Casa de Criadores N56 celebra a pluralidade identitária e a coragem de bancar ser o que se é
Com 33 desfiles, o evento aconteceu da terça-feira (22) ao sábado (26), no CCSP. Confira os destaques

Idealizada por André Hidalgo, a Casa de Criadores é a grande passarela da moda independente no Brasil. Nela, é comum haver diálogos sobre identidade, política, respeito, riso e diversão. Tudo, no fim, talvez seja a mesma coisa, mas sempre em forma de roupa. A 56ª edição não foi diferente e a largada foi dada com um retorno. A estilista Fabia Bercsek voltou às passarelas do evento, que aconteceu da terça-feira (22) ao sábado (26), no Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Instagram/Fabia Bercsek
Antes, a marca era conhecida pela silhueta tradicionalmente feminina – pense em muito volume em tecidos como tule – associada à alfaiataria. Já na semana passada, a imagem surgiu atualizada com uma boa dose de streetwear. Moletons folgados, jaquetas puffers bordadas e vestidos-camisetas deixavam o corpo livre. O jeans apareceu resinado e com aplicações de bordados, além de manchas de tinta. Destaque para as ilustrações, feitas pela própria estilista, de rostos meio vampirescos.
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Sai o despojamento de Bercsek e entra a elegância mais austera de Ale Brito X Studio 115, que fez uma investigação da alfaiataria. Ombros ressaltados em uma releitura mais sóbria dos anos 1980, calça de cintura alta marcada e mangas de blusas exageradas em comprimento são alguns dos elementos trabalhados por Ale.
A silhueta fazia menção às vestimentas dos séculos 18 e 19, como no caso do corset combinado à uma saia oversized de camadas, o sobretudo com os quadris ressaltados em alusão às ancas, e a gola, exagerada como a de Drácula, em um vestido preto aveludado.

Ale Brito (@pradellapedro)
Casos de família
Já na apresentação de Guilherme Dutra, a alfaiataria também foi o ponto central do trabalho, que resgatou suas memórias de infância. Do seu avô, por exemplo, veio a inspiração para os blazers e as calças.
Sobretudo folgado com lapela de couro combinado com calça jeans ampla, blusas e calças de seda pareadas com corpete de renda, além de um paletó curto de lã preta com ombros marcados, foram algumas das experimentações. Da casa dos avós veio ainda a lembrança das bonecas antigas que ficavam em um armário, daí a estamparia creme e as luvas cor de rosa, com ar romântico e bucólico.

Guilherme Dutra (Foto: Roger Souto)
Por sua vez, o desfile de Rober Dognani também partiu de um mergulho na própria história familiar. O estilista, conhecido pelo ar dramático e exagerado, investigou a veia dada à expansão que corre em si e lançou a pergunta: “De onde vem esse gosto pelo drama?”
Recordou-se, então, de quando via, ao lado de sua mãe, alguns álbuns de fotos da família. Dessas visitas, sempre surgiam mil histórias dos antepassados, como a de uma tia-avó que morreu quando era criança e teve seu cadáver jogado no mar. Os contos meio dramáticos permeiam seu imaginário há anos e, finalmente, deram as caras na passarela.
Blusas de seda preta com ar de Nosferatu e vestidos de tule da mesma cor, transparentes com bordados, criaram uma atmosfera noturna. Golas e mangas vitorianas, muita renda, capas e saias gigantes reforçaram o visual meio vitoriano, meio hispânico.

Rober Dognani (@siquixas)
As ombreiras também surgem destacadas, e a releitura dos anos 1980 marca forte presença. Aqui, ela aparece em uma jaqueta de couro com calça jeans cargo. Dramático como os antepassados em crinolina, mas atualizado para 2025.
As homenagens continuam
Ainda com foco no drama da vida real, a Nalimo, de Day Molina, fez um tributo com seu desfile ao ambientalista e líder sindical Chico Mendes, assassinado em 1988 por fazendeiros que eram contra sua atuação política na Amazônia. A estilista homenageou o ativista e a região com corsets – uma aposta alta da Casa de Criadores – feitos de couro de tilápia e pirarucu.
Coletes usados pelos modelos, com aplicações de tecido, fazem alusão à vestimenta dos seringueiros. Já bordados de sementes de pau-brasil foram feitos em blusas e vestidos, em referência à silhueta dos rios da Amazônia. Day Molina ainda trabalhou com o látex, proveniente do trabalho de seringueiros, e deu forma a vestidos.

Foto: Gustavo Sena
Quebra-cabeça
O diretor criativo Leandro Benites se inspirou em técnicas de upcycling para reutilização e ressignificação da vida de materiais. A sua Le Benites é conhecida pelo streetwear com toque futurista, tudo feito com uma espécie de patchwork de diferentes texturas e cores que se encaixam com harmonia. Esse efeito quebra-cabeça surgiu na passarela em calças cargo e vestidos-moletom de tartan com florais.
A alfaiataria é trabalhada com a inserção de diferentes materiais, como retalhos de estampas gráficas e tiras de couro com cores diferentes. Regatas justas, cropped, sungas supercurtas e um bom toque utilitário trazem ainda esse visual futurista e urbano.

Foto: Haaron Santana
A cara no sol
Por fim, outro destaque desta edição da Casa de Criadores foi a NotEqual, que se debruçou sobre o tema circense em 2023 e vem desenvolvendo essa pesquisa até hoje. Muitos dos tecidos vêm de peças que o diretor criativo Fábio Costa ganhou do acervo de Wanda Sgarbi, cenógrafa e figurinista que já assinou produções para o grupo Corpo, de dança, e para a companhia de teatro Galpão.
As proporções são exageradas, com calças de cintura alta e pernas amplas, vestidos camisola de seda, robes e saia evasê. Ombreiras marcadas – mais uma vez no evento – e listras fazem referência aos palhaços. Plissados, transparência no tule, quadriculados coloridos, plumas e uma estampa bordada de flores em cetim, que ofereceu um toque à apresentação um tanto dândi, talvez oriental, foram alguns dos recursos que construíram a atmosfera circense de cor e movimento.

NotEqual (Foto: Divulgação)
Há também propostas mais sóbrias, que passam longe do quiet luxury, em sobreposições de peças monocromáticas e elegantes. E muitos desses looks foram combinados a sandálias puffer da Kenner, feitas em parceria com a Ovni Company, que deram um elemento contemporâneo, com ar futurista. Olhar para a tradição, nesse caso representada pelo circo, e projetar um presente e futuro com mais possibilidade de referências é uma amarração que conduziu muitas apresentações da semana.
Acontece que, desde sempre, a Casa de Criadores foca em reflexões acerca da identidade. Volta-se mais às bilhões de caras que uma pessoa pode ter e bancar por aí, do que aos números precisos e comerciais do mercado. E disso, há 56 edições, o evento colhe alguns ônus; mas provavelmente os bônus compensam mais.
Por Thiago Andrill



