Como o Rosewood São Paulo chegou ao 6º lugar entre os melhores hotéis do mundo

Alexandre Allard, idealizador do hotel instalado no antigo Hospital Matarazzo, falou à Versatille sobre a criação do projeto, a identidade brasileira e a colaboração com Jean Nouvel e Philippe Starck

Piscina Rosewood São Paulo (divulgação)
Em um ângulo pouco usual, a piscina do Rosewood São Paulo, na Bela Vista (divulgação)

Por Celso Masson

 

Em um feito inédito para a hotelaria de luxo no Brasil, o Rosewood São Paulo alcançou a sexta posição no The World’s 50 Best Hotels 2026, tornando-se o hotel com a colocação da América do Sul no ranking. Anunciado em Paris, o resultado foi definido pelos votos de cerca de 800 especialistas internacionais. Em outra avaliação, anuciada no dia 18 de setembro, o hotel recebeu Três Chaves (a máxima cotação) no Guia Michelin 2026.

 

Alexandre Allard (divulgação)

Alexandre Allard (divulgação)

 

Para Alexandre Allard, criador e idealizador do empreendimento, porém, o reconhecimento é resultado de uma ideia perseguida desde o início: criar um hotel internacionalmente relevante justamente por sua conexão com São Paulo e com o Brasil. “Eu não queria fazer um hotel internacional no Brasil. Isso seria muito fácil. Queria fazer o contrário: descobrir o que um hotel poderia ser se nascesse verdadeiramente deste lugar”, afirma Allard à Versatille. “O Brasil tem uma cultura extremamente sofisticada, uma relação muito particular com a natureza, uma produção artística excepcional e uma história que ainda está sendo contada. O que eu queria era criar um lugar capaz de reunir tudo isso sem transformar o Brasil em uma caricatura de si mesmo.”

 

Inaugurado em 2022, o Rosewood ocupa parte do conjunto histórico do antigo Hospital Matarazzo, na Bela Vista, a poucos metros da Avenida Paulista. A recuperação das construções existentes foi combinada à criação da Torre Mata Atlântica, projetada pelo arquiteto francês Jean Nouvel, vencedor do prêmio Pritzker, e integrada à vegetação do complexo.

 

Fachada da Torre Mata Atlântica (André Klotz)

Fachada da Torre Mata Atlântica (André Klotz)

 

Preservar a memória do lugar era uma das condições do projeto. “Aquele lugar já tinha uma história antes de nós. A antiga maternidade fazia parte da memória afetiva de São Paulo e de muitas famílias brasileiras. Eu não queria apagar essa memória. Ao contrário: queria trabalhar com ela.”

 

Essa relação entre patrimônio e intervenção contemporânea acabou definindo boa parte do Rosewood. “O desafio nunca foi escolher entre preservar o passado ou construir o futuro. Era justamente fazer os dois coexistirem”, diz. “O Rosewood nasceu dentro de um patrimônio histórico, mas com uma ambição muito contemporânea.”

 

Um hotel que só poderia existir aqui

 

Essa ambição também orientou a escolha dos profissionais envolvidos. Jean Nouvel concebeu a Torre Mata Atlântica, enquanto Philippe Starck assumiu a direção artística e o design de interiores. Allard, porém, diz que não pretendia simplesmente importar para São Paulo o repertório de dois nomes consagrados internacionalmente.

 

“A pergunta era: o que acontece quando dois grandes criadores internacionais mergulham verdadeiramente na cultura brasileira?”, conta. “Starck, por exemplo, fez uma imersão nos materiais, nos artesãos e na produção brasileira. O resultado aparece nos móveis, nas madeiras, nos objetos, nas referências à literatura e em inúmeros detalhes do hotel.”

 

 

 

Os materiais ajudam a dar dimensão a esse processo. O projeto empregou cerca de 17 mil toneladas de pedras provenientes de estados como Bahia e Espírito Santo. “Acho que essa é uma das grandes forças do Rosewood São Paulo: não é uma arquitetura internacional colocada no Brasil. É uma arquitetura internacional que encontrou no Brasil uma nova possibilidade de expressão”, afirma.

 

A arte segue a mesma lógica. Em vez de funcionar apenas como elemento decorativo, foi incorporada ao projeto desde sua concepção. A coleção permanente reúne mais de 450 obras de cerca de 50 artistas brasileiros, sob curadoria de Marc Pottier, muitas delas produzidas especificamente para os espaços do hotel. O conjunto atravessa diferentes regiões, gerações e linguagens, incluindo arte indígena, afro-brasileira, popular, urbana e contemporânea.

 

Uma das 450 obras de arte que integram o acervo permanente (divulgação)

Uma das 450 obras de arte que integram o acervo permanente (divulgação)

 

“Não queríamos simplesmente decorar um hotel. Queríamos criar uma experiência cultural”, diz Allard. “A arte está na arquitetura, nos espaços, nos objetos, nos detalhes. Ela não foi uma camada aplicada posteriormente. Faz parte da própria construção da experiência.” Para ele, essa escolha está ligada a uma definição particular de luxo. “Luxo não é excesso. Luxo é autenticidade. É criar algo que tenha uma razão de existir e que não poderia estar em qualquer outro lugar.”

 

Daí uma pergunta que, segundo Allard, acompanhou todo o desenvolvimento do projeto: “O que podemos criar aqui que não poderia ser criado em nenhum outro lugar do mundo? “Essa pergunta muda completamente o processo criativo. Ela leva você ao patrimônio, à arquitetura, à arte, aos artistas brasileiros, aos materiais, à gastronomia, à natureza e, principalmente, às pessoas”, afirma. “O projeto precisava ter uma alma brasileira, mas não uma brasilidade óbvia. Queríamos revelar um Brasil contemporâneo, sofisticado, criativo e profundamente conectado à sua história.”

 

Do Rosewood à Mata

 

O hotel acabou se tornando a primeira peça de um projeto maior. A Cidade Matarazzo passou a ser apresentada como Mata São Paulo e hoje reúne, além do Rosewood, restaurantes, espaços culturais, lojas e iniciativas ligadas a negócios e sustentabilidade. Allard pretende levar a mesma maneira de pensar a outros projetos, entre eles Mata Maravilha, no Rio de Janeiro, e Mata Pelourinho, em Salvador.

 

De Luxe Suite (divulgação)

Detalhe de uma das suítes da categoria De Luxe: decoração que valoriza elementos culturais do Brasil (divulgação)

 

Ele ressalta, porém, que a intenção não é reproduzir o Rosewood em outros endereços. “Não acredito em fórmulas. Cada lugar tem sua própria história, sua própria natureza, sua própria cultura e precisa encontrar sua própria expressão. O que podemos levar de um projeto para outro é uma maneira de pensar: encontrar o que existe de único em cada lugar e transformar isso em uma experiência capaz de ter relevância internacional”, diz. “Para mim, é aí que está o verdadeiro modelo de negócio. Não em repetir o que funcionou, mas em construir, em cada novo projeto, algo que tenha valor justamente porque é único.”

 

Quatro anos depois da inauguração do Rosewood São Paulo, o sexto lugar no The World’s 50 Best Hotels oferece uma medida internacional da repercussão dessa proposta. Allard prefere enxergá-lo também como uma responsabilidade. “Ser reconhecido entre os melhores hotéis do mundo é extraordinário, mas também significa que precisamos continuar fazendo perguntas. Como evoluir? Como continuar surpreendendo? Como aprofundar a relação com o Brasil?”, afirma. “Eu não gostaria que o Rosewood São Paulo fosse lembrado apenas como um hotel que ganhou um prêmio. Gostaria que fosse lembrado como um projeto que ajudou a mostrar uma nova maneira de olhar para São Paulo, para o Brasil e para a própria ideia de hospitalidade.”

 

Ao resumir a ideia que orientou o projeto desde o início, Allard chega a uma frase que também ajuda a explicar por que um hotel tão ancorado em seu endereço passou a chamar atenção fora dele: “Não queríamos trazer o mundo para São Paulo; queríamos criar em São Paulo algo que o mundo quisesse descobrir.”