Gotas Divinas: o vinho como você nunca viu e jamais irá esquecer
Versatille conversou com quatro integrantes da equipe de Drops of God para entender como foi criada uma das séries mais viciantes dos últimos tempos

Por Miriam Spritzer
Existe uma cena logo nos primeiros episódios de Gotas Divinas (Drops of God) que condensa tudo o que a série promete e entrega. Um jovem sommelier é convocado por uma empresa de consultoria para identificar um vinho misterioso. Ele fecha os olhos, respira, descreve paisagens, memórias, sensações. Quando termina, alguém na sala diz que ele não descreveu o vinho. A resposta é seca e precisa: “Você não me pediu para descrever. Você me pediu para identificar”.
Entende-se, naquele exato momento, que não se trata de uma série sobre vinho. É uma série sobre obsessão, herança e a linguagem particular que escolhemos para falar das coisas que amamos. Adaptação do aclamado mangá japonês de Tadashi Agi e Shu Okimoto, publicado nos anos 2000 que transformou o mercado de vinhos no Japão, a série chegou à Apple TV+ em 2023 e rapidamente conquistou um público global.
Afinal, como não se encantar com a história de dois jovens sommeliers competindo pela herança de um lendário crítico de vinhos? A premissa soa, no papel, como o argumento de um documentário de nicho. Na tela, é outra coisa.
A trama começa quando Alexandre Léger, o influente crítico de vinhos, morre no Japão. Além de uma adega avaliada em centenas de milhões de dólares, ele deixa um último desafio: um teste extremo de degustação entre seus dois herdeiros.
De um lado, no Japão, Issei Tomine (Tomohisa Yamashita), jovem enólogo com uma sensibilidade olfativa e gustativa quase sobre-humana, é o protegido ou “filho espiritual” de Léger. Do outro, em Paris, Camille Léger (Fleur Geffrier), é a filha biológica que não tem contato com o pai há anos. Durante a infância no sul da França, era treinada pelo pai a sentir o que os outros não conseguem nem imaginar. Mas um bloqueio psicológico a torna incapaz de consumir álcool.
Quem começa a assistir, se apaixona pelo universo dos vinhos, as locações lindíssimas e, claro, o drama.
Na conversa com a reportagem de Versatille, Klaus Zimmermann, produtor executivo da série, riu ao se lembrar dos primeiros debates internos sobre tom e linguagem. “Queríamos falar muito sobre vinho, sobre como ele é feito e degustado. Mas mantendo o equilíbrio com o drama, para que as pessoas não sentissem que estavam assistindo a um documentário”, afirmou.
“Ao longo do tempo, percebemos que o vinho se tornou personagem. Estava lá, ao lado dos nossos protagonistas”.
Seb Pradal, responsável por traduzir este universo até para a equipe criativa, explica: se o foco fosse na parte técnica, poderia afastar o público. “Você digere muito bem o aspecto do vinho porque existe toda uma história emocional ao redor. É por isso que talvez você consiga ouvir sobre vinho dessa maneira”.

A atriz Fleur Geffrier no papel de Camille Léger (divulgação)
Foi assim que Pradal conseguiu até convencer o diretor Oded Ruskin, que antes de aceitar o trabalho havia afirmado odiar vinhos. Durante uma visita às regiões vinícolas para locação, houve um almoço com grandes sommeliers amigos de Pradal. Abriram uma garrafa de vinho branco. Ruskin bebeu e disse: “Esse é o primeiro vinho que realmente me parece bom”.
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Curiosamente, o ator japonês Tomohisa Yamashita foi outro que chegou à série sem nenhum interesse na bebida. Mas treinou o olfato e o paladar para entender melhor seu personagem, Issei. Fez um curso de 40 horas sobre vinhos no Japão. Depois, mudou-se para a França.
Para as gravações da primeira temporada, seguiu uma dieta de 1.700 calorias por dia depois de descobrir que o olfato fica mais afiado com a fome. “Perdi quase oito quilos. Mas eu estava completamente focado no personagem. Sentia e cheirava cada coisa com muito mais intensidade. Isso ajudou a construir Issei”.
Na segunda temporada, a dieta ficou para trás. “Já me sentia confortável com o personagem”, disse, com um sorriso de quem hoje é dono de uma adega invejável.
Já para a atriz francesa Fleur Geffrier, “o vinho fazia parte da minha vida desde pequena. Mas Gotas Divinas me colocou muito mais fundo nesse mundo. Descobri os 54 aromas do vinho. Descobri como ele é feito, todas as etapas. E descobri como os produtores se sentem em relação à sua terra, ao seu vinho, como são apaixonados. Foi muito bonito de ver”.
A atriz também trabalhou as sensações, de como mostrar em sua atuação algo que o público não pode ser. Enquanto treinava a própria capacidade de degustar, foi mapeando cada reação, construindo uma linguagem corporal para traduzir o invisível, “você não pode ter o cheiro e o sabor olhando para uma tela”.
Assim, o vinho vai conquistando equipe e público de uma forma natural com suas tradições e história.
Sem dar spoilers, a trama da competição entre os dois personagens acaba encontrando uma solução, mas o conceito de herança segue como o fio condutor entre primeira e segunda temporada.
Após destacar os produtores de vinho no Japão e na França, o novo destino da série é a Georgia, “é o país com a tradição vinícola mais longa do mundo, que remonta a 8 mil anos”, diz Zimmermann.
É exatamente essa humanidade que faz de Gotas Divinas algo mais do que uma série sobre enologia. É uma série sobre o que fica com o passar do tempo. Sobre as memórias e o que somos capazes de sentir quando treinamos o suficiente para prestar atenção.
E Seb Pradal deixa a melhor lição, “O melhor vinho que você já provou é aquele que você bebe com seu melhor amigo ou com quem você ama. Não importa qual vinho. Mas por favor, compartilhe com a pessoa certa”. Gotas Divinas (as duas temporadas disponíveis na Apple TV+) é exatamente esse tipo de vinho.
- Matéria publicada na Revista Versatille 142, disponível para download gratuito
