Como os chinelos viraram símbolo global de estilo
Nas passarelas, redes sociais ou ruas mundo afora, as sandálias rasteiras têm se firmado como um cobiçado item de moda, assunto no qual o Brasil é mais do que especialista

As sandálias rasteiras – ou, em ótimo “brasileiro”, os chinelos – são um dos itens de moda mais desejados do ano. Na temporada de prêt-à-porter masculina de primavera/verão no Hemisfério Norte, os calçados de grifes como Gucci e Prada, o item foi elevado, como nunca, a objeto de luxo.
A sandália Dupe da The Row, por exemplo, ficou esgotada por semanas e calçou celebridades na alta do verão europeu. A expansão é global, mas é preciso fazer uma ressalva: quando se fala de chinelo, especialmente o de plástico, a pegada que melhor marca a areia é a brasileira.
LEIA MAIS:
- Ronaldo Fraga conta histórias de Milton Nascimento e de muitos Brasis na passarela
- Salinas desfila Alto Verão 2026 com tricô, sorriso e filhotes
- Havaianas é a marca mais desejada do mundo segundo a Lyst Index
A alta da sandália nacional lá fora não é nova; há décadas o país é reconhecido pelo produto. Entretanto, com o recente Brazilcore, a tendência verde e amarela que surgiu nas redes sociais de muitos países em camisas da seleção e outros itens, o calçado ganhou novo fôlego. “Somos os originais desde 1962. Não é apenas uma tendência, fazemos parte do DNA do brasileiro”, ressalta a vice-presidente global de marketing da Havaianas, Maria Fernanda Albuquerque. “De certa forma, os chinelos desfilados em passarelas de marcas de luxo nos ajudam a mostrar que eles podem ser usados além da praia.”

Havaianas desfilada em Copenhague
É uma chancela, mais uma forma de gerar desejo, afirma a VP. “Nos últimos anos, ganhamos notoriedade importante no mercado internacional.” No primeiro trimestre deste ano, as vendas estrangeiras da marca representaram 10% das totais e 25% do faturamento. Itália, Reino Unido, França, Espanha e Filipinas são alguns dos 15 mercados priorizados.
Conceito antes de vendas
Por sua vez, o processo de internacionalização da Kenner é recente, iniciado em 2024. Durante a Semana de Moda de Paris, em junho do ano passado, a marca se uniu ao coletivo Je m’Appelle Brasil, dedicado ao streetwear. Além disso, algumas ativações na cidade foram feitas. No mesmo ano, a Kenner, em parceria com a cantora Anitta – sua embaixadora –, fez uma campanha em Miami que explorava o universo do rap, funk e outros gêneros de música latina. Com um salto para este ano, a marca foi vendida nas lojas de departamento Corner Street, em Marselha, e na Galeria Lafayette, em Paris – mesma cidade na qual possui um showroom.
“Ficamos surpresos com o nível de aceitação do consumidor final nessas lojas, além de outras que querem colocar o produto no próximo ano. Iremos continuar esse processo na Europa, mas é definitivamente mais uma questão conceitual de marca, nesse momento, do que de crescer em volume de vendas”, explica a diretora de marketing da Kenner, Laura Leal.

Desfile da marca C.R.E.O.L.E, com chinelos Kenner, Galeria Lafayette em Paris FW, em 2025
Já a Havaianas criou uma parceria com a grife italiana Dolce & Gabbana, com estampas de flores, plantas, animais e das tradicionais carroças sicilianas, assim como aplicações de pele falsa. Além disso, a companhia se juntou à alemã Zellerfeld e lançou seu primeiro chinelo em impressão 3D, desfilado na passarela da opéraSPORT na Semana de Moda de Copenhague. Aonde vai, a Havaianas mistura o conceito “Feito no Brasil” ao de novos contextos. Inclusive, associando-se a figuras internacionais, como a modelo Gigi Hadid, sua embaixadora global.
“Somos a marca mais democrática do país e seguimos nesse propósito, expandindo lojas, elevando experiências e buscando cada vez mais ser referência, sem perder nossa brasilidade e essência, seja em cores, estampas e designs cheios de ginga”, destaca. Leveza, irreverência e espontaneidade são pontos levantados pela VP como diferenciais do conceito de brasilidade trabalhado pela marca.
Questão Brasil
Porém, brasilidade é uma definição que ensaia qualificar um país mais do que vasto e com múltiplos Brasis em si. Fora que o tempo caminha, e uma nação muda constantemente, tanto pelo olhar do próprio povo quanto por percepções externas. “O desafio segue o mesmo: conquistar o coração de todas as pessoas, todos os dias”, diz a VP global de marketing da Havaianas, que ressalta que o que muda são as expressões da marca, para que ela se mantenha relevante.
“O lado admirado do brasileiro – acolhedor, alegre, criativo, bem-humorado – permanece, ganhando novas nuances, como o seu jeito único de se expressar. A essência não muda”, explica. “A brasilidade de Havaianas é, e sempre foi, um dos nossos principais diferenciais competitivos. Ela não apenas reflete a cultura brasileira, como também está presente nos produtos e em toda a comunicação.”
Por outro lado, o mesmo conceito da Kenner é trabalhado com elementos da cultura urbana periférica, música e funk. “Não contamos uma história de brasilidade estereotipada, mas muito verdadeira em cima do design urbano que a Kenner carrega, que nem sempre é o primeiro código percebido quando se pensa em Brasil”, explica a diretora de marketing, Laura Leal.

Campanha da Kenner com cantora Anitta, embaixadora da marca
“Eu não tenho nenhum problema com estereótipo, até porque ele também é importante para evidenciar o caráter do país.
Porém, para nós, o atributo central é o produto em si, sua qualidade. A sandália da Kenner é de altíssima durabilidade, você pode ter uma para a vida inteira”, afirma Leal. “Existimos desde a década de 1980 com foco no segmento que chamamos de premium, não é o chinelo de todo dia que você compra por 50 reais ou menos, mas de opções acima de 100, 200 ou 300 reais.”
A diretora de marketing ressalta que a França é o principal mercado estrangeiro da marca, mas que toda a estratégia de comunicação, e o próprio produto, mantêm a essência onde quer que estejam. “O que eu vejo no VillageMall (shopping no Rio de Janeiro) é a mesma coisa que eu encontrei na Avenida Champs-Élysées (Paris). A Kenner mantém a potência de ser quem é em todos os pontos de contato”, explica Laura Leal. “Em nosso Instagram, a conversa é ligada muito à nossa comunidade urbana, com alma carioca, e você vê essas mesmas imagens em todos os lugares. Isso é interessante pois traz uma consistência que é, de fato, o que transforma uma marca em premium”, finaliza.
Por Thiago Andrill | Matéria publicada na edição 140 da Versatille



