ninguém vê.

 

VERSATILLE — Trabalhando com desejos e anseios das pessoas, e sendo bem-sucedido nessa tarefa, qual é o seu maior sonho?

HUGO — Meu maior sonho é ver mais felicidade nas pessoas. Hoje, vivemos, no Brasil, um momento de baixa autoestima; um pouco de tristeza, mesmo, e isso é justo porque estamos passando por momentos doloridos. Minha grande felicidade seria poder ver o nosso país mais homogêneo, mais sereno e mais em paz, como em alguns outros lugares.

 

VERSATILLE — Sua agenda é muito concorrida e sua rotina não deve ser nada fácil. Se pudesse apertar um botão e ir para qualquer lugar, qual seria o destino escolhido?

HUGO — Iria para minha casa, um lugar onde tenho uma paz absurda. Gosto de ter tempo para ler um livro, escutar uma música, observar as pessoas… É em casa que conseguiria me realizar plenamente.

 

VERSATILLE — E qual seria a trilha sonora para esse momento?

HUGO — Poderia ser Roberto Carlos, com aquela música que diz: “Eu quero ter um milhão de amigos…/E bem mais forte poder cantar…”; poderia ser, ainda, My Way, que traduz um pouco melhor o nosso dia a dia.

 

VERSATILLE — Nesse caso, seria a versão com Frank Sinatra ou com Sex Pistols?

HUGO — Prefiro a versão com o Elvis Presley… (risos).

 

Entrevista por Marcelo Wysocki  | Matéria publicada na edição 94 na Revista Versatille

 

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