Na Alta-Costura, Schiaparelli renova elegância com ousadia e Chanel se refresca à espera de diretor criativo
Daniel Roseberry mistura trompe l’oeil a calcinhas fio-dental; já o time criativo da Chanel faz a pele das modelos respirar no aguardo da estreia de Matthieu Blazy

A última coleção comandada pelo time da Chanel, que trabalhou ao lado de Virginie Viard e Karl Lagerfeld, foi desfilada na manhã desta terça-feira (8), na Semana de Alta-Costura de Paris. O local escolhido foi o Salon d’Honneur, situado, é claro, no Grand Palais – sede dos desfiles da maison há décadas. A partir de agora, a equipe criativa da Chanel passa o bastão para Matthieu Blazy, que estreia sua primeira coleção em outubro.

Haute Couture
A maison é, provavelmente, a que mais possui códigos bem estabelecidos e reconhecíveis pelo público, como o matelassê, as correntes das bolsas 2.55, os tailleurs, as camélias, e por aí vai. Muitos desses marcaram presença na apresentação Couture, que celebrou a natureza e as caminhadas ao ar livre. Pense no interior bucólico do Reino Unido mimetizado na vestimenta, em tweeds de pele de carneiro e na fibra de espigas de trigo, essa aplicada em botões e bordados. Inclusive, o trigo também surge no tradicional vestido de noiva da Alta-Costura.
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Um destaque é a proporção das peças, com os croppeds em blusas, jaquetas e tops, combinados a saias longas, que deixam um recorte e bonito refresco de pele à mostra. Outro respiro bem-vindo é o das fendas, que trouxeram maior leveza à coleção. Nos pés, as modelos usaram botas cuissardes brancas até a coxa, que contrabalanceiam a fluidez das vestimentas.

Haute Couture
Elsa por Daniel
Já a alvorada anterior, da segunda-feira (7), foi marcada pelo desfile da Schiaparelli, criado a partir de uma reflexão do diretor criativo, Daniel Roseberry, sobre a fuga da fundadora da maison de Paris nos anos 1940, que seguiu rumo a Nova York por conta da guerra. Batizada de “Back to the Future”, a coleção revive códigos da Schiaparelli e, assim como na Chanel, apresenta uma boa dose de fluidez e modernidade.
Saem os espartilhos super rígidos de coleções passadas e entram os ombros marcados em jaquetas, que conferem estrutura, mas sem uma sensação de aprisionamento. Ainda se faz presente, à moda de Elsa Schiaparelli e da perpetuação de seu legado por Roseberry, o trompe l’oeil surrealista com vestidos que levam olhos bordados e lágrimas de seda. Destaca-se um longo vermelho com um coração pulsante nas costas, em homenagem a Salvador Dalí, artista surrealista e amigo da fundadora da maison.
A brincadeira de enganar os olhos continua, como não poderia deixar de ser, um forte elemento da interpretação de Daniel Roseberry da Schiaparelli atual. Outro exemplo são os botões que têm formato de olho. Porém, o tom nesse sentido foi reduzido. Já em outros, o agudo bateu forte, como em um vestido preto com transparência de seda cortada no viés que, nas costas, revela uma calcinha fio-dental brilhante. O que, se você pensar bem, não deveria chocar, pois estamos em 2025. Mas se tratando do tradicionalismo da Alta-Costura, esse recurso é divertido, traz alívio e causa um ótimo choque.
Por Thiago Andrill



