Fotografia: Mathilde De l’ecotais

Quando é que a fotografia de comida se torna fotografia de arte? Será que ainda sou fotógrafa de comida quando tranço junto duas impressões fotográficas de escamas negras? Minha paleta de cores é feita de

Quando é que a fotografia de comida se torna fotografia de arte? Será que ainda sou fotógrafa de comida quando tranço junto duas impressões fotográficas de escamas negras? Minha paleta de cores é feita de ingredientes do dia a dia: amarelo limão, laranja mandarim, tinta preta de choco. Isso faz de mim uma fotógrafa de comida?

 

Meramente uma fotógrafa de comida, eu acrescentaria. A natureza me inspira, o que ela produz me fascina. Gosto de pensar que eu a domestico, mas é a natureza que me domestica. Voltando do mercado eu faço meu próprio cozimento: eu examino, descasco, deixando a natureza morta se compor na minha perspectiva e voltar à vida nas minhas — artes? — fotografias.

 

Mathilde de l’Ecotais ajustou o foco de sua câmera. Do infinitamente grande ao infinitamente pequeno. Uma jornada fotográ- fica que impacta nossos cinco sentidos de modo bom ou mau. E nos incita a olhar e a sentir esta Terra estimulante de modo diferente.

 

O planeta não é mais azul como uma laranja, mas manchado de vermelho como a linguiça que delineia as Américas. Como se a cobrança ecológica já fosse muito cara. Pedaços de plástico em relevo convidando-se ao oceano estão insultando os olhos, causando este desejo irresistível de remover estes elemento e limpar o deck. Recuperar algum equilíbrio. Evitar o caos para o qual esta “Barriga no Chão” está nos conduzindo.

 

Uma mudança de atitude. A poesia dos trabalhos de Sonia Delaunay se convida à atmosfera. Formas geométricas, junk food versus sabor. Uma explosão de cores que parecem os boubous africanos. Um jeito de lembrar que o que vem de algum outro lugar é um bem contra a globalização dos nossos pratos e a padronização da nossa dieta.

 

É como um polvo em movimento, que nos segura fortemente com seus tentáculos e destrói a biosfera. A justaposição do mesmo motivo tridimensional sobre impressões planas transcreve de novo essa impressão: as coisas parecem ser autônomas mas na verdade dependem uma das outras. Até quando a industrialização — o metal aqui — vai transformar as matérias-primas, culturas tradicionais, hábitos alimentares? A agroindústria da comida é dirigida pelo lucro, competitividade e produtividade, e infelizmente se esquece do essencial: o enorme desequilíbrio entre o consumo excessivo e uns e a desnutrição de outros.

 

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Fotografia por Humberto Rodrigues | Matéria publicada na edição 95 Revista Versatille

 

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