Legado de terra, água e sal: a história de Sebastião Salgado pelos olhares de Juliano Ribeiro Salgado e Rosana Baracat
A herança de Salgado à fotografia e ao Brasil transpassa fronteiras. Em entrevista, seu filho e a galerista que o representa no país o celebram

“Tião e Lélia eram inseparáveis. São generosos e queriam transformar a vida das pessoas”, diz o cineasta Juliano Ribeiro Salgado quando perguntado sobre o legado do pai, o fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado. É que para ele não é possível diferenciar a contribuição de “Tião” e Lélia, sua mãe, ou Lélia Wanick Salgado, curadora, escritora, ambientalista e produtora. “Eles incentivaram a criação de uma consciência de mundo mais ampla e crítica, em prol de justiça”, continua ele, que também é presidente do conselho diretor do Instituto Terra, fundado pelo casal. A organização trabalha com restauração ecossistêmica, educação ambiental e desenvolvimento rural sustentável.
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Ao longo de 81 anos, Sebastião viajou para mais de 120 países – muitas vezes autofinanciado – em busca dos contrastes da natureza em rostos, animais ou no curso de rios. O artista tornou-se conhecido por imergir nos ambientes e, só depois, representá-los. “Muitos fotógrafos foram à Serra Pelada, mas por que ele teve maior destaque?”, indaga a diretora da galeria Mario Cohen (SP), representante do artista no Brasil, Rosana Baracat. “Eles ficaram três dias. Sebastião passou meses, ganhou a confiança dos trabalhadores primeiro.”
Nos anos 1980, o garimpo da Serra dos Carajás (PA) se tornou o maior a céu aberto da história, no qual milhares trabalharam com o sonho de enriquecer com a extração de ouro. Uma das fotos de Sebastião, que retratou os trabalhadores como formigas operárias nas encostas de lama, foi eleita pelo New York Times uma das 25 imagens que definiram a era moderna.

Foto: © Sebastião Salgado
Para o livro Gênesis, com fotos de mais de 32 viagens, o fotógrafo viajou para os locais mais inóspitos do planeta a fim de retratar os extremos da natureza. Ele montou um pequeno estúdio no meio da Amazônia, com um pano de fundo, e esperou dias pelas tribos indígenas. Conversou com elas e, depois de muita espera, só aí ganhou simpatia e pôde fotografar. “Ele era um humanista, construiu laços que se estenderam por anos”, ressalta Baracat. Ainda para o livro, ao fotografar animais, a diretora conta que o artista estudava seus movimentos e rastejava como eles, para compreender os ângulos e pontos de vista.
Subjetividade sem consenso
Uma das críticas que Salgado recebeu ao seu trabalho foi a de tentar se passar pelas pessoas e de fazer parte dos cenários. Assim, ele forçaria uma fronteira que jamais pode ser esmaecida: a de um retratista forasteiro que, por mais que se aproxime, jamais pertence à cena. Outro ponto levantado foi que ele glamourizaria a precarização. “É uma crítica infundada”, rebate Baracat.

Foto: © Sebastião Salgado
Para sustentar a observação, ela cita a escritora Nadine Gordimer. “Tivemos que esperar as fotografias de Sebastião Salgado para ver como sabemos pouco do caráter desses homens e mulheres que carregam, nos ombros, o peso do mundo.” Juliano diz que o poder da imagem – na fotografia ou no cinema – é também o de se educar sobre variados arranjos sociais. “O espectador vê o mundo com outros olhos, em lugares diversos. Aquilo que nos divide é excedido quando operamos essa subjetividade.”
A estética de Sebastião foi moldada em núcleos da fotografia – documental e fotojornalismo – que não incentivam a criação de assinaturas. Cinematográficas, suas imagens são conhecidas pelo preto e branco, pois ele acreditava que as cores dificultavam dar uma ideia de sequência. Com o P&B, seria mais fácil, então, tecer uma linha narrativa contínua. De todo modo, ele já chegou a admitir que a realidade não é preta e branca. Porém, disse que para os dispostos prestarem atenção nelas, suas fotos profundem complexidade e cor.
O homem atrás da lente
O fotógrafo nasceu e foi criado em Aimorés (MG). Graduou-se em economia pela Ufes e fez mestrado na mesma área na USP. Em 1967, casou-se com Lélia e se mudaram para a França dois anos depois, em busca de asilo político, por conta da ditadura militar. Lá, fez doutorado na Universidade de Paris e teve dois filhos, Juliano e o artista plástico Rodrigo Ribeiro Salgado.
Em Paris, Sebastião atuou como secretário na Organização Internacional do Café (OIC). Foi durante as viagens a trabalho que se apaixonou pela atividade. Na mala, carregava a câmera Leica da esposa. O que era hobby se expandiu, e ele deixou o posto na OIC em 1973. Já em 1979, o então fotógrafo parou de atuar de forma independente e ingressou na Magnum, a maior agência da área do planeta. “Minha casa era cheia de jornalistas, fotógrafos e escritores. Eles conversavam sobre o mundo. Foi uma fonte de formação geopolítica incrível”, relembra Juliano.
Na Magnum, Sebastião colaborou com a ONG Médicos Sem Fronteiras e retratou a seca da região do Sahel, na África. Também concebeu o livro Autres Amériques (Outras Américas), em 1986, para o qual fotografou camponeses e indígenas da América Latina, entre outros projetos. Em 1994, ele saiu da Magnum e fundou sua empresa, a Amazonas Imagens. Nela, criou o livro Terra (1997). A obra retrata trabalhadores rurais sem terra, crianças em situação de rua e pessoas excluídas da sociedade brasileira.
Entre 2009 e 2014, o fotógrafo passou à frente da câmera e foi filmado por Juliano, seu primogênito, e o diretor Wim Wenders para o documentário O Sal da Terra, sobre sua trajetória. “Esse projeto me ajudou muito com ele. A gente tinha uma relação conflituosa, complicada”, conta o filho. “Ali começamos uma cura. Foi importante quando ele, pela primeira vez, viu como eu o filmava. Eu editei as imagens, e ele viu o meu olhar sobre ele, isso o emocionou demais.” Recentemente, Sebastião se dedicava à edição de imagens feitas em cinco décadas, segundo Rosana Baracat. “Daí certamente surgiram muitas coisas, mas acredito que Lélia deve continuar.”

Filho de Sebastião Salgado, Juliano Ribeiro Salgado (Foto: © Sebastião Salgado)
O pop star atrás da lente
Ainda que seu desejo fosse o de destacar a natureza, Sebastião Salgado atraía as objetivas por onde passava. “Eu brincava que ele era quase um pop star. Quando lançava livro no Paris Photo (maior feira mundial de fotografia), as filas para pegar autógrafo davam voltas no quarteirão”, relembra Baracat. A partir de um dado momento, ele deixou de ir ao evento, pois era abordado com poucos limites. Suas exposições individuais na Mario Cohen foram as únicas que precisaram ter sessões só para convidados, já que a quantidade de pessoas tornava o local intransitável.
“Os visitantes nem entendiam que uma galeria é um lugar que se vende obra de arte. Eles vinham atraídos por ele, o que é muito gratificante. Por mais que uma galeria tenha o lado comercial, que é por onde se sustenta, ela também precisa fomentar e educar artisticamente, assim como os artistas fazem”, opina Baracat. E o trabalho de Salgado não passou conhecimento só por imagem, mas também por um grande projeto que ele e Lélia iniciaram na fazenda da família, no interior de Minas Gerais, em 1998.

Foto: © Sebastião Salgado
Instituto Terra
Naquele ano, o casal decidiu restaurar a floresta na Fazenda Bulcão, localizada em Aimorés, no Vale do Rio Doce, que pertencia à família Salgado. O projeto fundou o Instituto Terra. “Eles plantaram 3 milhões de mudas de árvores nessa região específica da Mata Atlântica, que possui a maior biodiversidade do mundo”, explica o presidente da organização.
Na época, Juliano tinha 26 anos e pouca vontade de participar da iniciativa. “Eu achava a ideia bonita, mas também meio chata”, brinca. A primeira vez que ele foi à Fazenda Bulcão foi aos 4 anos. Antes, nunca tinha vindo tampouco ao Brasil. “A minha avó, mãe do meu pai, foi me pegar lá na França para eu conhecer”, relembra. “Eu falava português em casa, a gente comia arroz com feijão, tinha uma ligação forte com essa nação, e o lugar por onde eu cheguei aqui foi a Fazenda Bulcão.”
Em 28 anos, seus pais desenvolveram cursos no instituto para ensinar técnicas de produção rural mais sustentáveis à população da região. “Nós replantamos mais de 300 espécies de árvores no local, que tinha passado por um processo de desertificação. Meus pais são muito visionários, em 1998 ninguém entendia por qual motivo eles fizeram isso.”

Sebastião Salgado (©Yann Arthus Bertrand)
Outra contribuição do casal é o atual restauro da Bacia do Rio Doce, impactada pelo desastre de Mariana, em 2015. Espera-se que 4.200 nascentes sejam recuperadas até 2027. “É o grande destaque da atuação deles.” O projeto, batizado de Terra Doce, é o maior de transformação da agricultura do Brasil. “Também implementaremos sistemas de agrofloresta em uma região de cerca de 10 mil quilômetros quadrados”, explica Juliano Ribeiro Salgado. Agrofloresta é um sistema que varia o tipo de plantio e cuidado de animais em um mesmo território. Nesse caso, o gado cresce sob a floresta, pois há também o cultivo de capim. “Isso aumenta muito a renda do fazendeiro”, afirma o presidente.
O projeto, que será concluído em 2033, atenderá diretamente mais de 14 mil pessoas. Associado à iniciativa, o instituto criou o Terra Jovens, no qual garotos são capacitados a narrar as transformações da região pela agrofloresta nas redes sociais. Apesar da extensão de ambas as ações, essa é apenas uma parte da contribuição de Sebastião Salgado e de Lélia Wanick Salgado a Aimorés. E, provavelmente, na sua cidade natal, na Fazenda Bulcão, as cinzas do fotógrafo devem ser espalhadas.
Por Thiago Andrill | Matéria publicada na edição 139 da Versatille



