Dia internacional do Jazz: 6 discos para ir além dos clássicos e fugir do óbvio
Do fusion dos anos 1970 às novas vozes do Spiritual Jazz moderno, uma seleção para mergulhar no estilo

Por André Sollitto
Discos como Kind of Blue, de Miles Davis, A Love Supreme, de John Coltrane, e Time Out, de Dave Brubeck, são clássicos do jazz, itens obrigatórios em qualquer coleção. Mas o gênero é tão rico, cheio de vertentes, sonoridades e músicos de primeira linha que dá para ir além e mergulhar na diversidade que ele oferece.
Para curtir o Dia Internacional do Jazz, idealizado pelo pianista Herbie Hancock e celebrado em 30 de abril, selecionamos seis discos que fogem do óbvio e mostram caminhos surpreendentes para o gênero.
Casiopea – Casiopea (1979)
A década de 1970 foi um período de ebulição no jazz. Várias vertentes surgiram ou se consolidaram ao longo da década. É o caso do fusion, que mesclou as harmonias e a improvisação do jazz com a energia e a instrumentação do rock. Com guitarras e baixos elétricos, grupos como Return to Forever, Mahavishnu Orchestra e Weather Report criaram as bases para o estilo. Mas há outros grandes representantes do fusion. É o caso do grupo japonês Casiopea. No álbum homônimo de estreia, lançado em 1979, o quarteto toca com velocidade e precisão. O guitarrista Issei Noro chama atenção, mas toda a banda é espetacular. O baterista Takashi Sasaki e o baixista Tetsuo Sakurai criam bases intrincadas para os solos de Noro e do tecladista Minoru Mukaiya. Os músicos ocidentais Randy Brecker, Michael Brecker e David Sanborn fazem pequenas participações.
Keith Jarrett – Changeless (1989)
Embora a improvisação seja parte fundamental de qualquer performance de jazz, poucos levaram a criação espontânea a extremos como o americano Keith Jarrett. Desde meados dos anos 1970, Jarrett criou um estilo de performance totalmente improvisada em que ele se sentava ao piano e tocava durante uma hora ou mais, sem repetir temas já conhecidos. Cada show era único. Algumas gravações dessas performances, como The Koln Concert, de 1975, e o box Sun Bear Concerts, de 1976, tornaram-se clássicos do jazz.
Com seu trio, que era composto pelo baterista Jack DeJohnette (1942-2025) e pelo baixista Gary Peacock (1935-2020), deu vida nova a composições tradicionais do jazz, ampliando a duração das faixas ao explorar cada canção pelo viés da exploração.
Changeless, de 1989, surpreende porque adapta a lógica de criação espontânea para o formato de trio. Jarrett começa com um motivo, que é acompanhado pela bateria e pelo baixo. Cada músico começa a levar a música para um caminho e a relação que existe entre os três, após décadas tocando juntos, faz com que essa criação coletiva não pareça apenas um exercício de técnica.
Jan Garbarek e Ustad Fateh Ali Khan – Ragas and Sagas (1992)
Não foram apenas os músicos de rock dos anos 1960 que se apaixonaram pela música clássica indiana. Prova desse fascínio está em Ragas and Sagas. O saxofonista noruguês Jan Garbarek, conhecido pelos trabalhos com o selo ECM, de Manfred Eicher, se reuniu ao cantor Bade Fateh Ali Khan (1935-2017) e outros músicos do Paquistão, para interpretar ragas, as estruturas melódicas que são a base da improvisação indiana e paquistanesa. O uso do saxofone e o lirismo de Garbarek dão uma cor diferente às músicas, já que cada raga é normalmente associada a um momento do dia e a um sentimento.
Bill Frisell – Guitar in the Space Age (2014)
O guitarrista americano tem um currículo impressionante. Ganhou notoriedade na década de 1980 ao trabalhar com o lendário selo ECM, tanto como líder quanto como músico de estúdio. Mais tarde, estabeleceu uma parceria de longa data com o saxofonista John Zorn, ícone da vanguarda novaiorquina dos anos 1980 e 1990. Tem álbuns mais experimentais, mas seu trabalho como intérprete do grande cancioneiro americano é digno de nota. Em Guitar in the Space Age, Frisell arranja versões para canções que fizeram sucesso no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, trazendo momentos de improvisação sobre temas populares. Beach Boys, Dick Dale, Duane Eddy, The Tornados, The Byrds são alguns dos destaques.
Mali Obomsawin – Sweet Tooth (2022)
Em meados dos anos 1960 e 1970, o Spiritual Jazz surgiu como uma vertente que explorava temas como a transcendência e a espiritualidade. Embora difícil de definir musicalmente, já que cada grupo adotava uma abordagem sonora diferente, o Spiritual Jazz estava ligado ao movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. John Coltrane, Pharoah Sanders e Sun Ra criaram obras fundamentais do estilo que definiu uma época como forma de denunciar a violência sofrida, pedir paz em tempos de tumulto e reinvindicar a herança africana. Nos últimos, o Spiritual Jazz voltou a ganhar força à medida que músicos de diferentes partes do globo se voltaram ao estilo como forma de expressão. Há muitos discos recentes interessantes nessa vertente. A baixista e vocalista Mali Obomsawin, da nação indígena Abenaki, de Quebec, no Canadá, lançou Sweet Tooth em 2022, um trabalho que evoca elementos do free jazz, mas também remete ao trabalho de Alice Coltrane, esposa de John Coltrane e uma das expoentes do Spiritual Jazz nos anos 1970.
Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz – Moacir de todos os santos (2022)
Moacir Santos (1926-2006) revolucionou o jazz brasileiro ao incorporar elementos afro-brasileiros na paleta sonora do estilo. Obras como Coisas, de 1965, são consideradas obras-primas, reverenciadas por músicos do mundo inteiro. No disco Moacir de todos os santos, o maestro Letieres Leite (1959-2021), à frente da Orkestra Rumpilezz, interpreta faixas de Coisas em um formato das big bands de jazz. Até o método de gravação é o mesmo, diretamente do estúdio para as fitas, de forma analógica. Os arranjos para orquestra valorizam a contribuição coletiva, com destaque para participações de Caetano Veloso na faixa “Nana” e do trombonista Raul de Souza (1934-2021) em “Coisas nº 4”. Recentemente, o disco foi editado em vinil pelo clube de assinaturas Três Selos.
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