Filha de duas lendas, Charlotte Gainsbourg cai nas graças de Hollywood; confira a entrevista com a artista

Seguindo o legado de Jane Birkin e Serge Gainsbourg no meio artístico, Charlotte integra o elenco da série "Étoile: A Dança das Estrelas" e do filme "O Esquema Fenício", de Wes Anderson

A atriz Charlotte Gainsbourg em cena da série "Étoile: A Dança das Estrelas"

Charlotte Gainsbourg vive um dos mais interessantes momentos de sua carreira. A impressão é de que do dia para a noite a grande dama da música francesa dominou Hollywood. Além de estrelar a nova série da Amazon Prime Video Étoile: A Dança das Estrelas, criada pela dupla Amy Sherman Palladino e Daniel Palladino, ela integra o elenco da mais recente produção de Wes Anderson, O Esquema Fenício, lançado no Festival de Cannes de 2025, momento em que aconteceu esta conversa.

 

Em meio ao burburinho elegante da La Croisette, o calçadão mítico do balneário, encontrei Charlotte Gainsbourg no Hotel Majestic, onde ela participava como convidada especial do prestigiado Women in Motion Talks, promovido pelo grupo Kering. Vestindo Saint Laurent da cabeça aos pés, Charlotte é sempre a pessoa mais descolada de qualquer ambiente. Seu jeito despojado e, ao mesmo tempo, elegante quase contrasta com a voz suave e o sotaque que mistura a eloquência do inglês britânico com notas melódicas do francês – extremamente apropriado para a filha de duas grandes lendas da Inglaterra e da França: Jane Birkin e Serge Gainsbourg.

 

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Charlotte cresceu cercada por arte, música e um tanto de irreverência. Atriz profissional desde os 14 anos, construiu uma carreira rica no cinema, na música e na moda e até chegou a dirigir um documentário sobre a sua mãe, Jane by Charlotte. Por isso, talvez o que mais chama atenção ao entrevistá-la é a verdadeira consideração que ela tem para cada pergunta, trazendo respostas transparentes e profundas sem perder a espontaneidade de soltar um “shit”, bem no meio da conversa, quando nada vem à mente.

 

Cena da série “Étoile: A Dança das Estrelas”

 

Versatille: Você pensa sobre o seu próprio legado e o que está deixando para os futuros artistas?

Charlotte Gainsbourg: Eu não penso nisso, na verdade. Por outro lado, o que os meus pais me deram, o legado deles, e o que me deixaram, penso nisso o tempo todo. Faz parte de mim, simples assim. Mas é uma pressão. E eu não colocaria esse tipo de peso sobre ninguém.

 

V: Uma das coisas mais admiráveis sobre sua personalidade é que você faz um pouco de tudo o que é criativo. O que motivou você a explorar diferentes meios?

CG: Isso foi graças ao meu pai, porque ele também fazia de tudo. Nunca houve uma barreira ou limite de “ah, eu faço música, então não posso fazer outra coisa”. No entanto, ele não se achava bom o suficiente na pintura, que foi o início de tudo. Então, como não era um gênio, decidiu que tinha que parar. Eu amo desenhar, mas nunca tentei profissionalmente. Na verdade, eu adoro tudo o que é relacionado à criatividade. Acho que não deveríamos ter limites.

 

V: Qual tipo de arte ainda gostaria de explorar?

CG: Existem muitas áreas que eu ainda não explorei. Eu adoraria poder dirigir novamente. Fiz apenas um documentário, que é muito precioso para mim, porque é sobre a minha mãe, mas não é um filme mesmo.

 

V: E ao que você assiste para se divertir? Tem algum guilty pleasure cultural?

CG: Algo de mau gosto? Que a gente tem que ter vergonha?

 

V: Não, mas algo que a diverte, mas que, talvez, a crítica não aprove.

CG: Eu não sei… shit. Family Guy?

 

V: Esse é um ótimo guilty pleasure.

CG: Mas eu tenho tantos outros. The Simpsons… se bem que já não assisto mais. Bom, mas está bom. Consegui lhe dar um bom exemplo.

 

V: A sua mãe inspirou a bolsa mais famosa do mundo. E muita gente tem curiosidade de saber: quantas Birkins ela tinha?

CG: Ela era uma pessoa muito generosa e costumava doar suas bolsas todo ano para alguma instituição de caridade que apoiava, para que eles pudessem vender e usar o dinheiro para suas causas sociais. Há uns dez anos, talvez, ela me deu uma bolsa como presente de Natal. Eu fiquei tão surpresa, é um presente lindo. Mas eu não consigo usá-la.

 

Cena da série “Étoile: A Dança das Estrelas”

 

V: Por quê?

CG: Para mim, é a minha mãe, sabe? Me daria a sensação de estar carregando-a comigo, o que, parando para pensar, é algo reconfortante. Eu e minha irmã Lou herdamos sua última bolsa e realmente ainda não sabemos o que fazer com ela. Eu acho que deveríamos doar, porque é algo que ela sempre fazia com suas bolsas. Então, acredito que deveríamos fazer o mesmo.

 

V: Você está recebendo o Vanguard Award da revista Variety em parceria com o Golden Globes durante o Festival de Cannes 2025. Como é celebrar esse reconhecimento pela sua carreira?

CG: Estou orgulhosa, mas é engraçado, porque ainda me imagino muito jovem. E, claro, muitas pessoas jovens estão recebendo prêmios importantes como talentos promissores e tudo o mais. Mas, quando é um prêmio para celebrar uma carreira, você se sente muito velha, e, ao mesmo tempo, orgulhosa do que construiu [risos].

 

V: E ainda há muito mais para criar e conquistar.

CG: Eu só quero continuar trabalhando, espero terminar mais um álbum musical. Eu sei que eu trabalho muito, mas a impressão que tenho é que cada vez quero trabalhar mais, porque eu sei que o tempo é limitado, e ele está correndo.

 

A primeira temporada de Étoile: A Dança das Estrelas está disponível na Amazon Prime Video, e O Esquema Fenício entrou em cartaz nos cinemas em 29 de maio de 2025.

 

Por Miriam Spritzer | Matéria publicada na edição 139 da Versatille

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