Balenciaga se despede de deboche de Demna e Margiela estreia com Martens celebrando raízes urbanas e oníricas

Idas e vindas na Alta-Costura: a quarta-feira (9) foi marcada por encerramentos de ciclos e novos começos em grandes maisons

Isabelle Huppert (Foto: Instagram Balenciaga)

Para sua despedida da Balenciaga nesta quarta-feira (9), em Paris, o diretor criativo Demna Gvasalia, na maison há 10 anos, partiu de um estudo dos códigos de vestimenta da burguesia, como tem feito desde que assumiu o posto. Nesta coleção de Alta-Costura, mulheres como a atriz Isabelle Huppert (uma das musas da label) usaram uma alfaiataria monumental com lapelas tulipa que emolduram o rosto, além de golas elaboradas no estilo Nosferatu.

 

Foto: Instagram Balenciaga

 

Ao longo da última década, Demna Gvasalia, que nasceu na Geórgia e cresceu em um ambiente de pobreza soviética, sempre misturou seus primeiros referenciais à riqueza da burguesia francesa. Toques de streetwear, provocação e deboche com os mais afortunados são marcas que ele deixa como legado e, na mais recente e última apresentação, não poderia ser diferente.

 

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Casacos esportivos são combinados à seda e à alfaiataria impecavelmente cortada e um vestido inteiro de lantejoulas ganha uma estampa floral de 1957, em referência à toalha de mesa da cozinha de sua avó. A era de ouro de Hollywood, uma obsessão do diretor, também surge, como em um vestido preto de lantejoulas usado por Naomi Campbell e inspirado em Marilyn Monroe. Já Kim Kardashian desfilou com um vestido camisola de seda bege justo ao corpo, um casaco de penas bordadas da mesma cor e brincos de diamante. O look foi uma homenagem à Elizabeth Taylor.

 

Naomi Campbell (Foto: Instagram Balenciaga)

 

A alfaiataria foi criada em parceria com ateliês familiares de Nápoles, em um estilo mais desestruturado e solto. O corpo define a peça pela falta de rigidez, não o contrário. Já o clássico vestido de noiva foi montado com renda guipir sem costura. Uma das maiores musas do criativo, a artista plástica Eliza Douglas, foi a última a cruzar a passarela de Demna.

 

Essa peça minimalista e escultural, carregada com estranheza pela expressão da modelo, foi uma ótima assinatura final do diretor; alinhada à essência arquitetônica do fundador, Cristóbal Balenciaga. E, pela primeira vez em uma década, Demna Gvasalia entrou na passarela ao término da apresentação para receber os aplausos. Seu próximo capítulo? O comando criativo da Gucci.

 

De volta ao início do novo

 

Porém, mantenhamos o foco na Alta-Costura. Enquanto uns vão, como Demna, outros chegam, como é o caso do diretor criativo Glenn Martens, que estreou na Maison Margiela em sua linha Artisanal. O criativo fez seu primeiro desfile na noite de quarta (9), em Paris, na mesma sala onde o fundador homônimo Martin Margiela apresentou sua última coleção, em 2008. 

 

A coleção, inteiramente feita à mão, celebra códigos clássicos, como os rostos totalmente cobertos das modelos. Seu sucessor, John Galliano, chegou a utilizar o recurso algumas vezes, mas agora esse elemento surge em todos os looks da Couture. Também estavam presentes outros elementos cruciais da identidade, como o jeans, a alfaiataria desconstruída, a tapeçaria como estampa e o efeito plástico, esse em vestidos longos.

 

 

Uma diferença entre Galliano e Martens que vale destacar é que o primeiro tinha uma predileção pelo fantástico, mas por um viés quase de conto de fadas. A magia continua, é claro, afinal é Alta-Costura. Porém, Glenn Martens apresenta uma coleção mais sintonizada à abordagem urbana, meio bruta, meio onírica, criada pelo próprio Martin Margiela na fundação da marca. 

 

Esta exploração, em truques como o cetim que escorrega dos pés à cabeça como areia ou plasma, ou no couro que tem efeito plástico, é alcançada graças à uma capacidade refinada de manusear materiais; um ponto em comum entre Martens e o próprio Margiela. 

 

A aptidão em alquimia, em transformar estados, é ligada a Martens em seu trabalho na Diesel. E esta expertise experimental, aliada ao histórico de Margiela de enganar os olhos, mostrou, em Paris, que encontrou uma casa para chamar de sua. 

 

Por Thiago Andrill



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