Denise Weinberg e Rodrigo Santoro falam sobre “O Último Azul”, filme recém-lançado de Gabriel Mascaro
O longa-metragem já ganhou importantes prêmios, como o Urso de Prata no Festival de Berlim; o Prêmio do Júri Ecumênico; e o Prêmio dos Leitores do Berliner Morgenpost

Ambientado na Amazônia de um Brasil distópico, O Último Azul, novo longa-metragem do cineasta brasileiro Gabriel Mascaro, conta a história de Tereza, uma senhora que se vê obrigada a abandonar sua vida para cumprir seu papel na sociedade e não atrapalhar a produtividade do país. Aos 77 anos, a protagonista decide que não irá para a colônia de idosos e foge em busca de liberdade.
O filme, que vem conquistando os críticos e já ganhou importantes prêmios, como o Urso de Prata no Festival de Berlim; Prêmio do Júri Ecumênico; e o Prêmio dos Leitores do Berliner Morgenpost, aborda temas como liberdade, etarismo e o poder do feminino. Para Denise Weinberg, protagonista do longa, a personagem se relaciona intimamente com ela. “Eu acho que é um dos papéis pelos quais sou mais grata, ele conseguiu me transformar em vários aspectos. A Tereza me esclareceu muitas coisas sobre o feminino, a velhice e a indignação, ela veio sublinhar algumas coisas minhas também. Estou chegando aos 70 anos e quero aproveitar a energia que me resta. Igual à Tereza, eu quero voar!”, comenta a atriz em entrevista à Versatille. A seguir, confira a conversa com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro.
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Versatille: O Último Azul constrói uma versão distópica do Brasil para falar sobre a invisibilidade social e o direito à liberdade dos idosos. Para você, por que é importante debater essas questões nos dias atuais?
Denise Weinberg: A Tereza é um presente para toda atriz, ela foi uma “dádiva” dos céus que o Gabriel colocou na minha mão. Os indígenas sempre respeitaram os mais velhos, que são os pajés e os sábios, e isso para eles é o normal. No Oriente é a mesma coisa, os velhos são bem tratados, são pessoas especiais, que viveram mais tempo, é uma questão óbvia para mim. No Ocidente, se você não produz, você não presta mais, esse é o problema.

Na pandemia, nós quase entramos nesse tema do filme. Eu acredito que os velhos estão sendo deixados de lado, e a Tereza veio para provar que eles ainda podem ser ativos. É o caso mais interessante do filme. A minha Tereza é uma mulher que produz, ainda tem um corpo desejante, está apta a atividade física, o que a faz questionar: “Poxa vida, por que ela tem que ir para uma colônia com aqueles velhos todos decrépitos?”. Isso é uma tortura para a personagem. Ela representa a rebeldia, é indignada e, por isso, decide fugir. Eu acho isso lindo. Como eu sou também um pouco rebelde, entendo perfeitamente. Nosso desejo, nossa autoridade de ser uma pessoa independente é abordada no filme.Tereza foge para aproveitar até a última gota o que a vida está apresentando para ela.
Rodrigo Santoro: A liberdade é importante de ser debatida sempre, em qualquer tempo, é um direito que todos têm. O filme investiga a forma com que a sociedade vê e trata os idosos. Tereza luta pelo seu direito de sonhar, de existir, mesmo estando com uma idade que é percebida socialmente como improdutiva e ultrapassada.

V: Como foi a construção do seu personagem? E como ele foi mudando ao longo da trama?
DW: Sempre que eu começo a construir um personagem eu sigo o que ele fala e sua maneira de pensar. Igual na vida real, você saca a pessoa pelo jeito de ela se comunicar, e na atuação é fundamental achar o que a gente chama de embocadura da personagem. No caso da Tereza, é quase como se ela fosse uma esponja, muito observadora. Como ela é carente e está com medo de ir embora, ela incorpora um pouco de cada pessoa que passa por ela. Do Cadu (Rodrigo Santoro) ela pega a independência, o coração quebrado. Do Ludemir (Adanilo), ela pega a safadeza do mundo. Já com Roberta (Miriam Socarras), ela começa a perceber que existe outra possibilidade extremamente agradável de viver e ser livre. A vida é uma coleção de encontros e desencontros, que são muito importantes, e, pessoalmente, isso é muito relevante.
RS: Cadu começa com o coração embrutecido, em luto. E, por meio do encontro com Tereza e da experiência que vivem juntos, ele se transforma e aceita o que sente, sem medo de assumir suas fragilidades. É também uma desconstrução dessa figura masculina que estamos acostumados a ver.

V: Tereza encontra a sua chance de liberdade no barco de Roberta, uma senhora também. As cenas das duas personagens são fortes e sensíveis. Como foi retratar essa liberdade feminina ao lado de Miriam Socarras?
DW: Foi maravilhoso, a Miriam é muito especial, com 81 anos na época das filmagens. Ela é uma pessoa extremamente libertária, bicho solto, como a gente diz no filme [risos]. Nós nos ajudamos muito, ainda mais que ela era a única mulher em cena comigo. Cada ator ficava dez dias, e ela veio logo no início, então uma alimentava a outra. Eu ajudava ela no português, ao mesmo tempo ela me trazia coisas incríveis que eu não tinha pensado. Esse é o barato de contracenar.
O Gabriel tem essa preocupação em todos os filmes dele, então eu acho que é interessante mostrar um corpo idoso ainda ágil. Tem uma cena bonita em que uma dá banho na outra, e eu acho aquilo tão simbólico, tão feminino e cúmplice, de não ter vergonha. Hoje, meninas com 25 anos já estão mexendo no rosto, e eu acredito que isso é uma violência. Um corpo que se deixa envelhecer é tão bonito, você nasce, cresce, envelhece e morre. Eu não preciso ter vergonha de envelhecer, as minhas rugas valem ouro.
V: O longa foi gravado na região amazônica nas cidades de Manaus, Manacapuru e Novo Airão. O que mais encantou você na região durante a filmagem?
DW: A Amazônia é terrivelmente magnífica e assustadora. Quando vem a tempestade, há uma revolta na natureza que é muito linda de ver, mas dá certo medo, e isso acontece todos os dias. Eu fiquei dois meses gravando, e foi um privilégio ver o nascer e o pôr do sol lá. O filme foi todo feito em barco, então a logística é muito complicada, tem barco para figurino, barco para alimentação, para a produção; era uma frota. O fato de ficar nesse lugar que não é terra firme, trabalhando no Rio Solimões, no Rio Negro, também me colocou em um contato tão forte com a natureza que quando eu voltei para São Paulo fiquei um mês olhando para o teto, tentando elaborar o que tinha me acontecido. Essa experiência mexeu com coisas que não são racionais, é natureza com natureza, e isso é fundamental. São os pássaros, os rios, os indígenas que são os donos dos barcos, é Manacapuru, é o porto, uma loucura. Você vê de tudo, desde um tráfico violento até uma natureza com um rio que abraça você.

RS: Fala-se muito sobre a Amazônia, o mundo todo fala sobre ela, mas é só estando lá por algum tempo que é possível compreender a grandeza desse lugar. É um mergulho em um ambiente onde a natureza é onipresente. Passei tardes sem nenhum tipo de tecnologia, embaixo de copas de árvores nos igarapés do Rio Negro apenas escutando os sons da fauna, no coração da floresta. Inesquecível.
V: O que você espera que os brasileiros sintam ao assistir a O Último Azul?
DW: Eu acho que o meu presente seria que as pessoas fossem assistir ao filme no cinema, minha vontade é ver as salas cheias, o resto é ego. Eu já estou satisfeita se isso acontecer. É um trabalho de formiga, a gente fez o melhor que podia, e eu acredito nele, mas agora o filho está solto, vamos ver como o público vai reagir a ele.

RS: Cada um vai sentir o filme de uma forma. A obra de arte só se completa no espectador.
Por Marcella Fonseca | Matéria publicada na edição 140 da Versatille



