Hollywood é terra estrangeira
Declarações de Meryl Streep no Globo de Ouro trazem à memória o quanto a meca mundial do cinema deve a talentos vindos de todas as partes do mundo Alguns podem até ter achado que a estrelíssima

Declarações de Meryl Streep no Globo de Ouro trazem à memória o quanto a meca mundial do cinema deve a talentos vindos de todas as partes do mundo
Alguns podem até ter achado que a estrelíssima Meryl Streep exagerou ao declarar, na cerimônia de premiação do mais recente Globo de Ouro, em janeiro: “Hollywood está cheia de estrangeiros e forasteiros. Se os deportássemos, vocês não teriam nada para assistir além de futebol e MMA”.
Com essa afirmação veemente, Meryl respondeu às ameaças chauvinistas do novo presidente dos EUA, Donald Trump. Uma rápida olhada pela história de Hollywood dá mais do que razão à atriz vencedora de três Oscar, por A Dama de Ferro (2011), A Escolha de Sofia (1982) e Kramer vs Kramer (1979).
Não daria mesmo para escrever nem a primeira página da história de Hollywood, na virada do século 19 para o 20, sem os estrangeiros, notadamente os europeus, que fundaram os primeiros estúdios, embriões dos que permanecem até hoje. Caso dos britânicos Albert E. Smith e James Stewart Blackston, fundadores do pioneiro Vitagrah (1896) — um ano depois da invenção oficial do cinema, em Paris, pelos irmãos franceses Louis e Auguste Lumière. O alemão Carl Laemmle fundou o Independent Motion Picture of America (IMP), semente da Universal (o mais antigo estúdio em atividade).
O húngaro Wilhelm Fried criou o Box Office Attraction Company e, depois, a Fox Film Corporation, mudando seu próprio nome para William Fox. Outro húngaro, Adolph Zukor, esteve por trás dos estúdios Famous Players, Lasky e, em seguida, Paramount. Um polonês de Varsóvia, Samuel Goldfish, por sua vez, foi associado de Zukor na Lasky, partindo depois para a Goldwyn — mudando, também o próprio sobrenome — e, finalmente, sendo o “G” da famosa MGM (Metro Goldwyn Mayer), de quem o outro sócio era o bielorrusso Louis B. Mayer. Entre os irmãos Warner, comandantes do estúdio do mesmo nome, as nacionalidades variam: havia um polonês (o irmão mais velho, Harry) e dois canadenses (Jack e David) — e, outros dois, Albert e Sam, americanos natos.
Desde o cinema mudo, quando não se precisava prestar atenção a nenhum sotaque, igualmente ninguém pedia passaporte aos astros. Tanto é assim que, naquele tempo, não houve quem tivesse pedestal mais alto do que o inglês Charles Chaplin, mestre supremo das comédias, ator e diretor mais bem pago à época e que chegou a ser sócio de um estúdio, o United Artists.
Outros grandes nomes desse período também vieram de fora, caso de dois astros absolutos, o italiano Rodolfo Valentino e a sueca Greta Garbo — que trouxe na bagagem dois diretores de sua terra, Mauritz Stiller, seu descobridor, e o ator e diretor Victor Sjöström (protagonista de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman).
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Quando o cinema começou a falar, em 1927, ninguém pediu a certidão de nascimento ao ator que pronunciou as primeiras palavras na tela na história do cinema. Al Jonson, como depois ficou conhecido o intérprete sonoro de O Cantor de Jazz, na verdade, chamava-se Asa Yoelson e tinha nascido na distante Srednick, em 1886 (então parte do Império Russo, hoje pertencente à Lituânia).
Se a xenofobia tivesse prevalecido, também não se teria formado uma das maiores duplas cômicas de todos os tempos, o Gordo e o Magro, respectivamente, Oliver Hardy e Stan Laurel — Laurel era originá- rio de Culverston, Inglaterra. Por uma ironia do destino, um dos diretores em cujos filmes melhor se traduziu a essência do “sonho americano” foi um siciliano, Frank Capra, autor de clássicos como Aconteceu Naquela Noite (1934) e A Felicidade não se Compra (1946). E o mestre incontesti do suspense, Alfred Hitchcock, também nasceu do outro lado do Atlântico, na Inglaterra, atravessando o oceano para realizar, em Hollywood, cults do gênero como Janela Indiscreta (1954), Um Corpo que Cai (1958) e Psicose (1960).
Guerras e perseguições políticas na Europa lotaram Hollywood de talentos que haviam militado no expressionismo, como os diretores e roteiristas vienenses Fritz Lang (O Diabo Feito Mulher) e Billy Wilder (O Pecado Mora ao Lado, Crepúsculo dos Deuses), os alemães Paul Leni (O Gato e o Canário) e F.W. Murnau (Aurora, Tabu) —, além da estrelíssima Marlene Dietrich (Testemunha de Acusação), uma legítima berlinense que se notabilizou pela oposição aos nazistas. Bem antes deles, já havia ganhado a América outro alemão, Ernst Lubitsch, considerado o mestre da comédia elegante, autor de filmes como Ser ou não Ser (1942) e Ninotchka (1939) — o famoso filme em que a séria Greta Garbo finalmente riu.
Passam-se as décadas, mas nada mudou o internacionalismo de Hollywood, gastando seus dólares para atrair os talentos de fora. Uma rápida olhada nos astros mais promissores do momento confirma isso: o alemão criado na Irlanda Michael Fassbender; a sueca Alicia Vikander (vencedora do Oscar de coadjuvante 2016); os britânicos Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch; e o australiano Hugh Jackman. Até Amy Adams, quem diria, nasceu em Vicenza, na Itália — mas foi por acaso.
Entre os diretores, a tendência se mantém. Basta notar para o triunvirato mexicano, Guillermo del Toro (O Hobbit, Hellboy), Alfonso Cuarón e Alejandro Iñárritu — os dois últimos, vencedores do Oscar, respectivamente, com Gravidade (2013) e O Regresso (2016).
Orientais também têm seu lugar, como o taiwanês Ang Lee (Oscar por A Vida de Pi e Brokeback Mountain) e o chinês Jackie Chang, rei da comédia física. A meca do cinema tem lugar até para alguns brasileiros, como a atriz Sônia Braga e o diretor José Padilha, que comandou o mais recente RoboCop (2014).
CINENA por Neusa Barbosa, crítica de cinema e editora do portal Cineweb | Matéria publicada na edição 96 da Revista Versatille



