Entre antiguidades e cristais, uma história que atravessa gerações
À frente da Began, Luís Cláudio Bez preserva um acervo que ajuda a contar a história do Brasil e mantém uma relação de décadas com a francesa Baccarat

Por Celso Masson
Quando perguntavam a Luiz Claudio Bez o que ele seria quando crescesse, a resposta já aparecia no papel. “Desde pequenininho, eu já desenhava a fachada da loja. Primeiro porque eu achava mais fácil, eram só linhas retas. Depois, acho que era isso que eu gostaria de fazer mesmo.”
A loja era (e ainda é) a Began, negócio familiar de antiguidades que começou na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e desde os anos 1940 ocupa um prédio de cinco andares na Rua da Consolação, tradicional polo de comérciop de lustres na capital paulista.
Hoje à frente da terceira geração, Luiz Claudio cresceu entre móveis, porcelanas, bronzes, pratarias e objetos trazidos da Europa ou provenientes de coleções de tradicionais famílias brasileiras.

Luiz Claudio Bez (divulgação)
Caminhar pela Began ao seu lado é percorrer histórias que se cruzam. Há peças associadas a barões e marqueses, objetos religiosos e fragmentos de construções que já não existem. Em um dos ambientes, Bez mostra partes preservadas de uma antiga capela entre São Vicente e São Paulo, posteriormente desapropriada. “Se não fosse a gente ter guardado tudo, teria sido destruído”, diz.
Entre as peças de mobiliário que ajudam a dimensionar o acervo estão uma mesa de apresentação de inspiração rococó francês, com talha manual, madeira nobre e tampo de mármore, e uma escrivaninha papeleira francesa do século XIX, trabalhada em marchetaria e com aplicações de bronze.

Escrivaninha papeleira em marchetaria (divulgação)
O gosto mudou — e Luiz acompanhou essa transformação. “Peça boa sempre vai valer. Mas hoje em dia a peça mediana caiu demais. Porque a pessoa quer coisa nova, prática”, afirma. Ao universo das antiguidades juntou-se nas últimas décadas o interesse crescente pelo design assinado, inclusive pelo modernismo brasileiro. Ainda assim, a França permanece como uma referência importante, influência que ele relaciona à história das cortes europeias e à própria formação cultural brasileira.
Essa ligação francesa também passa pela Baccarat. A Began comercializa peças da maison há décadas e tornou-se sua representante oficial no Brasil há mais de 20 anos, segundo Luiz Claudio. A convivência entre tradição e criação contemporânea aparece em duas peças que hoje dividem espaço com as antiguidades da casa.
Uma delas é o Zénith Alvorada, da coleção Fusion, criada em 2013 por Fernando e Humberto Campana para a Baccarat. Os designers brasileiros partiram do clássico lustre Zénith para aproximar o cristal francês do bambu e de fibras naturais, colocando frente a frente dois repertórios aparentemente distantes. A colaboração dos Campana com a maison e o uso do bambu no Zénith Alvorada também estão documentados em publicações internacionais de design.
A outra é o Tuile de Cristal, de Arik Levy. Em vez da composição convencional de um lustre, o designer utiliza pequenas placas de cristal sobrepostas em uma estrutura modular, explorando novas possibilidades de luz e volume sem abandonar o trabalho artesanal que caracteriza a Baccarat.
À mesa de Dom Pedro II
Entre tantos objetos, um prato de porcelana sintetiza a maneira como uma peça aparentemente cotidiana pode carregar consigo um capítulo da história. Pertencente ao chamado serviço imperial PII Grande, traz borda verde-esmeralda, decoração em ouro, as iniciais PII e o brasão imperial. Produzido na França no século XIX, integra um serviço associado a Dom Pedro II; exemplares do mesmo conjunto aparecem também em catálogos especializados de antiguidades como pertencentes ao imperador.

Prato que pertenceu ao serviço imperial brasileiro, uma das muitas relíquias da Began (divulgação)
O material histórico da Began atribui o aparelho a um presente de D. Luís de Portugal a Dom Pedro II durante uma passagem do imperador pelo país. É uma peça pequena diante dos grandes lustres e móveis que ocupam os cinco andares da Consolação. Mas talvez seja justamente esse o fascínio do antiquariato cultivado por Bez desde menino: objetos sobrevivem aos seus proprietários e, quando sua procedência é preservada, continuam contando histórias muito depois deles.
