Conheça Jerez de la Frontera: lar de vinhos finos na mágica Andaluzia
Visitamos a bodega González Byass, casa da icônica marca Tío Pepe. O local é um marco da cidade espanhola, onde o sol quase sempre brilha

Há quem sonhe com Paris, outros com Machu Picchu. Eu sonhava com Jerez de la Frontera, município na província de Cádis, pertencente à mágica Andaluzia, na Espanha. E não só com a cidade branca, de luz única e que tem aroma de flor de laranjeira, mas com o seu véu de flor. Explico: aquele manto místico de leveduras que protege os vinhos mais secos e elegantes do mundo: os finos.
No centro desse universo encantado, meu destino era certo: a bodega González Byass, casa do inconfundível Tío Pepe, o vinho que virou marca, personagem e ícone, um senhor simpático de chapéu cordobês e casaca vermelha, presente em toda a Andaluzia. Em Jerez, ele está por todos os lados: murais, outdoors, camisetas, chaveiros e, naturalmente, taças. Ele é praticamente um cidadão andaluz.
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Fundada em 1835 por Manuel María González, a bodega atravessou 180 anos de história, guerras e revoluções, mantendo-se fiel ao jerez tradicional, mas sem renunciar à inovação. Um verdadeiro santuário do vinho que combina tradição e modernidade com uma leveza possível somente em terras banhadas de sol.

Bodega González Byass

Casa da bodega González Byass
Foi pisando no solo branco de albariza, entre arcos mouriscos e pátios floridos, que entendi: jerez não é só uma bebida. É um patrimônio vivo, que se cheira, se ouve, se bebe e se vive.
A programação de enoturismo da bodega é uma viagem pelos sentidos. Há visitas para todos os gostos e bolsos, desde os que querem começar pela superfície, com duas taças de boas-vindas e fotos no Instagram, até os que preferem mergulhar de cabeça no mundo dos soleras, botas e vinhos Vors.

Barricas na bodega Tío Pepe Gonzáles Byas
Comecei com a clássica “Experiência Tío Pepe”, uma visita guiada com degustação de dois vinhos. O suficiente para abrir o apetite, seja para taças ou para história. Na sequência, a “De Copa en Copa” me levou pelos tons dourados e âmbar de quatro estilos de jerez. Já na “Visita entre Tapas”, a harmonização com tapas jerezanas trouxe aquele momento de “estou vivendo o que muitos chamariam de férias dos sonhos”.
Mas a verdadeira alquimia começou na “Sherry Fusion”, em que tapas e vinhos se encontraram como velhos amigos. Quatro estilos, quatro petiscos, zero pressa. Para quem gosta de se aprofundar, a “Premium Vors” é uma aula líquida de tempo e complexidade. Fino, Amontillado, Palo Cortado e Oloroso de idade superior a 30 anos, para beber de joelhos ou, pelo menos, em silêncio.
Agora, se você é do tipo que ama destilados tanto quanto fermentados, a “Sherry Cask” é imperdível: começa com o Fino Tío Pepe en Rama, cru e vibrante; passa pelo brandy Lepanto Gran Reserva; e termina com o viajado Nomad, envelhecido em barricas (as “botas”) de jerez.
E, quando você acha que já viu tudo, chega a “Visita Deluxe”, com almoço harmonizado e vinhos e brandies exclusivos, e a “SuperDeluxe”, que inclui tour à Viña Canariera e uma verdadeira imersão na origem do vinho. Um dia inteiro de puro esplendor. Entre um gole e outro, duas joias escondidas me foram apresentadas. A primeira, uma arena de touros, hoje desativada, cercada por botas de jerez com o nome de dezenas de países visitantes – inclusive, o Brasil está por lá.

Os destilados fermentados especiais
A Bodega González Byass, lar da icônica marca Tío Pepe, é conhecida não apenas por seus vinhos excepcionais, mas também por sua tradição de receber visitantes ilustres. Muitos desses visitantes deixaram sua marca assinando barris de jerez, criando uma coleção única de autógrafos que refletem a história e a influência da bodega.
Esses barris autografados são cuidadosamente preservados e exibidos durante as visitas guiadas, oferecendo aos visitantes uma conexão tangível com figuras históricas e culturais que apreciaram os vinhos da González Byass.

Suíte hotel-butique Tío Pepe
Entre os nomes notáveis que visitaram a bodega e assinaram barris estão: Winston Churchill, Margaret Thatcher, Steven Spielberg, Orson Welles e Pablo Picasso.
Depois de tanto encantamento, não há nada melhor que dormir no próprio coração da bodega. O Hotel Tío Pepe é o primeiro “Sherry Hotel” do mundo, um hotel-butique encantador integrado às instalações da González Byass. Ocupa quatro antigas casas que abrigavam trabalhadores da bodega, agora transformadas com elegância andaluza em quartos com vista para a Catedral de Jerez e o Alcázar. A piscina na cobertura, o pátio florido e a academia de primeira completam a experiência de quem busca viver o vinho até o último gole.

Suíte hotel-butique Tío Pepe
Para os que não resistem a uma boa mesa, o Pedro Nolasco, restaurante dentro da bodega, é um capítulo à parte. Recomendado pelo Guía Repsol 2024, oferece uma cozinha tradicional jerezana com alma contemporânea. É o lugar para provar um “Tío Pepe en Rama” pareado com uma vieira caramelizada ou um Amontillado de 1975 acompanhado por rabo de touro cozido lentamente. Ou, simplesmente, deixar-se levar por sabores que parecem saídos de um livro de García Lorca. A decoração é inspirada na vindima, os tons são neutros e elegantes, e o ambiente tem aquele charme relaxado que só o sul da Espanha oferece. Ao fundo, a catedral observa, silenciosa.

Pátio externo hotel-butique Tío Pepe

Centro histórico de Jerez de la Frontera
Como se não bastasse, entre meados de julho e meados de agosto, a González Byass se transforma em palco de um dos festivais mais charmosos da Andaluzia. Em 2025, a programação promete noites estreladas com nomes como Jethro Tull, Gloria Gaynor, Santana e a diva do flamenco pop Niña Pastori. Tudo isso nos jardins da bodega, com “copas” à mão.
Dizem que Jerez é um lugar para se perder. Já eu prefiro dizer que é um lugar para se encontrar. Espero voltar.
Por Fernanda Fonseca | Matéria publicada na edição 139 da Versatille



